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Wednesday, July 08, 2009

Mudanças

Michigan ficou para trás e passo os últimos dias em solo Americano, na cidade de Boston. A partir do dia 13 de Julho de 2009, nova residência, novo trabalho, novos desafios, novas experiências de vida.

E este blog também está de mudança. O seu novo endereço: http://fragmentosdeinstantes.blogspot.com


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Sunday, March 08, 2009

Silêncio, por favor

a palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro.
Leão Tolstoy, in Guerra & Paz

No Domingo passado, no programa de rádio "Speaking of Faith", produzido e apresentado por Krista Tippett e emitido pela National Public Radio, a depressão foi o tema abordado. O que prendeu a minha atenção ao programa foi a conversa da apresentadora com Parker Palmer. Imerso no seu quadro depressivo, ele admitiu à Krista que se afastara totalmente das pessoas e da natureza, i.e. perdera a capacidade de desfrutar de uma tarde soalheira, de admirar uma flor... Falou disso, exemplificando que muitos amigos, numa tentativa de o ajudarem a sair da depressão, iam visitá-lo e diziam-lhe: Mas porque estás assim? Olha como está uma tarde bonita lá fora! E essas visitas tornavam-se muito penosas porque para ele a vida, nesse momento, não fazia sentido e lembrarem-lhe disso só o infelicitava mais. Elogios sobre a sua pessoa, o seu percurso profissional e pessoal, só o faziam sentir que tinha defraudado as pessoas que o rodeavam.
Contudo, um amigo pediu-lhe autorização para visitá-lo e todos os dias, cerca das 16h, aparecia, tirava-lhe os sapatos e massajava-lhe os pés, raramente falando. Parker confessa que esses momentos ajudaram-no muito porque parecia que a única parte do seu corpo capaz de responder a um estímulo exterior eram os pés e esse amigo tinha conseguido comunicar com ele.
Este episódio fez-me reflectir que o silêncio, muitas vezes, é confundido com falta de diálogo e que, frequentemente, falamos muito, não dando oportunidade a outras formas de conversa entre duas pessoas. Acrescente-se que saber ouvir é uma arte que tem de ser trabalhada ao longo da vida. Até que ponto acreditamos que somos "bons ouvintes" e na verdade somente ouvimos o nosso EU e projectamos os nossos dilemas e visões do mundo na pessoa que está a tentar comunicar connosco? No saber ouvir podemos então apreender que aquela pessoa defronte a nós quer somente sentir a nossa presença e que isso é igualmente uma forma de diálogo, talvez até mais profunda porque é sentida intensamente. A amizade autêntica e duradoira exige esta capacidade para nos despirmos das máscaras que nos impedem de conseguirmos ouvir o outro. Saber escutar o que não é dito por palavras é fundamental.
Relembro o poema "Silêncio", de Fyodor Tyutchev (1803-1873):
Não fales, esconde-te, e protege
o modo como sonhas, o que sentes.
Nas profundezas da tua alma, deixa-os elevarem-se
assim como as estrelas nos céus cristalinos
antes da noite ficar indistinta:
Delicia-te neles e não fales.
Como pode um coração encontrar uma forma de se exprimir?
Como pode outra pessoa saber o que pensas?
Poderá discernir o que te move?
Um pensamento, uma vez dito, torna-se falso.
A água da fonte fica escurecida, quando agitada:
bebe da fonte e não fales.
Vive no teu interior sozinho
dentro da tua alma um mundo cresceu,
a magia dos pensamentos velados que podem
ficar encandeados pela luz exterior,
afogados pelo barulho do dia, não ouvidos
aceita a sua música e não fales.

Sunday, February 01, 2009

Sol

Da sala do meu apartamento

Prefiro esta imagem: céu limpo, azul e infindo! A neve está a derreter a bom ritmo porque hoje, excepcionalmente, a temperatura está acima dos 0º C.

Wednesday, January 28, 2009

Neve

Da sala do meu apartamento

Na Primavera e Verão, a vista da janela da sala é-me tão aprazível: árvores com folhas viçosas, muita relva, pássaros a cantarolar e esquilos em alegre correria. Agora, é a neve e o céu nublado. Há quem adore o Inverno e a neve, contudo a mim provoca-me uma tristeza infinda. Fico tão acabrunhada e recolhida que nem consigo apreciar o seu lado belo. Na verdade, é admirável o branco, contrastando com as cores mais escuras dos edifícios.

Tuesday, January 20, 2009

Esperança

Faltavam uns quinze minutos para o meio-dia quando arrastei o meu colega de gabinete para o auditório do hospital. Convenci-o a acompanhar-me para assistirmos à tomada de posse do 44.º Presidente dos Estados Unidos da América. A sala já estava bem composta, por isso, tivemos que ficar de pé. Valeu a pena porque mais do que presenciar um evento histórico, senti que estava a viver um momento que os Americanos querem/desejam que seja de mudança, de renovação, de transformação.
Se de início fui uma espectadora atenta mas distante, após o empossamento de Barack Obama dei por mim a acompanhar os meus colegas de trabalho num retumbante aplauso de alegria. De seguida, o discurso conciliador aliado à excelente capacidade oratória de Obama, galvanizou a audiência que se comportava como se estivesse em Washington, aplaudindo, rindo, concordando...
Da mensagem do Presidente Obama retive a palavra "Esperança". Contudo, não caiamos no erro fácil de transferir toda a esperança neste Presidente e na sua equipa. Pelo contrário, que cada um tenha esperança em si mesmo. Que cada um acredite em si e naquilo que pode contribuir para a sociedade. Abandonei o auditório com mais esperança em mim própria, com mais determinação para traçar o meu caminho porque se cada um fizer aquilo que sabe melhor, da melhor forma, contribuiremos todos para uma sociedade mais justa.
Há tanta esperança no ar...

