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Saturday, March 28, 2009

A visita

Falaram-me tanto da sabedoria de Nha Clara e, agora, defronte a ela, não conseguia dizer nada. Sei que descera do Hiace e que, destemida, subira a ladeira até à casa térrea de Nha Clara. Porém, mal a vira sentada no mocho, à porta de casa, perdera toda a coragem para as perguntas prementes que tinha dentro de mim.
Debruçada sobre um enorme balaio, Nha Clara descascava, sem pressas e metodicamente, vagens de feijões. Tirava uma vagem do balaio, puxava a linha, às vezes, com a ajuda de uma pequena faca, e, cuidadosamente, retirava os feijões e, sem desviar o olhar do balaio, deixava-os escorregar da sua mão e cair numa panela, colocada no seu lado direito. No seu labor, ainda não levantara os seus olhos para me ver e eu... eu hesitava em cumprimentá-la. Sentia-me mais segura a mirá-la e os seus gestos tranquilos aquietavam-me.
Finalmente, pareceu ter sentido a minha presença, pois levantou o olhar, colocou a mão direita sobre os olhos e, com a mão esquerda, sem hesitações, fez-me sinal para me aproximar. Como que hipnotizada, cheguei perto, pedi-lhe a benção e sentei-me a seu lado, por sua indicação. Nha Clara não falou mas o seu olhar meigo foi o seu abraço de boas-vindas para mim. Sem proferir palavra, indicou-me as vagens e, a seu lado, dediquei-me a esse labor. As minhas mãos foram ficando àsperas e as minhas unhas sujas, contudo, dentro de mim crescia o sentimento de satisfação pessoal. Quando começou a anoitecer, Nha Clara levantou-se e eu ajudei-a a colocar o balaio e a panela dentro de casa. Fez-me adeus e, novamente, pedi-lhe a benção. Sentindo-me livre e ligeira, desci, numa alegre correria, a ladeira e apanhei o Hiace de volta à capital.
- Tive um sonho estranho. Sonhei que passei uma tarde com uma anciã, no interior de Santiago a descascar vagens de feijões. - comentei contigo, aproximando a minha mão para te fazer um carinho no rosto.
- Menina, precisas ir arranjar estas mãos! Estão àsperas! O que andaste a fazer? De certeza que não passaste a tarde a tirar uma soneca no sofá como me estás a dizer! - respondeste, alarmado, lembras-te? Depois, foste abrir a porta da rua para recebermos a visita da tua mãe.
- Oh meus filhos, já viram a prenda que vos deixaram à porta? Uma panela cheia de feijões descascados!
Aí, olhaste para mim, os teus olhos estupefactos, e disseste-me:
- Menina, mas isso foi mesmo um sonho?
Ainda hoje não te sei dizer se foi um sonho ou não. Mas posso dizer-te que aprendi que a minha vida, o meu destino, estão nestas mãos! As mesmas mãos que buscam o teu rosto e te fazem uma carícia antes de adormeceres a meu lado.

