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Monday, May 26, 2008

Objectos de afecto

Esta boneca vestida com um traje típico das mulheres africanas, feita em pano, meia collant e arame, faz parte do meu mundo desde Agosto de 2003.
Estávamos num passeio habitual pela Cidade Velha, na ilha de Santiago. Fiquei encantada com o colorido dos trajes, com a forma engenhosa como as bonecas tinham sido feitas. A minha tia Isabel, fluente em wolof, aproximou-se da venda dos Senegaleses e iniciou o regateio do preço.
Mera espectadora de um diálogo que não conseguia entender, pude contudo pressentir o crescer de um misto de alegria e de tristeza por parte da vendedora.
Escolhi a boneca e aí a tristeza da vendedora pareceu dominar a alegria por ter feito negócio. Afectuosamente, acariciou e beijou a boneca, dizendo algo em wolof. Fiquei ávida pela tradução e a minha tia disse-me que ela se tinha despedido da boneca e que lhe tinha desejado felicidades.
A senhora tinha deixado o seu país, vendendo artesanato do Senegal na Cidade Velha, uma cidade que vive essencialmente dos turistas. Tinha a sua banca de venda, fazia pela vida, quem sabe tivesse deixado família próxima na terra-mãe. A sua tristeza foi genuína por ter de deixar ir algo que tinha sido criado nas suas mãos.
A boneca tornou-se, naquele instante, um objecto de afecto e tem-me acompanhado por todas as cidades onde tenho vivido desde então. É um objecto de afecto por esta mulher, por África (meu continente de eleição), por mim que sou filha da diáspora e nela me encontro. Os objectos de afecto nada mais sendo do que uma concretização material de sentimentos que nos ligam a alguém, algo...
Maggs

Wednesday, May 14, 2008

Farol

Farol D. Maria Pia, Santiago, Cabo Verde


Para matar saudades, o meu primo Didi enviou-me hoje várias fotografias da ilha de Santiago. Apreciei esta em particular por me ter feito viajar no tempo até aos ensaios que o grupo infantil Korda Kauberdi tinha no farol, sob a batuta do Djonsa "Farol". Não sei bem porquê mas vi-me como uma das cantoras do pequeno grupo. Como não segui carreira .... não preciso entrar em detalhes sobre as minhas qualidades vocais.
Igualmente, a ideia que o farol transmite: a procura de uma luz que nos conduza a bom porto e por caminhos certos.
Maggs

Saturday, August 25, 2007

Olhares

Tenho saudades do olhar daqueles que amo.
Fecho os meus olhos e revejo esses olhares que me envolvem num grande abraço de saudade.
As palavras... leva-as o vento ou adaptamo-las ao nosso estado de espírito no momento do recordar.
O olhar permanece... um olhar de amor, um olhar que nos dá força, um olhar que nos faz sorrir quando a vontade é chorar de saudades.
Por isso, fecho os meus olhos e sinto-me feliz por poder recordar todos esses olhares, muito mais que as palavras porque a intensidade do olhar permanece em mim.
Tenho saudades do olhar daqueles que amo.
- Maggs -

Wednesday, March 21, 2007

As minhas saudades

Desde que tenho internet, mal chego a casa, ainda na luta de tirar sapatos, mala e casaco, ligo o portátil para ouvir uma qualquer estação de rádio de Cabo Verde. E estando aqui na diáspora, como me apraz ainda mais ouvir falar crioulo...
Pois é, desde que tenho internet em casa, hoje a CVT deixou-me, pela primeira vez, pendurada e o silêncio incomoda-me porque apetece-me ouvir as vozes anónimas que telefonam para a rádio e falam do seu dia-a-dia. Esses telefonemas fazem-me rir, chorar - fazem-me companhia porque não quero ter televisão em casa.
Estar longe das pessoas que mais gosto, dos lugares que me são familiares e que aprendi a apreciar, faz-me valorizar o mais pequeno pormenor e como sinto a falta de ouvir crioulo porque o seu som, o seu tom, as suas expressões características levam-me de volta às minhas raizes.
Na língua portuguesa, a palavra 'saudade' é das minhas preferidas porque relaciono com tudo o que é mais importante para mim e que me faz falta.
Por isso, tenho saudades:
- do olhar atento e penetrante do Chico-Pai;
- da alegria imensa da Maguy-Mãe;
- de atravessar o jardim Gulbenkian a caminho do LIP e observar a vida a acontecer perante mim;
- de dar as minhas caminhadas sem me sentir intimidada pelo olhar reprovador dos automobilistas (é que aqui quem anda a pé é pobre!)
- peixe, peixe, peixe, seja ele cozido, grelhado ou no forno;
- das gargalhadas soltas durante um excelente convívio com os amigos;
- de uma conversa agradável, acompanhada por uma bela garrafa de vinho tinto;
- dos meus CDs;
Enfim, de tudo o que me define e que faz parte da minha vida.
Mas a vida continua e ontem comi um peixe que nunca tinha comido na minha vida: mahi mahi (sim, é esse o nome). Gostei muito porque tem um sabor distinto e forte, ao contrário do bacalhau fresco que é das poucas alternativas que tenho por aqui.
E pensando nos amigos que fiz em Inglaterra, tenho a certeza que quando chegar a hora de deixar esta cidade, terei feito novos e bons amigos e assim serei uma verdadeira cidadã do mundo porque os meus melhores amigos estarão espalhados pelos quatro cantos do mundo.... Bem, se levar isto literalmente, vou ter de começar a pensar em ir passar uma temporada na Austrália!
- Maggs -