Monday, June 23, 2008

Lição de amor

Gosto de ouvir "The Story", programa produzido pela rádio pública do estado da Carolina do Norte e apresentado por Dick Gordon. The Story dá a oportunidade a cidadãos anónimos contarem a sua história que pode ter sido uma experiência traumática, uma benção recebida, um reconhecimento público a alguém que faleceu e que se sente que é necessário prestar uma homenagem única. Evidentemente, facilmente este tipo de programa pode cair na devassa da vida íntima das pessoas mas Dick Gordon é o condutor ideal. Seja um tema doloroso, seja um acontecimento de júbilo, Dick Gordon mantem a mesma entoação segura, suave e curiosa no sentido de fazer com que o seu interlocutor fale à vontade, quiçá fazendo com que se esqueça que há um microfone à frente. Assim, estamos todos juntos: o(s) contador(es) da história, Dick Gordon e todos os ouvintes, que permanecem num silêncio cúmplice.


O que ouvi hoje incitou-me finalmente a escrever sobre o programa que já faz parte do meu fim de dia. Neste fim de semana, um casal da Carolina do Norte casou-se pela primeira vez na igreja para renovação dos votos efectuados há quarenta anos. Na altura, o casamento não pôde ter sido realizado dentro da igreja. Não vou entrar nos detalhes mas o que importa é esta lição de amor:


Omelia, negra, casou-se com Alvin, branco, nos idos anos de 1968. Quando Alvin comunicou aos seus pais a sua intenção - tinha ido sozinho visitá-los por altura do Natal - o pai levantou-se e saiu de casa, ficando a mãe e o filho sem trocarem palavra. Na cerimónia de casamento, só apareceram os familiares da Omelia. Quatro anos depois, quando nasceu o segundo filho do casal, o pai de Alvin telefonou-lhe a perguntar "Precisam de companhia?" ao que Alvin respondeu "Precisamos." Alvin, que estava no trabalho, telefonou à esposa e perguntou-lhe "Precisas de companhia?". Omelia percebeu o que se passava porque já tinha havido um telefonema para a casa, onde a sogra se identificara e pedira o telefone do trabalho do filho. Omelia e Alvin estiveram até às 3h da manhã a limpar a casa e ela depois levantou-se cedo para fazer comida para as visitas. Os pais de Alvin chegaram e as apresentações começaram. Omelia já tinha 3 filhas de um relacionamento anterior. Omelia disse a Dick Gordon que sentiu que tudo iria ficar bem quando a sogra pegou no recém-nascido. À pergunta do locutor se ela não pensou em "cobrar" pela recusa em conhecê-la desde o início, ela disse que tal não lhe passara pela cabeça porque o que interessava era que os pais do seu marido estavam aí e tudo o que tinha acontecido no passado... fazia parte do passado. Omelia acrescentou também que nunca se falou sobre o que se tinha passado e que somente muitos anos mais tarde... estava ela e o Alvin casados havia 25 anos quando o sogro lhe disse "Pensei que o casamento só fosse durar seis meses."



Hoje, o meu pai enviou-me um poema que escreveu onde diz "É o amor e não o tempo que cura tudo."... E foi o amor, não o tempo que reuniu esta família. Que lição de amor maior do que receber alguém de braços abertos, sem fel no coração por um sofrimento passado?
E hoje lembrei-me que os meus pais, o Chico-Pai e a Maguy-Mãe, vão fazer quarenta anos de casados e não poderei estar por perto para aquele abraço infindo... mas não me vou cansar de lhes repetir o quanto os amo e que um dos melhores ensinamentos que me deram foi o de assumir sempre as minhas responsabilidades.

Tuesday, June 10, 2008

Náufragos...

A minha imagem de tranquilidade, de sintonia com a existência humana e com a natureza é a de um ancião de cabelos e barba brancos, vestido de forma simples e com um boné a proteger-lhe os olhos do sol impedioso. Está sentado num mocho, por baixo de uma das janelas da sua casa de piso térreo e construída em pedra negra, com as mãos a repousarem nos joelhos. A casa está situada algures numa encosta no interior da ilha de Santiago. Com uma vida levada na esperança de boas chuvas e de um bom ano de colheita, nesse momento, ele sorri porque tudo à sua volta está verde. A natureza dar-lhe-á o que ele precisa e ele contempla-a extasiado.

Ontem, fez um mês que cheguei aos Estados Unidos. Estou em Detroit há três semanas e comecei a trabalhar há uma. Com o meu regresso a Detroit, reencontrei o Said que já se interrogava sobre o meu paradeiro visto ter-lhe dito que regressaria em Janeiro e que lhe telefonaria para ele ir buscar-me ao aeroporto. Através dele, tenho conhecido outros árabes africanos, para além de ir-me cruzando com os clientes dele, de passagem por Detroit ou residentes como eu. As minhas conversas com ele e com os seus amigos árabes são tranquilas, sem pressas. Em comum, o facto de sermos de origem africana e emigrantes.