Thursday, March 12, 2009

Os amantes

Para os amantes, o sol sumia vagarosamente no horizonte e o mar inflamava-se e fundia-se nos tons de vermelho e laranja do céu. A brisa trazia consigo o cheiro forte a maresia e Lígia, fechando os olhos, inspirava sofregamente e apertava com firmeza a mão de César. O rosto, luminoso, deixava transparecer a sua alegria interior por sentir novamente o cheiro característico do mar, transportando-a para a sua infância passada à beira-mar. Sem querer quebrar a ligação com o seu passado, Lígia, ainda de olhos fechados, aproximou a mão de César dos seus lábios e beijou-a ternamente. Com o pensamento perdido nas tonalidades do céu e do mar, César sorriu ao sentir a suavidade do toque dos lábios de Lígia.
Pausaram a caminhada pela Marginal e César repousou o olhar em Lígia, que permanecia mergulhada nos cheiros da sua meninice. Maravilhado, César continuou a olhar para ela, tentando absorver a energia que irradiava dela. Queria entranhar-se nela e conseguir encontrar essa sua avidez inesgotável pela vida. Sim, era por isso que estava tão preso a ela. A fome de viver de Lígia ia despertando aos poucos a sua alma adormecida pela sucessão dos dias sempre iguais. Sim, queria poder fundir-se nela e assim sentir-se vivo novamente!
Lígia abriu os olhos e repousou o olhar no de César que a fitava tão intensamente. Ela deixou que ele invadisse a sua intimidade com aquele olhar tão penetrante. Deu-lhe a liberdade para ele procurar o que tanto precisava e que depois se apoderasse disso sem pedir licença, pois ela era dele. Desde sempre. Esse olhar fazia com que ela se sentisse tão desprotegida, mas, igualmente, tão completa porque eram nesses momentos que os dois se fundiam, completando o outro, saciando a inquietude do outro. César sentia-se agora inclinado a concordar com Lígia quando ela lhe dizia que deixassem que os seus olhares dissessem aos seus corações o que eles nem mesmo sonhavam, o que eles nunca iriam conseguir dizer por palavras. Sim, ela tinha razão.
- Porque sinto que te vou perder, Lígia?
- Porque vais ter de me perder para me encontrares novamente. Mas estarei sempre perto de ti, mesmo quando estiveres longe de mim.
- Serei eu a deixar-te, é isso?
- Não, meu amor. Há-de chegar o dia que sentirei que terei de te deixar para poderes sentir a minha falta. Nesse dia, deixar-te-ei somente um bilhete.
- Mesmo quando estou perto de ti, sinto a tua falta. Sinto a falta daquilo que ainda me vais dar.
- Ainda não sentes a minha falta... Quando finalmente sentires isso, tudo fará sentido para ti.
- Porque falas sempre por enigmas, Lígia?
- Porque sinto que te vou perder, César?
- Porque vais ter de me perder para me encontrares novamente. Mas estarei sempre perto de ti, mesmo quando estiveres longe de mim.
Lígia sorriu e aninhou-se no peito de César. Anoiteceu.

Sunday, March 08, 2009

Homero & Maria

- Tem sido uma longa caminhada, minha amiga.
Homero trajava roupas claras, parecia até que todo ele era pureza. A sua barba branca, comprida até ao peito e habitualmente em desalinho, estava particularmente revolta nessa tarde de sol abrasador mas com uma brisa suave a correr pelas ruas da cidade.
Maria não sabia a sua idade, nem a sua proveniência, porém essa barba branca e um olhar de tranquilidade e de apaziguamento permanente e que só a experiência de vida confere às pessoas, diziam-lhe que Homero já percorrera o mundo, enquanto ela sentia que estava finalmente a dar os primeiros passos na estrada da vida, sem buscar o apoio num suporte ao alcance das mãos.
Quando a conversa entre os dois discorria de forma amena, ela quase que se atrevia a perguntar-lhe a idade, a sua origem, o seu percurso de vida... Mas inibia-se sempre, por medo de ofendê-lo, de entrar num campo que ele nunca tinha mostrado disponibilidade em abordar. Nem sabia o seu nome, tendo começado a tratá-lo por Homero e ele parecera aceitar o nome com agrado. A sua curiosidade maior era perguntar-lhe se ele seria um dos deuses do Olimpo, pois Homero aparecia sem avisar, mas sempre nos momentos cruciais da sua vida e mais estranho ainda era que o traje envergado por ele coincidia sempre com o seu estado de espírito, parecendo adivinhar as tonalidades dos estados de alma de Maria. Havia momentos que ele aparecia, sentava-se a seu lado e só se levantava para se ir embora quando sentisse que Maria estava recomposta novamente. Frequentemente, nem uma palavra era trocada entre os dois. Dava-lhe então um abraço fraterno e voltava a desaparecer. Por isso, Maria não se atrevia a exteriorizar as suas perguntas, limitando-se a aproveitar a presença de uma pessoa que lhe transmitia tranquilidade e que a ajudava a passar do gatinhar ao andar autónomo.
- Sim, Homero, tem sido uma longa caminhada...
- Maria, Maria, Maria... lá estás com aquele ar sonhador novamente! - disse Madalena, entrando no gabinete de Maria.
Maria abriu os olhos e nada disse, mantendo o sorriso alegre que se tinha vindo a desenhar nos seus lábios. Madalena entregou-lhe uma pasta e dirigiu-se novamente para a porta. Parou, voltou-se para Maria e como que não resistindo, comentou:
- Mas sabes... é por isso que tens o percurso que tens e que só te pode deixar orgulhosa. Não perdeste a capacidade de sonhar, mantendo sempre os pés na terra! - Madalena saiu do gabinete, fechando a porta atrás de si.
Antes de abrir a pasta, Maria fechou novamente os olhos, o tempo suficiente para ver Homero a sorrir-lhe, dizendo:
- Tem sido uma longa caminhada, minha amiga.

