Wednesday, July 08, 2009
Mudanças
E este blog também está de mudança. O seu novo endereço: http://fragmentosdeinstantes.blogspot.com
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Saturday, March 28, 2009
A visita
Tuesday, June 10, 2008
Náufragos...
Ontem, fez um mês que cheguei aos Estados Unidos. Estou em Detroit há três semanas e comecei a trabalhar há uma. Com o meu regresso a Detroit, reencontrei o Said que já se interrogava sobre o meu paradeiro visto ter-lhe dito que regressaria em Janeiro e que lhe telefonaria para ele ir buscar-me ao aeroporto. Através dele, tenho conhecido outros árabes africanos, para além de ir-me cruzando com os clientes dele, de passagem por Detroit ou residentes como eu. As minhas conversas com ele e com os seus amigos árabes são tranquilas, sem pressas. Em comum, o facto de sermos de origem africana e emigrantes.
A minha vivência fica mais prenhe, mais rica e aprendo muito mais sobre como levar uma existência mais plena conversando com estas pessoas, indo assim ao encontro do ancião sentado à porta da sua casa feita de pedra e contemplar com ele a natureza. Pressinto que quanto mais conhecimentos adquiro mais me afasto do verdadeiro sentido da existência humana. Talvez seja por isso que os textos de Leão Tolstoy repercutam tanto dentro de mim, proporcionando-me a tranquilidade almejada. Após os sucessos estrondosos das obras Guerra & Paz e Ana Karenina, Tolstoy, até à sua morte, voltou-se para a sabedoria popular e para a busca incessante sobre o sentido da vida. Os diálogos sobre o nosso quotidiano são em inglês, uma língua estranha para todos nós por não ser a nossa língua materna e que se torna muitas vezes insuficiente para exteriorizarmos o nosso estado de alma. Contudo, eles ficam enriquecidos por olhares brilhantes e gestos de agradecimento e de apreciação, tornando-nos mais próximos porque, na verdade, somos todos náufragos.
Independentemente dos motivos que levaram cada um de nós a partir, a deixar a Pátria-amada, e a encontramo-nos aqui em Detroit, para nós terra alheia, somos náufragos porque seremos sempre sobreviventes ... convictos de termos sido impiedosamente arrancados do nosso ninho - das referências que dão sentido à nossa vida.
Friday, May 30, 2008
Marulhar das ondas
Wednesday, May 14, 2008
Farol
Sunday, April 20, 2008
Andorinha di Bolta
Ná, Ó Menino Ná...
Sãozinha - Andorinha di Bolta
Ná, Ó Menino Ná
Ó rosto doce de ojo maguado,
Es bo cudado
Botal pa traz!
Nhor Des ta dano um bida de paz,
Ó nha Pecado
De ojo maguado!
Ná, ó menino ná,
Sombra rum fugi de li!
Ná, ó menino ná,
Dixa nha fijo dormi...
Sono de bida, sonho de amor,
Ou graça ou dor,
Es é nós sorte...
Se Deus, más logo, mandano morte,
Quem que tem medo
Ta morrê cedo.
Toma nha ombro, encosta cabeça,
Ja’n dabo peto,
Amá ragaz!
Ó esprito doce, ca bo tem pressa:
Deta co geto,
Dormi na paz...
Saturday, April 19, 2008
Hora di Bai
Sãozinha - Sãozinha Canta Eugénio Tavares
Morna de Despedida
Hora de bai,
Hora de dor,
Ja’n q’ré
Pa el ca manchê!
De cada bêz
Que ‘n ta lembrâ,
Ma’n q’ré
Ficâ ‘n morrê!
Hora de bai,
Hora de dor!
Amor,
Dixa’n chorâ!
Corpo catibo,
Bá bo que é escrabo!
Ó alma bibo,
Quem que al lebabo?
Se bem é doce,
Bai é maguado;
Mas, se ca bado,
Ca ta birado!
Se no morrê
Na despedida,
Nhor Des na volta
Ta dano bida.
Dixam chorâ
Destino de home:
Es dor
Que ca tem nome:
Dor de crecheu,
Dor de sodade
De alguem
Que’n q’ré, que qu’rem...
Monday, April 14, 2008
Friday, April 11, 2008
Bistidu ku florzinhas
Pelos caminhos que percorria, no seu bambolear lento, provocava danos. Os homens quedavam mudos, seguindo com os olhos aquela mulher cheia de vida e de promessas que nunca se cumpriam. As mulheres tentavam mostrar-se indiferentes, desejando que ela caísse finalmente em desgraça. "Essas mulheres acabam sempre da mesma maneira: grávidas de um conquistador fala-barato!".