A minha vivência fica mais prenhe, mais rica e aprendo muito mais sobre como levar uma existência mais plena conversando com estas pessoas, indo assim ao encontro do ancião sentado à porta da sua casa feita de pedra e contemplar com ele a natureza. Pressinto que quanto mais conhecimentos adquiro mais me afasto do verdadeiro sentido da existência humana. Talvez seja por isso que os textos de Leão Tolstoy repercutam tanto dentro de mim, proporcionando-me a tranquilidade almejada. Após os sucessos estrondosos das obras Guerra & Paz e Ana Karenina, Tolstoy, até à sua morte, voltou-se para a sabedoria popular e para a busca incessante sobre o sentido da vida. Os diálogos sobre o nosso quotidiano são em inglês, uma língua estranha para todos nós por não ser a nossa língua materna e que se torna muitas vezes insuficiente para exteriorizarmos o nosso estado de alma. Contudo, eles ficam enriquecidos por olhares brilhantes e gestos de agradecimento e de apreciação, tornando-nos mais próximos porque, na verdade, somos todos náufragos.

Independentemente dos motivos que levaram cada um de nós a partir, a deixar a Pátria-amada, e a encontramo-nos aqui em Detroit, para nós terra alheia, somos náufragos porque seremos sempre sobreviventes ... convictos de termos sido impiedosamente arrancados do nosso ninho - das referências que dão sentido à nossa vida.

Friday, May 16, 2008

Prosperidade

Prospect, ainda um cachorrinho



"Prospect, for prosperity", foi assim que o meu irmão e a minha cunhada justificaram o nome dado ao cão que faz parte da família há quase um ano. Pertence a uma raça que me causa grandes dissabores quando tento dizê-lo: dachshund. Lá me vão educando sobre as características desta raça, sendo a sexta preferida pelos norte-americanos.

Tem um porte um tanto ou quanto felino que contrasta com o seu tamanho pequeno. Olha nos olhos das pessoas e é muito atento, especialmente quando a comida está presente. Se estamos em divisões diferentes da casa, gosta de ir "controlando" onde cada um está, não vá perder um. Agora mesmo, decidiu que queria dar uma soneca. Aproximou-se de mim, saltou para o meu colo e está num sono solto enquanto escrevo estas linhas sobre ele.

Nunca fui grande fã de caninos mas este conseguiu cativar-me. Como diz o meu irmão "Ele olha nos olhos das pessoas!". Não há maneira de resistir a esse olhar...


Já me abandonou... É que aqui chegou o cheiro a almoço!



Maggs

Monday, May 12, 2008

A partida

Mais uma vez, era chegada a hora da partida. Grande azáfama e o nervosismo que aumentava porque o táxi não chegava para nos levar ao aeroporto. Depois de uma longa espera, apareceu um e o taxista justificando que era a hora do almoço, i.e. das 13h às 14h "é complicado conseguir um táxi"...
Colocámos as duas malas no porta-bagagens, a minha tia e a minha mãe instaladas no banco de trás. Mal fechei a porta traseira do carro, o taxista arrancou. Fiquei especada a ver o carro partir, parando uns cinquenta metros à frente. Caminhei para o táxi e o senhor desdobrou-se em pedidos de desculpas porque não tinha percebido que eu também iria viajar. No banco de trás, a minha tia e a minha mãe numa risada alegre. E eu respondi: "Se calhar, eu é que devo ficar."
Como iria viajar na SATA até Boston, a partida seria no terminal 2. Não vou tecer grandes comentários sobre o terminal... Ainda parece um estaleiro de obras em algumas partes e eu não compreendo muito bem a sua finalidade. Dizem eles que é para vôos domésticos mas eu iria num vôo internacional... E, pessoalmente, não considero nada agradável fazer aquela viagem de autocarro até ao avião...
A escala em Ponta Delgada torna-se, de certa maneira, agradável porque ao fim de duas horas de viagem, faz-se uma "pausa" e exercita-se as pernas numa das salas de embarque do aeroporto. Depois, são mais cinco horas de viagem até Boston. Uma hora depois de termos partido de Ponta Delgada, oiço pelo altifalante: "Srª Margarida Fragoso, por favor, diriga-se a um assistente de bordo." Lembrei-me de uma situação semelhante que tinha vivido há uns anos atrás quando viajei até Londres para visitar uma amiga. Na altura, a notícia não era agradável, por isso, fiquei logo apreensiva. Mas o sorriso simpático do assistente com quem falei, tranquilizou-me logo: tinham uma refeição vegetariana para a Srª Margarida Fragoso mas não sabiam em que lugar ela estava sentada. É que aprendi a minha lição! Ao comprar o bilhete de avião, peço sempre "refeição especial". Desta maneira, sou das primeiras a ser servida e a comida é ligeiramente melhor.
Felizmente, a minha passagem pela Imigração foi tão suave que até estranhei. Na minha cabeça, respostas para mil e uma perguntas que me pudessem fazer. Por outro lado, a passagem pela Alfândega foi um pouco mais emotiva. Um polícia perguntou-me se trazia comida comigo e quantos dólares transportava na altura. Admito que ele apanhou-me desprevenida porque estava completamente esquecida do bacalhau que tinha trazido para o meu irmão mas depois fiz um ar doutoral e frisei que, obviamente, não trazia comida e que trazia pouco dinheiro porque tinha conta bancária nos Estados Unidos porque já trabalhava aqui. É sofrida esta passagem pela Imigração e Alfândega...
Saí tão atordoada que nem vi o meu irmão e a minha cunhada! Mas depois os abraços, a alegria do reencontro fizeram-me esquecer ... esquecer por momentos as saudades daqueles que tive de deixar para trás.
Mas, parece-me que esta é a vida de um emigrante...
Maggs

Tuesday, March 25, 2008

Trocos...

