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Wednesday, July 08, 2009

Mudanças

Michigan ficou para trás e passo os últimos dias em solo Americano, na cidade de Boston. A partir do dia 13 de Julho de 2009, nova residência, novo trabalho, novos desafios, novas experiências de vida.

E este blog também está de mudança. O seu novo endereço: http://fragmentosdeinstantes.blogspot.com


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Saturday, March 28, 2009

A visita

Falaram-me tanto da sabedoria de Nha Clara e, agora, defronte a ela, não conseguia dizer nada. Sei que descera do Hiace e que, destemida, subira a ladeira até à casa térrea de Nha Clara. Porém, mal a vira sentada no mocho, à porta de casa, perdera toda a coragem para as perguntas prementes que tinha dentro de mim.
Debruçada sobre um enorme balaio, Nha Clara descascava, sem pressas e metodicamente, vagens de feijões. Tirava uma vagem do balaio, puxava a linha, às vezes, com a ajuda de uma pequena faca, e, cuidadosamente, retirava os feijões e, sem desviar o olhar do balaio, deixava-os escorregar da sua mão e cair numa panela, colocada no seu lado direito. No seu labor, ainda não levantara os seus olhos para me ver e eu... eu hesitava em cumprimentá-la. Sentia-me mais segura a mirá-la e os seus gestos tranquilos aquietavam-me.
Finalmente, pareceu ter sentido a minha presença, pois levantou o olhar, colocou a mão direita sobre os olhos e, com a mão esquerda, sem hesitações, fez-me sinal para me aproximar. Como que hipnotizada, cheguei perto, pedi-lhe a benção e sentei-me a seu lado, por sua indicação. Nha Clara não falou mas o seu olhar meigo foi o seu abraço de boas-vindas para mim. Sem proferir palavra, indicou-me as vagens e, a seu lado, dediquei-me a esse labor. As minhas mãos foram ficando àsperas e as minhas unhas sujas, contudo, dentro de mim crescia o sentimento de satisfação pessoal. Quando começou a anoitecer, Nha Clara levantou-se e eu ajudei-a a colocar o balaio e a panela dentro de casa. Fez-me adeus e, novamente, pedi-lhe a benção. Sentindo-me livre e ligeira, desci, numa alegre correria, a ladeira e apanhei o Hiace de volta à capital.
- Tive um sonho estranho. Sonhei que passei uma tarde com uma anciã, no interior de Santiago a descascar vagens de feijões. - comentei contigo, aproximando a minha mão para te fazer um carinho no rosto.
- Menina, precisas ir arranjar estas mãos! Estão àsperas! O que andaste a fazer? De certeza que não passaste a tarde a tirar uma soneca no sofá como me estás a dizer! - respondeste, alarmado, lembras-te? Depois, foste abrir a porta da rua para recebermos a visita da tua mãe.
- Oh meus filhos, já viram a prenda que vos deixaram à porta? Uma panela cheia de feijões descascados!
Aí, olhaste para mim, os teus olhos estupefactos, e disseste-me:
- Menina, mas isso foi mesmo um sonho?
Ainda hoje não te sei dizer se foi um sonho ou não. Mas posso dizer-te que aprendi que a minha vida, o meu destino, estão nestas mãos! As mesmas mãos que buscam o teu rosto e te fazem uma carícia antes de adormeceres a meu lado.

Tuesday, June 10, 2008

Náufragos...

A minha imagem de tranquilidade, de sintonia com a existência humana e com a natureza é a de um ancião de cabelos e barba brancos, vestido de forma simples e com um boné a proteger-lhe os olhos do sol impedioso. Está sentado num mocho, por baixo de uma das janelas da sua casa de piso térreo e construída em pedra negra, com as mãos a repousarem nos joelhos. A casa está situada algures numa encosta no interior da ilha de Santiago. Com uma vida levada na esperança de boas chuvas e de um bom ano de colheita, nesse momento, ele sorri porque tudo à sua volta está verde. A natureza dar-lhe-á o que ele precisa e ele contempla-a extasiado.

Ontem, fez um mês que cheguei aos Estados Unidos. Estou em Detroit há três semanas e comecei a trabalhar há uma. Com o meu regresso a Detroit, reencontrei o Said que já se interrogava sobre o meu paradeiro visto ter-lhe dito que regressaria em Janeiro e que lhe telefonaria para ele ir buscar-me ao aeroporto. Através dele, tenho conhecido outros árabes africanos, para além de ir-me cruzando com os clientes dele, de passagem por Detroit ou residentes como eu. As minhas conversas com ele e com os seus amigos árabes são tranquilas, sem pressas. Em comum, o facto de sermos de origem africana e emigrantes.