Saturday, October 27, 2007
Welcome to Detroit
Tuesday, September 25, 2007
António Aurélio Gonçalves
Não o fiz de propósito mas parece que o fiz em boa hora.Monday, September 24, 2007
Rua do Nhô Roque
D. Bia era uma "senhora honrada", tal como ela fazia questão de frisar, empertigando o corpo pequeno, delgado e levantando ligeiramente o queixo. "Senhora honrada", dizíamos, porque "honradamente criei os meus seis filhos, ensinando-lhes a serem homens e mulheres honrados!" Costureira de profissão, "desde que me entendo por gente.", repetia às clientes enquanto lhes fazia a prova da roupa. Ainda criança, mostrara aptidão para a costura e a mãe, aliviada, encaminhara-a para aprendiz de costureira. Era menos uma preocupação saber que uma das filhas estava orientada com uma profissão. E D. Bia, de forma determinada e persistente, criou a sua reputação. Trabalhava em casa e quando lhe pediam a direcção, dizia "Conhece a rua do Nhô Roque? Ao chegar lá, pergunte pela casa da D. Bia que toda a gente me conhece nessa rua."O quarto de costura da D. Bia dava para a rua do Nhô Roque e quando estava a trabalhar, as persianas de madeira da janela ficavam completamente abertas, de forma a aproveitar ao máximo a luz natural. Uma batida suave na persiana de madeira, fê-la parar a máquina de costura, baixar os óculos e sorrir ao reconhecer a pessoa que lhe batia à janela. Levantou-se com ligeireza, repousou os braços no peitoril da janela e iniciou uma alegre conversa com a amiga. A amiga tinha parado somente para dar um olá rápido porque ainda tinha de ir à praça comprar peixe para fazer no forno mas que logo mais, pela tardinha, passaria por ali novamente para a prova do vestido. "Não é que o baptizado do meu neto é já no Sábado? E daqui a uns dias, já o estou a ver a ir cursar." D. Bia riu com gosto, dizendo-lhe que não era bem 'uns dias', que a amiga não tinha necessidade de se preocupar porque o vestido estaria pronto para o baptizado e que "ainda bem que hoje eles conseguem ir cursar!"
D. Bia ficou ainda um pouco mais à janela, observando a amiga a afastar-se em direcção ao mercado. Quando se afastou da janela, fazendo tenção de regressar ao trabalho, o seu olhar caiu sobre a porta da casa do Nhô Roque. Sorriu ternamente, lembrando-se da sua figura erecta, elegante e de sorriso discreto nos lábios a caminhar em direcção à marginal para o seu passeio. Desde criança aprendera a admirá-lo, a respeitá-lo, observando-o à distância porque nunca se atrevera a conversar com ele. D. Bia não tinha tido a oportunidade de estudar, por isso, só o facto de saber que vivia perto de alguém que lia e que escrevia muito, dava-lhe uma grande alegria. Admitia que na sua luta honrada para dar a melhor educação aos filhos, tinha na sua mente a figura do Nhô Roque. Queria que os seus filhos estudassem e que se tornassem pessoas com cultura, para além de serem honrados. E se ele hoje estivesse vivo, ganharia toda a coragem do mundo e dir-lhe-ía que ela que nunca tinha estudado, tinha, honradamente, criado os seus seis filhos e que hoje, apesar da saudade por estarem todos emigrados, tinha a alegria de saber que os netos estavam a cursar, que falavam várias línguas e que até um estava a cursar para médico. Sabia que ele ficaria orgulhoso também, como se fosse da família.
O Nhô Roque de mãos nos bolsos das calças, postura erecta e de sorriso discreto nos lábios. Ainda de sorriso nos lábios, D. Bia recolheu à sua máquina de costura porque o vestido precisava ficar pronto para o baptizado do neto da amiga.
- Maggs -
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Vivendo na ilha do Santiago, passava as minhas férias escolares na ilha de S. Vicente. Na minha memória, tardes passadas no quintal da casa do Nhô Roque e da Djutinha a brincar. Ainda me lembro que havia um poço que eu estava proibida de me aproximar mas o resto do quintal era mais do que o suficiente para eu abrir asas e voar. A Djutinha de sorriso aberto e feliz por ter gente à volta, o Nhô Roque de sorriso discreto e postura erecta - um sorriso discreto e um olhar vivo! Nestes últimos dias, tenho pensado muito no Nhô Roque porque os meus pais dizem-me que quando for a Portugal em Dezembro, tenho de (re)ler as obras dele; porque todos nós temos excelentes recordações dele e que através da minha escrita posso prestar-lhe uma homenagem. Fiquei feliz por saber que na rua onde ele viveu, hoje é a Rua António Aurélio Gonçalves.