Há dias, numa loja, a minha despesa era de €16.80 e entreguei uma nota de €20. A jovem, ao abrir a caixa registadora, começa a dizer "Não, não, não", meneando a cabeça continuamente. Acto contínuo, pensei "a nota é falsa!". Mas esse lamento era somente o prenúncio da cantiga habitual:
"Não tem mais pequeno?"
"Não tem o dinheiro certo?"
"Não tenho trocos!"...
Não há maneira de me habituar a esta "chantagem", levando-me muitas vezes a não dirigir-me a determinadas lojas somente para evitar esta lengalenga.
Nas minhas primeiras idas à cantina do hospital, em Omaha, fui sempre alerta para a possibilidade de ter de ouvir este carpir mas não me lembro de uma única vez, em qualquer estabelecimento onde tenha pago com dinheiro, ouvir uma queixa por falta de trocos. Se tanto, um olhar surpreso se levasse uma nota "grande" mas com moedas para "facilitar o troco".
Será que o cliente tem de estar sujeito a isto? Será somente uma "falta de gestão" do dinheiro do caixa? Ou não há trocos suficientes a circular?

Monday, December 31, 2007

"It's all about connections..."

O meu Honda Civic - ano de colheita: 1998

No dia 20 de Novembro de 2007, tornei-me proprietária de um Honda Civic. Nos quatro dias que andámos juntos, provavelmente, ele viveu mais emoções do que nos nove anos de convivência com o dono anterior. E algo me diz que ele se sente bem confortável e seguro na garagem, não ansiando pela minha chegada.
No dia 1 de Dezembro, logo cedo fomos ao stand de automóveis colocar a matrícula definitiva. Saímos de lá, orgulhosos, no mínimo. Após um pequeno-almoço no café Caribou (com internet grátis, visto ainda não ter internet em casa), fomos ao supermercado e regressámos a casa. Depois do almoço, fomos ao centro comercial porque precisava de chaves de fenda para montar uma mesa. Quando saí do centro comercial e aproximei-me dele, notei que o pneu dianteiro do lado direito estava nitidamente em baixo. Bem devagarinho, regressámos a casa e telefonei ao meu amigo Said - o Said é um taxista que me "adoptou" porque ele sabe o que é "estar em terra estranha sozinho".
O Said, muito prestável, disse-me para não me preocupar que em meia-hora estaria em minha casa e que me arranjaria "pneus baratos e bons". Quando apareceu, olhou para o pneu e disse que ele estava em bom estado, apesar de estar em baixo, e que iríamos até à garagem de um amigo dele. Decidimos que iríamos no meu carro, com ele conduzindo. Só sei que enquanto eu procuro cumprir os limites de velocidade... com ele, foi coisa que não se viu. Pneu em baixo? Não foi limitação para a sua condução até à garagem.
Após inspeccionarem os pneus todos, tiraram o pneu com problemas e descobriram um prego. Enquanto mudavam o pneu, Said decidiu investigar a qualidade do motor do meu carro em segunda mão e dar-me uma aula sobre como ver quando o óleo devia ser mudado, etc etc. Após a sessão de esclarecimento, Said ao fechar o capô do carro, esqueceu-se do gancho que o prendia e ... partiu o gancho como também o capô do carro ficou com uma grande amolgadela, não se conseguindo fechar.
Nervoso e muito chateado consigo próprio, Said, de origem árabe, falou-me de um ditado da sua cultura que diz que ao nos empenharmos muito a delinear o contorno dos olhos com o lápis (khôl), corremos o risco de borrarmos a pintura. Era como ele se sentia. Tanto esforço em ajudar-me que já me estava a dar prejuízo. Mas disse-me logo: "não te preocupes que tenho outro amigo que tem uma oficina que faz arranjos aos carros!" Telefonou ao amigo mas já eram quase 16h de um Sábado e a oficina já estava fechada. Mas para não me preocupar que ele tinha outro amigo e que iríamos a casa dele. Disse-me que eram pessoas que ele também já tinha ajudado e que era muito importante ter esta rede de contactos. Lá fomos nós no meu Honda Civic até à casa do amigo. Consertaram-me o capô e ele, descontraído novamente, insistiu que deveríamos ir a um café árabe para compensar pela tarde "azarada". Lá fomos ao café Sindbad - bebi um chá de menta e Said fumou o seu narguilé.
Conheci o Said quando, no dia 21 de Outubro, pedi na recepção do hotel onde estava alojada um táxi para me levar ao aeroporto internacional de Detroit, de regresso a Omaha. Em Novembro e Dezembro, no espaço de uma semana, Said levou-me ao aeroporto três vezes e foi buscar-me uma vez. Num total de cinco viagens, para além de termos estado sempre à conversa, assisti a episódios de vida singulares que me fizeram sentir que para além de ele ser "a good connection", é um amigo neste processo de adaptação ao american way of living.
Em Outubro, ao entrar no carro, vi uma menina de cinco anos, sentada no lugar da frente. Said explicou-me que a filha estava de castigo, i.e. se ela tivesse ficado em casa, estaria a ver televisão e o castigo era não ver televisão. O Said é um conversador nato, por isso, falou-me das suas origens, que praticou futebol profissional na Europa e que vivia nos Estados Unidos há quinze anos. Ao chegarmos ao aeroporto, deu-me o seu cartão e que não hesitasse em entrar em contacto com ele, quando regressasse a Dearborn/Detroit.
No dia 21 de Novembro, telefonei-lhe para me levar ao aeroporto. Nesse dia, chovia torrencialmente em Dearborn e quando o Said chegou, notei uma jovem sentada no lugar da frente. Pensei logo: "deve ser a filha mais velha. Estará de castigo?" Mas não. Ao chegar ao complexo residencial onde aluguei a casa, ele viu a jovem, de nome Djamila, a caminhar à chuva e com um garrafão na mão. O carro da Djamila tinha ficado sem gasolina e Said tinha-se disponibilizado para levá-la a um posto de gasolina que ficasse perto. A jovem agradecia-nos a amabilidade porque actualmente é cada vez mais difícil prestarmos ajuda a estranhos - sim, de facto, éramos três estranhos num Lincoln, com a chuva torrencial a separar-nos do resto do mundo.
No dia 26, o Said foi buscar-me ao aeroporto. Disse-me baixinho, mal me viu: "Tenho aqui outra cliente que pode ser um excelente contacto para ti. Fala com ela durante a viagem até Dearborn." Nesse fim de tarde, o Said tinha três clientes: um engenheiro turco a viver na Alemanha e que iria trabalhar uma semana na Ford; a Nancy, uma cliente do Said desde há três anos e que trabalha em Detroit e eu. Enquanto o Said e o engenheiro falavam sobre Dearborn e Detroit, nos lugares dianteiros, a Nancy e eu iniciámos também uma interessante conversa. Por ser da costa leste americana, indicou-me os melhores locais para comprar peixe fresco em Dearborn - e isso não é um excelente contacto?