A minha vivência fica mais prenhe, mais rica e aprendo muito mais sobre como levar uma existência mais plena conversando com estas pessoas, indo assim ao encontro do ancião sentado à porta da sua casa feita de pedra e contemplar com ele a natureza. Pressinto que quanto mais conhecimentos adquiro mais me afasto do verdadeiro sentido da existência humana. Talvez seja por isso que os textos de Leão Tolstoy repercutam tanto dentro de mim, proporcionando-me a tranquilidade almejada. Após os sucessos estrondosos das obras Guerra & Paz e Ana Karenina, Tolstoy, até à sua morte, voltou-se para a sabedoria popular e para a busca incessante sobre o sentido da vida. Os diálogos sobre o nosso quotidiano são em inglês, uma língua estranha para todos nós por não ser a nossa língua materna e que se torna muitas vezes insuficiente para exteriorizarmos o nosso estado de alma. Contudo, eles ficam enriquecidos por olhares brilhantes e gestos de agradecimento e de apreciação, tornando-nos mais próximos porque, na verdade, somos todos náufragos.

Independentemente dos motivos que levaram cada um de nós a partir, a deixar a Pátria-amada, e a encontramo-nos aqui em Detroit, para nós terra alheia, somos náufragos porque seremos sempre sobreviventes ... convictos de termos sido impiedosamente arrancados do nosso ninho - das referências que dão sentido à nossa vida.

Friday, May 30, 2008

Marulhar das ondas

Mais um fragmento da história da D. Bia



Era uma senhora petite. Caminhava ligeira pelas ruas da cidade de Mindelo no seu passo pequeno e rápido, postura erecta e olhar decidido. As agruras da vida nunca lhe tinham tirado a capacidade de gargalhar. Por sentir o dom da vida a cada momento, os olhos de D. Bia bailavam constantemente de alegria. Esse júbilo nunca esmoreceu, nem quando descobriu, aos 24 anos, que o seu casamento era uma falácia e que tinha sido mais uma a cair na cantiga melodiosa de um marinheiro que aportava algumas vezes por ano em S. Vicente. Chorou silenciosamente mas o brilho nos olhos nunca chegou a desaparecer. E porque deveria? Tinha conseguido trazer ao mundo seis crianças saudáveis e que hoje só lhe davam alegrias!

Todavia, havia uma altura do dia onde o andar se tornava pausado, tranquilo, sem pressas. Pela manhãzinha, D. Bia fazia o percurso da avenida marginal até à praia da Laginha. Iniciara esse ritual no dia seguinte à partida do último filho para o estrangeiro e os amigos e conhecidos, ao cruzarem com ela, limitavam-se a cumprimentá-la não ousando quebrar o seu recolhimento. De olhar brilhante e sorriso bailando discretamente nos lábios, respondia ao cumprimento e repousava novamente o olhar na direcção do mar. Avançava vagarosamente pela marginal, em direcção à Laginha. Defronte ao mar, permanecia sentada por um largo tempo, ouvindo atentamente o marulhar das ondas, como se trouxesse novas dos filhos. No seu íntimo, ela ia respondendo. Falava das saudades, lembrava-se de algum episódio da infância dos filhos, agradecia aquela carta ou encomenda.

Eram esses momentos que lhe davam força para que o tal brilho nos olhos não esmorecesse nunca. Não exteriorizava os seus pensamentos mais íntimos, mas a dor da saudade consumia o seu pequeno ser muito mais do que a dor do fracasso do seu casamento ou mesmo das inúmeras dificuldades em criar e educar os seus filhos. Sentada defronte ao mar, abstraia-se do que a rodeava e imaginava os filhos sentados à volta dela. Ela protegia-os, mimava-os e deliciava-se porque via-os como quando eles ainda eram crianças e estavam sob a sua asa materna. Depois de saciada a saudade, levantava-se e fazia o percurso de regresso, parando no mercado para as compras do dia.



Maggs

Wednesday, May 14, 2008

Farol

Farol D. Maria Pia, Santiago, Cabo Verde


Para matar saudades, o meu primo Didi enviou-me hoje várias fotografias da ilha de Santiago. Apreciei esta em particular por me ter feito viajar no tempo até aos ensaios que o grupo infantil Korda Kauberdi tinha no farol, sob a batuta do Djonsa "Farol". Não sei bem porquê mas vi-me como uma das cantoras do pequeno grupo. Como não segui carreira .... não preciso entrar em detalhes sobre as minhas qualidades vocais.
Igualmente, a ideia que o farol transmite: a procura de uma luz que nos conduza a bom porto e por caminhos certos.
Maggs

Sunday, April 20, 2008

Andorinha di Bolta


No dia 3 de Maio de 2008, Sãozinha Fonseca apresenta o seu trabalho "Andorinha di Bolta". Sou suspeita para falar sobre a minha cunhada mas tenho a certeza que será um momento único. Pode ser que consiga presenciar...

Ná, Ó Menino Ná...

Sãozinha - Andorinha di Bolta

Ná, Ó Menino Ná

Ó rosto doce de ojo maguado,
Es bo cudado
Botal pa traz!
Nhor Des ta dano um bida de paz,
Ó nha Pecado
De ojo maguado!

Ná, ó menino ná,
Sombra rum fugi de li!
Ná, ó menino ná,
Dixa nha fijo dormi...