Sunday, February 08, 2009

Folhas

Defronte de seus olhos, o chão do parque assemelhava-se a um longo tapete feito em vários tons de amarelo pois encontrava-se coberto pelas folhas que tinham caído das árvores, tornando-as desnudas e desprotegidas para o Inverno que se aproximava inexoravelmente. Como lhe agradava o som provocado pelo pisar das botas sobre as folhas!
Ajeitou o gorro, aconchegou o cachecol ao pescoço, afundou as mãos nos bolsos do casaco e estugou o passo. Precisava atravessar o parque rapidamente para apanhar o comboio. Já estava atrasada e não havia tempo para namorar o parque e entrar num monólogo sobre o sentido da vida.
O comboio estava repleto. Desistiu de entrar nesse, como no seguinte e no seguinte também, apesar de já haver carruagens com lugares vagos. Desistiu simplesmente de apanhar o comboio até ao seu destino. Com a mesma intensidade que sentira a necessidade de estugar o passo para apanhar o comboio e não se atrasar para o seu compromisso, decidira que não valia mais a pena. "É tudo tão relativo. O que hoje é tão premente, amanhã é nada!"
Deu as costas à plataforma de embarque, saiu da estação de comboios e foi pisar as folhas caídas no parque.

História de amor

- Estou atrasado, não é verdade? Perdoa-me! Não tenho desculpas para este atraso! Na verdade, sinto-me um pouco perdido, sabes? Ando sempre a correr de um lado para o outro e a tomar decisões sobre o acontecimento que sinto que a minha vida está a acontecer a cada momento sem que eu consiga ter uma voz activa. Ando frustrado e sinto-me perdido... Por falar em perdido, ouviste hoje a história daquele homem que esteve perdido na floresta durante imensos anos? Mas isso não é relevante agora. Sim, sei que estou muito atrasado! ... Penso se o homem não esteve escondido este tempo todo na floresta. Provavelmente, teve anos de vida muito tranquilos. Tinha tempo para pensar no que iria fazer durante o dia. E eu que me sinto perdido porque não consigo parar para reflectir... Como estás? Eu sei que não estás zangada comigo... Mas sei que estou tão atrasado que nem sei mais o que dizer...
- Sim, eu aceito ser tua mulher.
- É por isso que te amo! Porque consegues ouvir aquilo que eu não consigo dizer.

Friday, January 02, 2009

Um bilhete

Por fim, as palavras irromperam e uma história foi revelada.


Já te amava ainda antes de te conhecer.
Todas as noites, os meus últimos pensamentos eram para ti.
Chamava por ti, incessantemente, numa prece silenciosa.

Tu...
que eras um desconhecido somente porque os meus olhos ainda nao tinham repousado sobre os teus.
(as minhas mãos ainda nao tinham percorrido as linhas do teu rosto)

Sim...
tu que andavas perdido de mim.
(e eu de ti)

Sentia-te cada vez mais perto.

Quando, finalmente, os nossos olhares se encontraram,
soubemos que não estávamos mais perdidos,
soubemos que começávamos a continuação de uma história.

As mãos dadas, os dedos entrelaçados...


Maggs


ps. resolução de ano novo: juntar "um bilhete" e "de mãos dadas". Sabemos que há uma história que precisa ser contada...