Saturday, November 10, 2007

Antecipação dos rituais de celebração

Desde que aqui cheguei tento manter-me a par dos "rituais de celebração" mas torna-se difícil acompanhar o ritmo americano. Consigo depreender a vinda de um ritual de celebração através dos objectos colocados na montra de uma das lojas dos amigos do hospital, que fica mesmo ao lado do elevador que me leva ao departamento de radioterapia.
Ainda o Inverno se encontrava bem instalado e sem vontade de ceder à Primavera, a montra mostrava-me objectos alusivos à chegada da estação das flores. Em particular, uma tabuleta de cores bonitas com a seguinte frase: "A Primavera chegou!" Sempre que lia essa frase, sentia uma grande angústia e um dia vi-me tentada a entrar na loja e perguntar à menina onde é que parava a Primavera porque eu continuava a ver neve por toda a parte!
Em pleno Agosto, o oposto acontece: a montra reveste-se em tons outonais e começam a celebrar o dia das Bruxas. Antes do dia 1 de Novembro, já tinha começado a antecipação do ritual "Acção de Graças" e esta semana, o Natal instalou-se por completo no hospital. Durante dois dias, um grande corredor foi invadido por vários tipos de prendas e de objectos alusivos ao Natal. E agora sinto que está tudo descontrolado, i.e. até ao fim de ano será a loucura total em termos financeiros e ... alimentares! Em Janeiro, voltará tudo ao estado que encontrei quando cheguei: as pessoas contidas e as rádios e televisões passando sistematicamente publicidade sobre dietas milagrosas.
Esta necessidade de antecipação dos rituais de celebração, faz-me sentir que estou a perder algo que ainda não sei bem o que é, para além da sensação que não há tempo para a apreciação com qualidade de um determinado ritual. Antes de o celebrar, já estou a pensar no próximo. Faz sentido isto?
Comprei este prato na loja dos amigos do hospital. Não consegui resistir aos girassóis e pensei que seria uma agradável recordação de Omaha e uma bela prenda para o meu novo poiso em Dearborn. Entrei decidida na loja, disse à menina que queria esse prato e cheia de brio mostrei-lhe o meu cartão do hospital para ter direito a 10% de desconto. Ela, denotando algum desprezo pela minha ignorância, disse-me que era uma peça "de Outono, por isso, tem 40% de desconto". As peças de Outono apareceram pela primeira vez em Agosto... Ainda bem que não vi o prato na altura, é o que posso dizer agora!
- Maggs -