Sono de bida, sonho de amor,
Ou graça ou dor,
Es é nós sorte...
Se Deus, más logo, mandano morte,
Quem que tem medo
Ta morrê cedo.

Toma nha ombro, encosta cabeça,
Ja’n dabo peto,
Amá ragaz!
Ó esprito doce, ca bo tem pressa:
Deta co geto,
Dormi na paz...

Eugénio Tavares (1867-1930)

Saturday, April 19, 2008

Hora di Bai

Sãozinha - Sãozinha Canta Eugénio Tavares


Morna de Despedida

Hora de bai,
Hora de dor,
Ja’n q’ré
Pa el ca manchê!
De cada bêz
Que ‘n ta lembrâ,
Ma’n q’ré
Ficâ ‘n morrê!

Hora de bai,
Hora de dor!
Amor,
Dixa’n chorâ!
Corpo catibo,
Bá bo que é escrabo!
Ó alma bibo,
Quem que al lebabo?

Se bem é doce,
Bai é maguado;
Mas, se ca bado,
Ca ta birado!
Se no morrê
Na despedida,
Nhor Des na volta
Ta dano bida.

Dixam chorâ
Destino de home:
Es dor
Que ca tem nome:
Dor de crecheu,
Dor de sodade
De alguem
Que’n q’ré, que qu’rem...

Eugénio Tavares (1867-1930)

Monday, April 14, 2008

A minha identidade

Quanto mais longe me encontro, mais perto me sinto...

Friday, April 11, 2008

Bistidu ku florzinhas

Maria era bunitona, como diziam os rapazes do Plateau. Fêmea negra, de pele luzidia mantida com os óleos que as primas lhe mandavam da Merka. Cabelo crespo, cortado bem rente, fazendo sobressair os olhos negros, o nariz afilado e os lábios carnudos, sempre em vermelho-carmin.

Pelos caminhos que percorria, no seu bambolear lento, provocava danos. Os homens quedavam mudos, seguindo com os olhos aquela mulher cheia de vida e de promessas que nunca se cumpriam. As mulheres tentavam mostrar-se indiferentes, desejando que ela caísse finalmente em desgraça. "Essas mulheres acabam sempre da mesma maneira: grávidas de um conquistador fala-barato!".

Mas Maria não queria acabar como as outras. A sua determinação crescia sempre que olhava para a figura da mãe que perdera o viço antes de chegar aos trinta e que aos cinquenta era uma mulher envelhecida, amarga, sem sonhos. Sim, ela iria arranjar um bom moço e iriam para a Merka, buscar vida melhor.

Ainda na lembrança dos homens e mulheres do Plateau, o dia que ela descera a rua principal da cidade no seu vestido de florzinhas que lhe tinham mandado da Merka. O vestido era branco com florzinhas vermelhas do mesmo tom daquele batom que ela usava sempre. Celestino, homem calado e cioso do seu ofício, perdeu o tino e desceu a rua com ela. Não falava mas olhava para Maria insistentemente. Ao chegarem ao fim da rua, Maria estacou, olhou para Celestino, e disparou: "O que queres?". Celestino, sorrindo, levou a mão ao bolso das calças e mostrou-lhe o dinheiro que iria depositar no banco.

- Uma palavra tua! Com este dinheiro e mais o que já juntei no banco, partimos para Merka quando quiseres.