Saturday, September 22, 2007
Nha fidjo matcho
Sunday, September 16, 2007
Uma ida ao cinema
Saímos do cinema e, no regresso a casa, estávamos todos a comentar o filme e eu, num misto de interrogação e de afirmação porque, acima de tudo, queria tranquilizar-me, disse algo do género: "Deus ficou triste por saber que o neto tinha ficado desconsolado, por isso, trouxe o avô ao mundo novamente, não é?" Na altura, com menos de dez anos, foi a minha forma de resolver a minha angústia por ver o menino triste. Hoje, sei que a realidade é outra mas em relação a este filme, a criança e o avô continuam a percorrer as ruas da minha imaginação apregoando que compram e vendem toda a espécie de bugigangas.
Saturday, September 15, 2007
Conversa à porta de casa
Nha Maria adorava contar estórias e Santiago era um excelente ouvinte, sempre de olhos arregalados, narinas dilatadas e de lábios entreabertos como se assim conseguisse absorver melhor todos os detalhes do que ela estava a contar. Mas ele não era o único ouvinte atento porque as crianças da redondeza sentavam-se à volta para ouvi-la contar as estórias que já tinham sido repetidas vezes sem conta mas que pareciam sempre novas porque ela mudava sempre um pormenor, omitia outro e realçava ainda um outro diferente. Mas assim que Santiago chamava a avó a atenção para o facto de estar a haver uma alteração, ela, com uma expressão séria mas de olhar brilhante e risonho, dizia: "Afinal? Quem é que está a contar a estória aqui?".
"Estás muito quieto, Santiago. Na volta, estás doente.", disse a avó, tentando espicaçar o neto, percebendo que a estória do nascimento dele e do porquê de se chamar Santiago não ía pegar. Santiago andava taciturno nos últimos dias e a avó tentava que ele se abrisse. Como o menino continuava calado, ela fez um compasso de espera e falou novamente como se estivesse a pensar em voz alta: "Se calhar, vou fazer doce de mancarra logo mais. Só que preciso de um ajudante... Mas se estás a sentir-te doente... fica para a próxima, não é, meu neto?" Santiago sorriu, contudo os olhos ainda de expressão melancólica, dizendo: "Não estou nada doente, avó!" "Então porque andas assim muito caladinho?", questionou Nha Maria. Santiago hesitou, suspirou e disse "Mas a avó não vai dizer a ninguém?" "Claro que não! Ninguém sabe das minhas conversas com o meu neto. Só se o Pulgas aqui falar." Santiago riu, dizendo: "Mas os cães não falam, avó!" Nha Maria, mulher vivida e conhecedora do comportamento humano, compreendeu que o neto iria finalmente partilhar com ela o que tanto o preocupava. "Avó, a mãe vai fazer anos e ... é assim ... eu quero muito oferecer-lhe algo bonito, grande e que ela nunca tenha tido... mas só tenho 200 escudos comigo. Tenho andado a juntar o meu dinheiro mas não vou conseguir nunca o que preciso para poder oferecer-lhe uma prenda linda!" E os olhos do menino brilhavam, as lágrimas contidas, os lábios tremendo.
A composição
Thursday, September 13, 2007
Rádio de Cabo Verde
Saturday, September 08, 2007
Logo mais, temos cuscuz com mel
Friday, September 07, 2007
Para a Sãozinha Fonseca-Fragoso
| Despedida.mp3 |
A minha cunhada que - para mim -
é minha e de mais ninguém;
que me apazigua a alma com a sua voz melodiosa e cheia de paz;
que me olha de modo firme e decidido;
que me faz rir com a sua maneira alegre de falar;
que canta maravilhosamente ...
E a nossa amizade que começou quando ela me foi buscar a casa dos meus tios e levou-me para um passeio até Cape Cod, onde fomos ver o mar e comer um genuíno clam chowder.
Esta morna, despedida, é da autoria de Eugénio Tavares.
E a voz... essa voz, é, obviamente, da minha cunhada.
- Maggs -