Friday, May 30, 2008

Marulhar das ondas

Mais um fragmento da história da D. Bia



Era uma senhora petite. Caminhava ligeira pelas ruas da cidade de Mindelo no seu passo pequeno e rápido, postura erecta e olhar decidido. As agruras da vida nunca lhe tinham tirado a capacidade de gargalhar. Por sentir o dom da vida a cada momento, os olhos de D. Bia bailavam constantemente de alegria. Esse júbilo nunca esmoreceu, nem quando descobriu, aos 24 anos, que o seu casamento era uma falácia e que tinha sido mais uma a cair na cantiga melodiosa de um marinheiro que aportava algumas vezes por ano em S. Vicente. Chorou silenciosamente mas o brilho nos olhos nunca chegou a desaparecer. E porque deveria? Tinha conseguido trazer ao mundo seis crianças saudáveis e que hoje só lhe davam alegrias!

Todavia, havia uma altura do dia onde o andar se tornava pausado, tranquilo, sem pressas. Pela manhãzinha, D. Bia fazia o percurso da avenida marginal até à praia da Laginha. Iniciara esse ritual no dia seguinte à partida do último filho para o estrangeiro e os amigos e conhecidos, ao cruzarem com ela, limitavam-se a cumprimentá-la não ousando quebrar o seu recolhimento. De olhar brilhante e sorriso bailando discretamente nos lábios, respondia ao cumprimento e repousava novamente o olhar na direcção do mar. Avançava vagarosamente pela marginal, em direcção à Laginha. Defronte ao mar, permanecia sentada por um largo tempo, ouvindo atentamente o marulhar das ondas, como se trouxesse novas dos filhos. No seu íntimo, ela ia respondendo. Falava das saudades, lembrava-se de algum episódio da infância dos filhos, agradecia aquela carta ou encomenda.

Eram esses momentos que lhe davam força para que o tal brilho nos olhos não esmorecesse nunca. Não exteriorizava os seus pensamentos mais íntimos, mas a dor da saudade consumia o seu pequeno ser muito mais do que a dor do fracasso do seu casamento ou mesmo das inúmeras dificuldades em criar e educar os seus filhos. Sentada defronte ao mar, abstraia-se do que a rodeava e imaginava os filhos sentados à volta dela. Ela protegia-os, mimava-os e deliciava-se porque via-os como quando eles ainda eram crianças e estavam sob a sua asa materna. Depois de saciada a saudade, levantava-se e fazia o percurso de regresso, parando no mercado para as compras do dia.



Maggs

Friday, April 11, 2008

Bistidu ku florzinhas

Maria era bunitona, como diziam os rapazes do Plateau. Fêmea negra, de pele luzidia mantida com os óleos que as primas lhe mandavam da Merka. Cabelo crespo, cortado bem rente, fazendo sobressair os olhos negros, o nariz afilado e os lábios carnudos, sempre em vermelho-carmin.

Pelos caminhos que percorria, no seu bambolear lento, provocava danos. Os homens quedavam mudos, seguindo com os olhos aquela mulher cheia de vida e de promessas que nunca se cumpriam. As mulheres tentavam mostrar-se indiferentes, desejando que ela caísse finalmente em desgraça. "Essas mulheres acabam sempre da mesma maneira: grávidas de um conquistador fala-barato!".

Mas Maria não queria acabar como as outras. A sua determinação crescia sempre que olhava para a figura da mãe que perdera o viço antes de chegar aos trinta e que aos cinquenta era uma mulher envelhecida, amarga, sem sonhos. Sim, ela iria arranjar um bom moço e iriam para a Merka, buscar vida melhor.

Ainda na lembrança dos homens e mulheres do Plateau, o dia que ela descera a rua principal da cidade no seu vestido de florzinhas que lhe tinham mandado da Merka. O vestido era branco com florzinhas vermelhas do mesmo tom daquele batom que ela usava sempre. Celestino, homem calado e cioso do seu ofício, perdeu o tino e desceu a rua com ela. Não falava mas olhava para Maria insistentemente. Ao chegarem ao fim da rua, Maria estacou, olhou para Celestino, e disparou: "O que queres?". Celestino, sorrindo, levou a mão ao bolso das calças e mostrou-lhe o dinheiro que iria depositar no banco.