- Maggs -

Saturday, October 27, 2007

Welcome to Detroit

Deixámos Omaha numa tarde cinzenta mas o sol brilhava quando aterrámos no aeroporto internacional de Detroit. Apanhámos um pequeno autocarro para podermos ir buscar o carro alugado. O motorista, senhor dos seus sessenta anos, olhar vivo e curioso, ajudou-nos a colocar a bagagem no autocarro e partimos. Éramos só dois passageiros - o meu chefe e eu. O motorista iniciou a conversa com a pergunta que ele devia repetir vezes sem conta no dia: "De onde vêm?" A resposta do meu chefe levou a que eles falassem sobre o futebol americano e eu calada permaneci. A conversa ía animada entre os dois discutindo futebol, falando sobre as diferenças entre Omaha e Detroit quando o meu chefe esclareceu que nós não éramos de Nebraska e que eu até era de Portugal. O motorista diz em inglês: "A única frase que sei em português é" - e diz em português - "Não sei falar português." Eu fiquei surpreendida, gargalhei e dei-lhe os parabéns. O meu chefe ficou igualmente impressionado. Depois, a conversa generalizou-se pelos três e falámos sobre os descobrimentos e sobre Portugal e Espanha. Este senhor dominava a geografia e a história de uma maneira que me deixou sem palavras. Mas depois ele confessou-nos que era reformado da marinha americana. Então, não resisti e decidi fazer-lhe o teste final: "E já ouviu falar nas Ilhas de Cabo Verde?" Ficou ofendido e disse-me orgulhosamente: "Fica na costa oeste de África!", acrescentando: "E conheço um excelente músico de origem cabo-verdiana que toca jazz!" Dizemos os dois em uníssono: "Horace Silver!" Rimo-nos e o meu chefe só dizia "Extraordinário!" O motorista acrescenta: "Eu sei o nome completo dele. É Horace Ward Martin Tavares Silva." Aí eu disse-lhe que os meus conhecimentos não íam tão longe. Sempre risonho, disse: "Afinal sei duas frases em português!", dizendo em português: "Não sei falar português" e "A canção do meu pai", fazendo referência ao tema que Horace Silver compôs em homenagem ao seu pai, cabo-verdiano de origem. Expliquei-lhe que os meus pais era cabo-verdianos mas que eu tinha nascido em França. Aí ele diz alto e bom som: "Devia casar-me consigo! É muito viajada." Chegámos ao local onde o meu chefe iria buscar o carro. Ajudou-nos novamente com a bagagem. Perguntou-me o meu nome, deu-me um firme aperto de mão e disse: "Eu sou o Robert." Igualmente, cumprimentou o meu chefe e nós agradecemos-lhe o inesquecível diálogo. Ficámos tão bem dispostos, tendo em conta que deixámos uma Omaha cinzenta e de chuva miudinha.
- Maggs -
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Conhecidos meus ao saberem que iria começar a trabalhar em Detroit, descreveram-me uma imagem muito má e não recomendável da cidade, retratando-me zonas de violência provocadas por negros. Este simpático, atencioso e culto motorista é um senhor negro e como me senti feliz que a minha primeira interacção com um nativo da cidade tenha sido assim. Evidentemente, todas as cidades têm o seu lado menos bom e o seu lado encantador. O importante é evitar ideias pré-concebidas para se tirar o melhor partido do que a vida nos proporciona.

Tuesday, September 25, 2007

António Aurélio Gonçalves

Não o fiz de propósito mas parece que o fiz em boa hora.
António Aurélio Gonçalves, conhecido por Nhô Roque, nasceu no dia 25 de Setembro de 1901, na cidade do Mindelo, em S. Vicente, Cabo Verde. Faleceu a 30 de Setembro de 1984.
Os estudiosos poderão falar das suas obras (em Portugal, Noite de Vento e Terra de Promissão estão disponíveis através da editora Caminho), os ex-alunos como ele era como pedagogo.
A Maggyzinha fala da terna lembrança de um homem de presença suave e agradável e de um sorriso discreto nos lábios.
- Maggs -

Monday, September 24, 2007

Rua do Nhô Roque

D. Bia era uma "senhora honrada", tal como ela fazia questão de frisar, empertigando o corpo pequeno, delgado e levantando ligeiramente o queixo. "Senhora honrada", dizíamos, porque "honradamente criei os meus seis filhos, ensinando-lhes a serem homens e mulheres honrados!" Costureira de profissão, "desde que me entendo por gente.", repetia às clientes enquanto lhes fazia a prova da roupa. Ainda criança, mostrara aptidão para a costura e a mãe, aliviada, encaminhara-a para aprendiz de costureira. Era menos uma preocupação saber que uma das filhas estava orientada com uma profissão. E D. Bia, de forma determinada e persistente, criou a sua reputação. Trabalhava em casa e quando lhe pediam a direcção, dizia "Conhece a rua do Nhô Roque? Ao chegar lá, pergunte pela casa da D. Bia que toda a gente me conhece nessa rua."
O quarto de costura da D. Bia dava para a rua do Nhô Roque e quando estava a trabalhar, as persianas de madeira da janela ficavam completamente abertas, de forma a aproveitar ao máximo a luz natural. Uma batida suave na persiana de madeira, fê-la parar a máquina de costura, baixar os óculos e sorrir ao reconhecer a pessoa que lhe batia à janela. Levantou-se com ligeireza, repousou os braços no peitoril da janela e iniciou uma alegre conversa com a amiga. A amiga tinha parado somente para dar um olá rápido porque ainda tinha de ir à praça comprar peixe para fazer no forno mas que logo mais, pela tardinha, passaria por ali novamente para a prova do vestido. "Não é que o baptizado do meu neto é já no Sábado? E daqui a uns dias, já o estou a ver a ir cursar." D. Bia riu com gosto, dizendo-lhe que não era bem 'uns dias', que a amiga não tinha necessidade de se preocupar porque o vestido estaria pronto para o baptizado e que "ainda bem que hoje eles conseguem ir cursar!"
D. Bia ficou ainda um pouco mais à janela, observando a amiga a afastar-se em direcção ao mercado. Quando se afastou da janela, fazendo tenção de regressar ao trabalho, o seu olhar caiu sobre a porta da casa do Nhô Roque. Sorriu ternamente, lembrando-se da sua figura erecta, elegante e de sorriso discreto nos lábios a caminhar em direcção à marginal para o seu passeio. Desde criança aprendera a admirá-lo, a respeitá-lo, observando-o à distância porque nunca se atrevera a conversar com ele. D. Bia não tinha tido a oportunidade de estudar, por isso, só o facto de saber que vivia perto de alguém que lia e que escrevia muito, dava-lhe uma grande alegria. Admitia que na sua luta honrada para dar a melhor educação aos filhos, tinha na sua mente a figura do Nhô Roque. Queria que os seus filhos estudassem e que se tornassem pessoas com cultura, para além de serem honrados. E se ele hoje estivesse vivo, ganharia toda a coragem do mundo e dir-lhe-ía que ela que nunca tinha estudado, tinha, honradamente, criado os seus seis filhos e que hoje, apesar da saudade por estarem todos emigrados, tinha a alegria de saber que os netos estavam a cursar, que falavam várias línguas e que até um estava a cursar para médico. Sabia que ele ficaria orgulhoso também, como se fosse da família.
O Nhô Roque de mãos nos bolsos das calças, postura erecta e de sorriso discreto nos lábios. Ainda de sorriso nos lábios, D. Bia recolheu à sua máquina de costura porque o vestido precisava ficar pronto para o baptizado do neto da amiga.