Saturday, November 03, 2007

(Des)arranjo musical

Orquestra Sinfónica do n.º 608 de uma rua de Omaha

As janelas do meu quarto e da minha sala estão mesmo defronte desta orquestra que me proporciona momentos musicais praticamente 24h/24h. Obviamente, dou por mim à espera dos momentos de pausa musical porque não faz o meu estilo este género musical. Talvez por não apreciar este género, o instrumentista mais afoito está posicionado mesmo ao lado da janela do meu quarto. Um dia, fui investigar o "dono" deste instrumentista e descobri que pertencia ao meu vizinho do lado. Se tivesse matutado um pouco mais, nem teria valido a pena invadir o espaço da orquestra porque o meu vizinho gosta de fazer coro e presentea-me com umas gargalhadas bem agudas, em sintonia perfeita com o som difundido pela orquestra. Há cerca de dois meses, houve uma nova aquisição - o meu vizinho de cima. Esse deve pensar que os instrumentistas pertencem a uma banda militar porque as suas passadas lembram-me a marcha dos militares para além de fazer com que todo o meu apartamento entre em vibração.
Curiosidade: Os nativos daqui querem convencer-me que eu estou a morar num primeiro andar quando eu ainda acredito que estou no piso "rente ao chão", i.e. rés-do-chão. Ainda tentam ir mais longe, mostrando-me nos botões do elevador que eu trabalho no rés-do-chão em vez de ser numa cave. Continuo irredutível: moro no rés-do-chão e trabalho numa cave!
- Maggs -

Saturday, October 27, 2007

Em mudança

Ainda em Omaha... mas com o pensamento em duas cidades que começam pela letra 'D': Detroit, onde irei trabalhar e Dearborn, onde irei viver. As duas cidades, vizinhas uma da outra, estão no estado do Michigan.
De Detroit, pode-se chegar ao Canadá, atravessando uma ponte e chegando à cidade de Windsor.
Em Dearborn, cidade onde está a sede mundial da empresa automóvel Ford, encontra-se uma grande comunidade de pessoas do Médio Oriente.
No meu futuro local de trabalho, há árabes (libaneses, egípcio), um judeu. Também há um russo, chineses, indiano... claro... americanos.
Vai ser muito enriquecedor viver e trabalhar num ambiente multi-cultural. Haverá tanto para aprender e apreender.

- Maggs -

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Até finais de Novembro, este blog estará em modo intermitente. A mudança é sempre um misto de descoberta e de ansiedade.

Welcome to Detroit

Deixámos Omaha numa tarde cinzenta mas o sol brilhava quando aterrámos no aeroporto internacional de Detroit. Apanhámos um pequeno autocarro para podermos ir buscar o carro alugado. O motorista, senhor dos seus sessenta anos, olhar vivo e curioso, ajudou-nos a colocar a bagagem no autocarro e partimos. Éramos só dois passageiros - o meu chefe e eu. O motorista iniciou a conversa com a pergunta que ele devia repetir vezes sem conta no dia: "De onde vêm?" A resposta do meu chefe levou a que eles falassem sobre o futebol americano e eu calada permaneci. A conversa ía animada entre os dois discutindo futebol, falando sobre as diferenças entre Omaha e Detroit quando o meu chefe esclareceu que nós não éramos de Nebraska e que eu até era de Portugal. O motorista diz em inglês: "A única frase que sei em português é" - e diz em português - "Não sei falar português." Eu fiquei surpreendida, gargalhei e dei-lhe os parabéns. O meu chefe ficou igualmente impressionado. Depois, a conversa generalizou-se pelos três e falámos sobre os descobrimentos e sobre Portugal e Espanha. Este senhor dominava a geografia e a história de uma maneira que me deixou sem palavras. Mas depois ele confessou-nos que era reformado da marinha americana. Então, não resisti e decidi fazer-lhe o teste final: "E já ouviu falar nas Ilhas de Cabo Verde?" Ficou ofendido e disse-me orgulhosamente: "Fica na costa oeste de África!", acrescentando: "E conheço um excelente músico de origem cabo-verdiana que toca jazz!" Dizemos os dois em uníssono: "Horace Silver!" Rimo-nos e o meu chefe só dizia "Extraordinário!" O motorista acrescenta: "Eu sei o nome completo dele. É Horace Ward Martin Tavares Silva." Aí eu disse-lhe que os meus conhecimentos não íam tão longe. Sempre risonho, disse: "Afinal sei duas frases em português!", dizendo em português: "Não sei falar português" e "A canção do meu pai", fazendo referência ao tema que Horace Silver compôs em homenagem ao seu pai, cabo-verdiano de origem. Expliquei-lhe que os meus pais era cabo-verdianos mas que eu tinha nascido em França. Aí ele diz alto e bom som: "Devia casar-me consigo! É muito viajada." Chegámos ao local onde o meu chefe iria buscar o carro. Ajudou-nos novamente com a bagagem. Perguntou-me o meu nome, deu-me um firme aperto de mão e disse: "Eu sou o Robert." Igualmente, cumprimentou o meu chefe e nós agradecemos-lhe o inesquecível diálogo. Ficámos tão bem dispostos, tendo em conta que deixámos uma Omaha cinzenta e de chuva miudinha.
- Maggs -
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Conhecidos meus ao saberem que iria começar a trabalhar em Detroit, descreveram-me uma imagem muito má e não recomendável da cidade, retratando-me zonas de violência provocadas por negros. Este simpático, atencioso e culto motorista é um senhor negro e como me senti feliz que a minha primeira interacção com um nativo da cidade tenha sido assim. Evidentemente, todas as cidades têm o seu lado menos bom e o seu lado encantador. O importante é evitar ideias pré-concebidas para se tirar o melhor partido do que a vida nos proporciona.

