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Friday, May 30, 2008

George Bailey

George Bailey, abrindo os braços para mostrar ao empregado da loja o tamanho da mala que queria comprar para depois percorrer o mundo...



Desde criança, George Bailey sonhou em calcorrear o mundo, explorando novas terras e construindo grandes obras. O que ele não queria era ficar para sempre em Bedford Falls, uma cidade pacata dos Estados Unidos da América. Contudo a vida vai-lhe pregando partidas e ele vai adiando sempre o seu sonho, acabando por chegar à casa dos quarenta a fazer projectos em papel e a assumir o negócio do pai, uma espécie de cooperativa de habitação, implicando lidar com empréstimos, juros e a ficar confinado num escritório o dia inteiro. Na sua ânsia de partir e não criar laços, recusou-se a admitir que se apaixonou por Mary, a menina que virou mulher e que foi sempre apaixonada por ele. Rendeu-se ao amor, casou-se com Mary e tiveram quatro filhos, vivendo numa casa enorme e decadente que não podia ser devidamente restaurada por falta de dinheiro.

Na véspera de um Natal, endividado e sem saída, num acto de desespero, George pondera o suicídio porque "valia mais morto que vivo". No momento em que ele se encontra preparado para se atirar ao rio, o seu anjo da guarda cai à água e, instintivamente, George mergulha para o salvar... Porque foi o que ele fez sempre em toda a sua vida: salvou o irmão de morrer afogado quando eram crianças; salvou o farmacêutico de ir preso por ter dado o medicamento errado, visto estar transtornado ao saber da morte do filho; com o negócio herdado do pai por força de circunstâncias várias, salvou muitas famílias de irem viver nas barracas do maléfico homem de negócios Henry Potter...

It's a wonderful life (em português, o filme ficou conhecido sob o título "Do céu caiu uma estrela"), foi realizado por Frank Capra em 1946, com James Stewart e Donna Reid nos principais papéis. O filme surgiu numa altura em que era importante elevar o espírito de entre-ajuda e de reconciliação, após a experiência traumática da Segunda Guerra Mundial. Uma história simples, contada de trás para a frente, i.e. o filme começa no momento em que George pensa no suicídio e Deus decide chamar um anjo para o salvar. O anjo Clarence, há mais de duzentos anos à espera de ganhar as suas asas, é escolhido e Deus mostra-lhe os momentos fulcrais da vida de George, compreendendo-se porque é que ele quer tentar o suicídio. O anjo Clarence dá então ao George a oportunidade única de saber como é que as pessoas que lhe eram próximas teriam vivido se ele não tivesse sequer existido... Já que ele dizia que valia mais morto que vivo...


É um dos meus filmes obrigatórios do mês de Dezembro, visto passar-se na época natalícia. Mais do que isso, é o meu filme favorito. Quiçá porque me revejo vezes sem conta no George Bailey: uma ânsia de partir, de estar sempre em viagem e de sentir que há sempre algo para observar, sentir e vibrar. Na verdade, todos temos um pouco do George Bailey: uma vontade, tantas vezes indómita que nos deixa esgotados, de partir à busca de novos mundos.


George Bailey aprendeu com a oportunidade dada pelo anjo Clarence que o seu mundo, que o seu suporte era a família e os amigos.
Maggs

Friday, November 02, 2007

Guerra & Paz

Sergei Bondarchuk realizou a "versão russa" de Guerra & Paz, em 1968. Em 1956, a "versão americana" tinha aparecido, sob a direcção de King Vidor. A versão russa acompanha-me sempre, tendo escrito "Valsa" com as imagens do filme a povoarem a minha imaginação.
Esta obra cinematográfica tem a capacidade de colocar em tela os pensamentos de personagens fulcrais da obra, nada mais sendo do que as inquietações do próprio Leão Tolstoy.
Aos catorze anos, vi as versões russa e americana na televisão portuguesa. De seguida, li a obra. Desde essa altura, já perdi a conta do número de vezes que reli Guerra & Paz. Quando vivi em Inglaterra, tive a oportunidade de comprar em VHS a versão russa. Como estes personagens estão aqui comigo tão presentes, sinto que quando estiver em Lisboa, vou ter de rever esta versão russa.
Na versão americana, Peter Fonta faz de Pedro Bezukov. Mas, Pedro é um homem corpulento que não sabe o que há-de fazer com o seu corpo, criando-lhe embaraços na corte... Tem um olhar irrequieto, igualmente dócil, que se antevê por detrás das lunetas. O realizador Sergei Bondarchuk fez o papel de Pedro, assumindo na plenitude a alma deste homem puro e cheio de dúvidas sobre o sentido da vida.
A bela Natacha que na passagem para a idade adulta fica noiva do príncipe Andrei Bolkonsky. Contudo, o noivado é rompido e Pedro vai visitá-la. Ela está desesperada porque tem a noção da dor que provocou no príncipe Andrei, considerando-se indigna de tudo e de todos.
"Não me fale assim, eu não o mereço! - exclamou Natacha, fazendo menção de retirar-se. Pedro, contudo, reteve-a.
Sabia haver ainda qualquer coisa para lhe dizer. Pronunciadas que foram porém as suas palavras, ele próprio se surpreendeu.
- Não, não, não diga isso: tem a vida toda diante de si - murmurou ele.
- Eu? Não, para mim tudo acabou - replicou ela num sentimento em que havia vergonha e humildade.
- Tudo acabou! - repetiu ele. - Se eu não fosse quem sou, se fosse o mais belo e o mais inteligente dos homens sobre a Terra, e se fosse livre, pedir-lhe-ia, neste mesmo momento, de joelhos, a sua mão e o seu amor.
Natacha, pela primeira vez de há muito tempo para cá, foi acometida de um ataque de choro, choro de reconhecimento e de emoção, abandonando a sala com um olhar de agradecimento.
Pedro saiu logo atrás dela, refugiando-se, por assim dizer, no vestíbulo, enquanto sufocava as lágrimas de felicidade que lhe haviam subido aos olhos. E, enfiando a peliça ao acaso, subiu para o trenó que o aguardava.
- Aonde vamos agora? - perguntou o cocheiro.
"Aonde vamos?", repetiu Pedro de si para consigo. "Aonde poderemos ir agora? Ao clube ou fazer visitas?" Tudo se lhe afigurava tão miserável, tão pobre, em comparação com os sentimentos de amor e doçura que o tinham invadido com aquele olhar comovido e cheio de reconhecimento, velado de lágrimas, que Natacha pousara nele.
- Para casa - gritou Pedro, que, apesar de dez graus abaixo de zero, abrira a peliça de urso e deixava dilatar de felicidade o seu largo peito." in Guerra & Paz
E como este momento ficou magistralmente registado na versão russa!
- Maggs -