- Maggs -
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Vivendo na ilha do Santiago, passava as minhas férias escolares na ilha de S. Vicente. Na minha memória, tardes passadas no quintal da casa do Nhô Roque e da Djutinha a brincar. Ainda me lembro que havia um poço que eu estava proibida de me aproximar mas o resto do quintal era mais do que o suficiente para eu abrir asas e voar. A Djutinha de sorriso aberto e feliz por ter gente à volta, o Nhô Roque de sorriso discreto e postura erecta - um sorriso discreto e um olhar vivo! Nestes últimos dias, tenho pensado muito no Nhô Roque porque os meus pais dizem-me que quando for a Portugal em Dezembro, tenho de (re)ler as obras dele; porque todos nós temos excelentes recordações dele e que através da minha escrita posso prestar-lhe uma homenagem. Fiquei feliz por saber que na rua onde ele viveu, hoje é a Rua António Aurélio Gonçalves.

Saturday, September 22, 2007

Nha fidjo matcho

Lá vai ele. Tão novo e com tantas responsabilidades. Os calções vão escorregando à medida que ele caminha e ele, de modo automático, puxa-os para cima com a mão esquerda porque com a mão direita vai conduzindo o seu carro de lata. Deixai-o viver a sua infância. Não haverá tempo para uma criança se tornar adulta? Mas, basta estarmos vivos para estarmos sujeitos à adversidade...
Santiago regressava a casa depois de uma tarde com os amigos a jogar à bola. Também tinham feito um concurso de melhor carro de lata do mundo e o seu tinha ficado em segundo lugar. Ele sabia que para a próxima conseguiria o primeiro lugar porque ía pedir à mãe para comprar latas de azeite da marca X. É que essas latas tinham maior maleabilidade. Os planos já estavam todos feitos... E lá puxava ele os calções com a mão esquerda, enquanto a mão direita puxava o seu carro de lata, com uma carica como medalha de um honroso segundo lugar.
Ao entrar em casa pela porta da cozinha, pronto para gritar a plenos pulmões que a lata de azeite da marca X era a ideal para o seu próximo carro de lata, sentiu-se imediatamente acabrunhado com o ambiente pesado instalado em casa. Pessoas estranhas, sentadas à mesa. Silenciosas. Ele inquiriu: "A mãe?". Uma senhora, amiga da avó paterna, levantou-se e aproximou-se de Santiago, tentando agarrá-lo pelas mãos, fazendo com que ele largasse o carro. Mas ele recusou o gesto e apertando mais a mão direita no cabo de metal do carro, repetiu: "A mãe?". Nha Maria apareceu à porta que dava acesso ao resto da casa e fez um gesto para o neto se aproximar. O menino, obediente, seguiu a avó até ao quarto dela, deixando o carro perto da porta por onde tinha entrado. Ela fechou a porta do quarto, suavemente, sentou-se na berma da cama e chamou o neto para se sentar ao lado dela.
"É o pai, não é? Ele já devia ter regressado, não é? Ele costuma estar sempre de volta quando estou nas férias grandes... É o pai, não é?", Santiago falou de um trago só, após sentar-se no lugar indicado pela avó. Nha Maria, tentando manter uma postura tranquila, disse "Sim, é o teu pai. Ele já devia ter regressado. Mas o teu pai nunca foi de dar muitas notícias...". A avó ficou um largo tempo em silêncio. Os olhos do Santiago estavam dilatados e perscrutavam os olhos da avó que os baixava. "Um senhor da empresa esteve aqui há bocado e disse que perderam o contacto com o grupo onde o teu pai estava." Outra pausa. "Mas não está nada confirmado que tenha acontecido alguma coisa de mal ao teu pai. Ele está desaparecido... Entendes, meu neto?". Santiago não entendia. Ele só sabia que o pai se ausentava de casa por muito tempo. Ele sabia que o pai viajava para lugares distantes com outros homens e que trabalhavam para uma empresa e que o pai voltava sempre pelas férias grandes. Ele também sabia que nas férias grandes, os pais, a avó e ele exploravam a ilha de Santiago, vezes sem fim. Mas ele não entendia porque é que o pai estava 'desaparecido'.
"Avó, eu entendo." e coloca a sua mãozinha, pequenina, sobre as mãos da avó que repousavam no regaço. "O pai está fora e agora vai demorar mais algum tempo. Não é isso?". "É, meu neto. É isso mesmo." Nha Maria também queria acreditar que era mesmo só isso. Mas ela sabia que para onde o filho ía as coisas poderiam correr mal. E neste último sítio, uma guerra civil estava a eclodir. E o seu filho queria somente criar mais oportunidades para Santiago... Indo para longe, não vendo o filho a crescer... valeria a pena tamanho sacrifício? Era o que pensava Nha Maria. "Sim, meu neto. É isso mesmo.", repetiu. Santiago, tentando tranquilizar a avó, disse: "Avó, enquanto o pai não chegar, eu prometo que não vou dar tanto trabalho... assim, a avó e a mãe não se cansam tanto! Eu vou tentar ser menos traquinas... Também posso consertar as coisas... como o pai faz quando ele está aqui... Assim, nem vamos perceber que o pai ainda não chegou."
A mãe de Santiago, que tinha aberto a porta há já algum tempo, de olhos húmidos e transtornados pela angústia de uma incerteza mas sorrindo ternamente, disse baixinho: "Oh nha fidjo matcho..."* e fechou a porta novamente, dirigindo-se para as pessoas que estavam na cozinha.
- Maggs -
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* meu rapaz