Escândalo na cantina

Pedi ao meu amigo Jeffrey uma salada do dia com camarões picantes. A perspectiva de comer camarões picantes aliciara-me. Com o papel do pedido, dirigi-me à menina da caixa, fiz o pagamento, aguardando depois que me chamassem. Algum tempo depois ouvi uma voz da cozinha dizendo: "qual é o molho?" A menina da caixa olhou para mim, sorrindo e perguntou-me: "qual é o molho?" Respondi: "Não quero molho." Ela abriu um pouco os olhos, não comentou e voltou-se para a cozinha: "Ela não quer molho." Da cozinha: "Ela não quer molho?!" A menina, sempre de sorriso nos lábios mas agora com um olhar interrogativo: "Tem a certeza?" E inumerou a lista dos molhos que eu nem me preocupei em compreender os nomes ou mesmo escolher. Sorri de volta, agradeci e disse-lhe que não queria molho. O senhor que costuma entregar as refeições, abanando sempre a cabeça, olhou para mim: "Não quer mesmo molho nenhum?" E depois disse como se tivesse tido uma ideia brilhante: "E não quer um molho sem gordura?". Aí, admito, apeteceu-me dizer-lhes: "O que eu queria mesmo era um bom azeite." Mas achei que correria o sério risco da minha salada ser confiscada e ser, delicadamente, conduzida à saída da cantina.
- Maggs -

Thursday, October 11, 2007

Vacina contra a gripe

Ainda a decidir se o dia seria dedicado aos electrões ou aos fotões, oiço a voz de uma das auxiliares de acção médica a apregoar que hoje iria haver vacinação contra a gripe para as pessoas do departamento. Como a minha imaginação gosta de me pregar partidas, comecei a rir-me porque o tom da voz dela e a forma como ela ía passando pelas salas e corredores a repetir a mesma frase, lembrou-me a imagem dos meninos que vendem os jornais, gritando "EXTRA! EXTRA!"
Deixei a física de parte e lá fui tomar a vacina. O local da vacinação foi no próprio departamento, na sala de reuniões. Duas enfermeiras do nosso departamento encarregaram-se disso e cadeiras foram colocadas à porta da sala, para nosso conforto, à medida que preenchíamos um questionário. Também havia rebuçados...
O questionário lá me fazia a pergunta-tabu: qual era o meu número de segurança social! Recebi tantos avisos sobre a importância de eu proteger esse número de olhares alheios e de como a saúde das minhas finanças depende da forma como o guardo que nem o sei de cor, não vá alguém raptar-me e subjugar-me à tortura! Obviamente, deixei essa linha em branco.
Lá recebi a vacina e voltei à física. Devia atacar os electrões mas ando muito embalada com os fotões... Amanhã, é um novo dia e dedicar-me-ei aos electrões.
- Maggs -

Monday, October 08, 2007

Deixar Omaha

Baixa de Omaha


No dia 13 de Janeiro de 2007, cheguei a Omaha com duas malas e uma mochila às costas. No aeroporto, o meu chefe à minha espera com um papel com o meu nome e aqui descrevi o meu deslumbramento com a neve que na altura caía... Na semana passada, entreguei a minha carta de demissão e deixarei Omaha em finais de Novembro. Estou de partida para um outro estado, uma outra cidade, seguindo o meu chefe, procurando novos desafios.
Confesso que me vou embora sem ter conhecido verdadeiramente a cidade. Não o fiz, por falta de entusiasmo, de curiosidade e de algum espírito de aventura. De Omaha, conheço três supermercados, dois centros comerciais, a baixa da cidade - o meu local preferido -, o hospital onde trabalho e o sítio onde vivo.... Também conheço o jardim botânico de Omaha, onde roubei a alma a um hibisco vermelho.
Tento fazer um balanço destes praticamente dez meses que vou passar aqui e sinto que ficará a lembrança de pessoas muito afáveis. Cruzo na rua com pessoas que me são estranhas e elas sorriem, muitas vezes dizem "olá", outras chegando até a desejar "um feliz dia". Nas lojas, posso suspeitar desta simpatia, até porque vi casos extremos de sorrisos largos que me levavam a imaginar que chegada a noite, a pessoa já deitada e antes de desligar a luz do candeeiro, tirava o sorriso congelado, revelando uma expressão sem vida, para retomar no outro dia bem cedo aquela expressão de alegria encomendada. Não vou sentir saudades do facto desta cidade ser pequena - para os padrões norte-americanos - que o sistema de transportes público resume-se a autocarros que eu nunca usei. Não é uma cidade pensada para os peões ou para pessoas que, como eu, preferem usar os transportes públicos em vez de terem a sua própria viatura.
Sim, na lembrança sorrisos de pessoas afáveis tal como é o sorriso da Lynne, a senhora que trabalha na cafeteria onde todos os dias vou tomar o meu chá. Ela tem uma presença muito suave, um sorriso simpático mas de olhar distante - o que sempre me intrigou. Há cerca de um mês disse-me que era de Ohio mas que vivia em Omaha há vinte anos e que na véspera tinha visto familiares que não via desde que tinha deixado o estado de origem. Foi aí que eu compreendi o seu sorriso, o seu olhar e pensei que eu também devo ter esse olhar - o olhar de uma saudade prolongada e da expectativa de um reencontro sempre iminente.
E o Jeffrey? Também preciso falar sobre o Jeffrey. Ele trabalha na cantina onde costumo ir almoçar, registando os pedidos para o almoço. Mesmo levando a minha comida, cruzamo-nos sempre e cumprimentamo-nos. Na semana passada, fui comprar o almoço e ele olha para mim, de modo firme, dizendo: hoje, sou eu que te ofereço o almoço. Não quis aceitar mas tive de me render quando ele me mostrou senhas que precisavam ser usadas. Costuma dizer-me: tens um sorriso bonito. Mas o meu sorriso nada mais é do que o reflexo do sorriso que ele tem ao atender as pessoas. Um dia, ele contou a mim e a outra colega que tinha dois trabalhos, que estava a tirar um mestrado em psicologia e que esta profissão era o melhor sítio para ele apreender o comportamento humano, observando como as pessoas entram na cantina, o que escolhem, como falam, etc.
Há também o Robert, do centro de cálculo. O computador que eu uso para "a minha caça ao 1%" é muito temperamental, obrigando-me a ir inúmeras vezes ao centro de cálculo. O Robert é com quem me dou melhor porque está sempre lá quando apareço. Sempre tranquilo e de sorriso aberto. A senhora da recepção, se demoro algum tempo sem aparecer, diz, mal abro a porta: "Já estava a estranhar a sua ausência. Seja bem-vinda!".
Sim, levo daqui muitos sorrisos atenciosos e tranquilos. E é isso que vou colocar na minha bagagem de memórias com a etiqueta "Omaha, Nebraska, USA".
- Maggs -