Sunday, September 16, 2007

Uma ida ao cinema



Saíamos de casa, descíamos a rua do Hospital, virávamos na primeira rua à direita, depois na primeira à esquerda, continuávamos a descer por essa rua e virávamos na primeira à direita, atravessávamos o jardim da Escola Grande e chegávamos ao cinema. Outras vezes, continuávamos o passeio até à praça Afonso Albuquerque e os meus pais compravam mancarra às vendedeiras que estavam no jardim da Escola Grande.
Há um filme que vimos no cinema da Praia que me marcou de tal forma que ainda gravo na memória algumas imagens, como se tivessem ficado congeladas para sempre. Do que me consigo recordar, a história passa-se num bairro de operários e há um avô que ganha a vida a comprar e a vender bens usados, usando uma carroça puxada por um cavalo. O neto costuma acompanhá-lo e juntos apregoam os serviços do avô através de uma canção. O avô morre e a imagem que tenho bem vincada na minha memória é a de um grande plano da cara do menino e ele a lembrar-se (agora sei que era uma recordação!) dos percursos que faziam pela cidade na carroça do avô, cantando com ele.
Saímos do cinema e, no regresso a casa, estávamos todos a comentar o filme e eu, num misto de interrogação e de afirmação porque, acima de tudo, queria tranquilizar-me, disse algo do género: "Deus ficou triste por saber que o neto tinha ficado desconsolado, por isso, trouxe o avô ao mundo novamente, não é?" Na altura, com menos de dez anos, foi a minha forma de resolver a minha angústia por ver o menino triste. Hoje, sei que a realidade é outra mas em relação a este filme, a criança e o avô continuam a percorrer as ruas da minha imaginação apregoando que compram e vendem toda a espécie de bugigangas.
- Maggs -

Saturday, September 15, 2007

Conversa à porta de casa

"Foi num dia igualzinho a este que nasceste. Estava este calor seco e não corria uma única brisa.", ía dizendo a avó enquanto Santiago se sentava perto dela, no mocho que tinha trazido da cozinha. O cão Pulgas, percebendo que o dono não estava para aventuras, deitou-se prazenteiramente aos pés de Santiago que lhe ía acariciando as longas orelhas castanhas. Era uma tarde de Domingo e Nha Maria e o neto estavam sentados à porta de casa, aproveitando a sombra que batia ali sempre por essa altura do dia. As pessoas que íam passando, paravam e cumprimentavam Nha Maria, perguntando-lhe pela saúde e família, acabando, invarialmente, a conversa dizendo: "Mas este é o seu neto? Cada vez mais parecido com o pai!".
Nha Maria adorava contar estórias e Santiago era um excelente ouvinte, sempre de olhos arregalados, narinas dilatadas e de lábios entreabertos como se assim conseguisse absorver melhor todos os detalhes do que ela estava a contar. Mas ele não era o único ouvinte atento porque as crianças da redondeza sentavam-se à volta para ouvi-la contar as estórias que já tinham sido repetidas vezes sem conta mas que pareciam sempre novas porque ela mudava sempre um pormenor, omitia outro e realçava ainda um outro diferente. Mas assim que Santiago chamava a avó a atenção para o facto de estar a haver uma alteração, ela, com uma expressão séria mas de olhar brilhante e risonho, dizia: "Afinal? Quem é que está a contar a estória aqui?".
"Estás muito quieto, Santiago. Na volta, estás doente.", disse a avó, tentando espicaçar o neto, percebendo que a estória do nascimento dele e do porquê de se chamar Santiago não ía pegar. Santiago andava taciturno nos últimos dias e a avó tentava que ele se abrisse. Como o menino continuava calado, ela fez um compasso de espera e falou novamente como se estivesse a pensar em voz alta: "Se calhar, vou fazer doce de mancarra logo mais. Só que preciso de um ajudante... Mas se estás a sentir-te doente... fica para a próxima, não é, meu neto?" Santiago sorriu, contudo os olhos ainda de expressão melancólica, dizendo: "Não estou nada doente, avó!" "Então porque andas assim muito caladinho?", questionou Nha Maria. Santiago hesitou, suspirou e disse "Mas a avó não vai dizer a ninguém?" "Claro que não! Ninguém sabe das minhas conversas com o meu neto. Só se o Pulgas aqui falar." Santiago riu, dizendo: "Mas os cães não falam, avó!" Nha Maria, mulher vivida e conhecedora do comportamento humano, compreendeu que o neto iria finalmente partilhar com ela o que tanto o preocupava. "Avó, a mãe vai fazer anos e ... é assim ... eu quero muito oferecer-lhe algo bonito, grande e que ela nunca tenha tido... mas só tenho 200 escudos comigo. Tenho andado a juntar o meu dinheiro mas não vou conseguir nunca o que preciso para poder oferecer-lhe uma prenda linda!" E os olhos do menino brilhavam, as lágrimas contidas, os lábios tremendo.
Nha Maria não disse nada. Levantou-se, pegou na mão do neto e entraram em casa. Pulgas levantou a cabeça mas sentindo-se indolente voltou a baixá-la e a adormecer. Foram até ao quarto de Nha Maria que tirou do guarda-fato uma lata. Os olhos de Santiago sorriram e ele sussurou como se estivesse perante um grande tesouro: "Tantas cores diferentes...", quando a avó despejou o conteúdo da lata em cima da cama. Papéis coloridos e de várias qualidades, bocados de vários tipos de tecido, cordas em tons de dourado e prateado faziam um alegre contraste sobre a colcha em crochet de branco imaculado. "E que tal escolhermos as cores que mais gostares e fazermos um belo quadro à tua mãe? Será o nosso segredo. O que dizes?". "Um quadro, avó? ... Sim! E ela pode pôr na sala! Ela não tem dito que a parede por cima do sofá está muito vazia?", disse o menino, dando ares de pessoa entendida em quadros e paredes de sala, porém com o olhar de uma criança de sete anos que já sabia que iria oferecer à sua mãe "algo bonito, grande e que ela nunca tinha tido"!
- Maggs -

A composição

Naquele dia, a professora sentia-se particularmente cansada e a turma estava irrequieta. Por isso, ela mandou que os alunos fizessem uma composição onde falassem sobre eles. Eis uma delas:
"O meu nome é Santiago A.. Tenho 7 anos. Moro numa casa de cor verde com os meus pais mais a minha avó. A minha avó é a mãe do meu pai. Tenho um cão que se chama pulgas. Gosto muito do pulgas. O pulgas é pequeno, castanho e tem orelhas grandes. O pulgas gosta muito de brincar e eu gosto de brincar com ele. Mas, como diz a minha mãe, tenho de lavar sempre bem as mãos depois de brincar com o pulgas, principalmente se for comer. A minha avó faz doce de mancarra. Eu gosto muito de comer o doce de mancarra que a minha avó faz. E quando eu for grande, quero ser piloto-aviador porque quero conhecer o mundo inteiro. E é isto que eu quero dizer sobre mim."
- Maggs -
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Em Cabo Verde chamamos mancarra ao amendoim.

Thursday, September 13, 2007

Rádio de Cabo Verde


Passei esta última semana na míngua da rádio de Cabo Verde. Estando aqui na América profunda, esta situação levou-me a grandes inquietudes de alma.
Agora mesmo estou a ouvir o inconfundível Bana e já não estou aqui, em Omaha, mas sim, à beira-mar sentindo o cheiro a maresia, ouvindo o gargalhar das crianças que mergulham nas ondas do mar, observando a vendedeira que apregoa doces, água de côco ou manguinhas, ouvindo o som do cavaquinho que ressoa em mim vezes sem conta.
Nunca senti tanto a 'dor da saudade' tal como estou a senti-la neste ano aqui em Omaha. Por outro lado, são estes momentos que nos fazem ir mais além no conhecimento de nós próprios e dos nossos limites. E aqui, em Omaha, confirmo o que eu dizia a meia-voz quando estava em Londres: 'para sabermos para onde vamos, temos de saber de onde viemos'.
E no meu caso pessoal, é a minha ligação forte, vibrante com Cabo Verde que me faz ir mais além, que me faz procurar novos desafios, novas metas... porque sei que nesta minha jornada universal, cada vez mais me aproximo daqueles 'dez grãozinhos de terra'.
- Maggs -