Sunday, October 07, 2007

Amanhecer em NY

vista do 31º andar do Millennium UN Hotel
Oiço, frequentemente, dizer que "Deus escreve direito por linhas tortas". Também já ouvi a expressão "Quem desdenha quer comprar". Depois de um fim de semana em NY, começo a acreditar que o meu "exílio" em Omaha deve-se ao facto de um dia ter desdenhado a cidade que nunca dorme.
Passei cerca de cinco horas de uma noite do mês de Abril de 2003 na Little Italy, com um grupo de colegas. Estávamos num workshop em Filadélfia e decidimos ir jantar a NY. Provavelmente, por estar saturada de metrópoles, onde muitas vezes se torna impossível ouvirmo-nos a pensar, odiei a experiência. Odiei aquele alcatrão, o cimento, as ruas sujas, a multidão.
O que dizer deste fim de semana em NY? Qual pessoa que esteve desterrada num lugar inóspito, senti uma alegria imensa com aquele rebuliço e nem a agressidade da condução automóvel me irritou. Que prazer caminhar por ruas cheias de pessoas - cheias de histórias pessoais -. Ouvir excelente música numa estação de metro ou no Central Park - simplesmente, parando, saboreando a música e depois continuar a explorar a cidade. Ir ouvir jazz no Blue Note e simplesmente sentir-me sedenta de novos sons. A artista dessa noite, Rachelle Ferrell, foi estrondosa e a sua risada contagiante - desculpando-se com o jetlag porque a banda tinha chegado de Tóquio - foi inesquecível.
Mas, para mim, o amanhecer em NY é que vai perdurar por muito, muito tempo na minha memória. Tive a sorte e o privilégio de ficar num 31º andar do Millennium UN Hotel, defronte ao edifício das Nações Unidas, permitindo uma vista fantástica da cidade. Quando cheguei ao quarto, na primeira noite, já estava escuro. Ao abrir a porta do quarto, fui por um longo corredor até chegar ao quarto propriamente dito e que visão... janelas enormes, mostravam-me as luzes da cidade. Não tive a coragem de baixar as persianas. O meu quarto estava virado para leste, por isso, era sempre acordada pelos primeiros raios de sol. Ainda sonolenta, levantava-me e ficava à janela um bocado e depois voltava à cama e dormia por mais um bocado, apesar do sol me bater de frente no rosto - mas era isso mesmo que eu queria. Não é o girassol a minha flor favorita?

Há ainda uma outra expressão "Nunca digas desta água não beberei". Desta vez, fui beber à fonte certa e conto ir lá mais vezes saciar a sede.

Friday, October 05, 2007

Curiosidades... (III)

Estou a pensar seriamente em montar uma empresa que faça cartões de visita.
Onde costumo ir almoçar, o espaço está dividido em duas partes: uma para os "pobres" que ou levam comida de casa ou vão ao bar e outra para os "ricos" que ficam à parte e que têm direito a empregado de mesa, toalha e guardanapo de pano. Mas, os "ricos" comem o mesmo que os "pobres" que frequentam o bar. A comida é a mesma, contudo em vez de serem servidos em pratos e talheres de plástico, eles podem degustar o almoço com pratos e talheres à séria.
Hoje, ao almoço, observei um grupo de seis homens à porta da secção dos "ricos", à espera de serem conduzidos a uma mesa. Eles abriram as suas caixas de cartões de visita e começaram a trocar entre eles os cartões, tal como as crianças fazem quando estão a trocar cromos. Ou seja, antes de "quebrarem o gelo" com aquela conversa de circunstância, começaram logo a trocar os cartões não fosse o negócio correr mal e depois não se proporcionar o ambiente para a tal troca de cromos.
Bem... confesso que na semana passada, encomendei os meus cartões de visita. Mas os meus têm conchas do mar e ... se quero ir adiante com a ideia da empresa, decididamente, necessitarei de cartões de visita. E os meus têm conchas do mar!
- Maggs -