Saturday, September 08, 2007

Logo mais, temos cuscuz com mel

Estava na sala de aula há menos de dez minutos e a impaciência já o dominava por completo. Afasta ligeiramente a cadeira, os braços cruzados sobre a mesa e apoia o queixo nas mãos que repousam uma sobre a outra. Tenta prestar atenção ao que a professora diz mas o seu pensamento está electrizado e ele não consegue compreender o que ela está a falar, no seu característico tom sério e compenetrado. Volta a sentar-se direito e o olhar foge para o que se passa lá fora. As janelas grandes da sala de aula permitem-lhe ter uma panorâmica geral do jardim defronte da escola primária. A sua impaciência nada tem a ver com a possibilidade de poder estar lá fora a brincar. Receando que a professora o chamasse à atenção, prende novamente o olhar nela e percebe vagamente que ela está a falar de multiplicação e divisão. Olha para o tecto, pensando "isso já eu sei! que bem que a minha mãe me explicou isso". Estavam os dois sentados na mesa da cozinha e a mãe tinha ido buscar a lata onde coloca os vários tipo de feijão, cada tipo no seu saco individual. Tinham passado a tarde de Domingo a multiplicar os feijões e depois a dividi-los. Claro que depois ela lhe tinha explicado a maneira "certa" de fazer as contas no papel. "Não posso falar em feijões, não é?" Ela tinha-lhe dito que era para ele visualizar melhor os números, isso ele sabia. O olhar prende-se agora no relógio de parede, todo ele branco com ponteiros e números negros, por cima do enorme quadro de ardósia que ocupava praticamente toda a parede. "Ainda faltam 20 minutos! Saio da escola, passo pela casa do Zé e toca de correr até à praia Negra. O Manel anda a gabar uma bola de futebol que o pai lhe trouxe da América, que é leve e que tem umas estrelas douradas! Queria tanto poder dar uns toques nessa bola e ver se consigo fazer aqueles dribles todos..." E ele sonhava. "O pessoal depois costuma ir tomar banho de mar mas eu não vou fazer isso. Eles que me chamem de menino da mamãe. Não me chateio. Eu sei que a minha mãe não gosta. Ela fica muito preocupada, por sermos só crianças, sem nenhum adulto por perto. A minha mãe..." Ele tinha noção do enorme sacrifício que ela fazia desde que estavam só os dois, mais a avó. Tinha ouvido uma conversa entre a mãe e a avó e ela dizia "pelo menos é só um filho." Sorriu, pensando nela. "Ela nem é de brigar. Só me pede que seja sempre dedicado em tudo o que faça e que seja responsável." Dá o toque de saída e ele sai disparado da escola mas em vez de fazer o caminho que o levaria até à casa do Zé, vai directamente para a sua casa. Ao entrar pela porta da cozinha, encontra a mãe sentada à mesa, a conversar com a avó. A mãe olha para ele incrédula, dizendo: "em casa? então não te percebi aos cochichos com o Zé sobre o vosso grande jogo de futebol hoje?" Ele tira a mochila das costas, coloca-a na cadeira que está perto da porta, dá um beijo à avó e chega-se para perto da mãe. Abraça-a fortemente pelo pescoço e diz-lhe: "decidi que era melhor ficar aqui." Ainda abraçado a ela e com o rosto escondido nos cabelos dela, diz baixinho "como gosto de ti, minha mãe". A mãe, emocionada, dá-lhe uma palmada firme e carinhosa nas nádegas, afasta os seus braços, ainda pequenos e frágeis, e com um largo sorriso diz-lhe "eu sei que gostas de mim e nós - a tua avó e eu - também gostamos muito de ti. Mas tens de aproveitar a tua infância! Vai já a correr ter com o Zé! Mas, para além de teres cuidado, sabes que tens de estar de volta a tempo de tomares um bom banho e fazeres os trabalhos de casa. Para lanche, vou fazer cuscuz para comermos com o mel de cana-de-açúcar que a tua avó trouxe."
A porta da cozinha fecha-se alegremente e lá vai ele a correr ter com o Zé.
Ai os toques que ele iria dar na bola nova que o pai do Manel tinha trazido da América!
- Maggs -
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O cuscuz, em Cabo Verde, é tradicionalmente confeccionado com farinha de milho e cozido a vapor num binde. O binde é feito de barro e tem a forma de um vaso com buracos na base, que é arredondada e por onde passa o vapor de água.

Friday, September 07, 2007

Para a Sãozinha Fonseca-Fragoso

Despedida.mp3

A minha cunhada que - para mim -
é minha e de mais ninguém;
que me apazigua a alma com a sua voz melodiosa e cheia de paz;
que me olha de modo firme e decidido;
que me faz rir com a sua maneira alegre de falar;
que canta maravilhosamente ...

E a nossa amizade que começou quando ela me foi buscar a casa dos meus tios e levou-me para um passeio até Cape Cod, onde fomos ver o mar e comer um genuíno clam chowder.

Esta morna, despedida, é da autoria de Eugénio Tavares.

E a voz... essa voz, é, obviamente, da minha cunhada.

- Maggs -