- Uma palavra tua! Com este dinheiro e mais o que já juntei no banco, partimos para Merka quando quiseres.




- Maggs -

Saturday, December 29, 2007

Pacífico, meu tormento...

Ao desembarcar no cais, não podia, não queria acreditar no que estava vendo.
Homens armados, com o olhar de quem sabe o que está a fazer, sem, na verdade, o saber. Mal recebem uma notificação, dizendo que precisavam defender a pátria, lá se iam orgulhosos...
Chamo-me John. Sou jornalista do jornal americano Sun e, neste momento, sou correspondente de guerra no Pacífico. Meu Deus, se os trouxesse aqui para verem no que se transformou Hong-Kong... Talvez não acreditassem!
Numa cidade sinistra, onde as barricadas impõem a sua trágica presença! Onde estão os gritos, a algazarra feliz das crianças?!
Numa palavra ou expressão, onde está a beleza que tanto apreciei há 5 anos quando vim fazer a minha primeira reportagem no Oriente?...
Hong-Kong, colónia britânica, no seio da 2ª Guerra Mundial, servindo de joguete entre potências que, por um lado querem subjugá-la e anexá-la a um grande império, o Japão, e, por outro lado, pretendem mantê-la como uma colónia importante no comércio e tráfico de especiarias do Oriente, a Inglaterra.
Aproximo-me dos correios. Talvez haja algum telegrama para mim.
Quando abro a porta e penetro no edifício, depara-se-me o encarregado dos correios, falando da Guerra que assolava o seu querido Oriente a um senhor de idade que talvez tivesse aparecido lá em busca dum abrigo para a noite que, lúgubre, se aproximava.
O relógio marca 7 horas. Mais um dia se passou. E falando num chinês fluente, inquiri:
- Há algum telegrama para mim? O meu nome é John Madigan.
- Há sim. Agora com a guerra só recebemos telegramas para os oficiais. Acaso é o senhor algum oficial disfarçado?
- Não, não sou. - Porém, como me queria livrar o mais depressa desse homem, num ápice, tirei-lhe o telegrama das mãos e fui-me embora, saindo a correr.
A rua estava quase deserta.
Daqui a pouco começaria a ronda e, por isso, precisava encontrar sem tardar, um alojamento.
Foi fácil. Hong-Kong deixou de ser visitado por turistas, mas sim por mercenários e assassinos que preferem o anonimato, dormindo em cabarés ou outro tipo de esconderijo.
O quarto era do mais miserável. Uma cama velha, uma bacia e uma ventoínha avariada, constituiam o seu recheio e mobiliário.
Sem pressa, abri o telegrama:
"Japoneses aproximam-se
Atacam 25/12/41
Boa sorte"
Amanhã é 25 de Dezembro!
Malditos! Tanta fome de vencer que nem esperam mais um dia para se saciarem!
Tive um pesadelo. Sonhei com o meu Natal do ano passado. Passei-o com os meus pais e irmãos. Brinquei muito com o meu sobrinho John. Tem 4 anos. Muito inteligente. Ele estava num deserto, sozinho, sem ninguém, mas estava a brincar com o carrinho que lhe dei, feliz. Sim, brincava com uma felicidade enorme! Mas eu intimamente queria que ele saísse dali, pois os japoneses se aproximavam. Gritei. Nenhum som saíu. Estava sufocado. Não conseguia fazer ecoar o meu gritar! E ele, indiferente, continuava entretido e entregue na sua brincadeira. Cada vez mais aumentava a minha aflição, pois os japoneses aproximavam-se assustadoramente.
De repente, o barulho das bombas a cair, a explosão.
- John, John. Por favor, responde-me. Acordei molhado de suor. E sem haver tréguas outra e outra explosão. Levantei-me, aproximei-me da janela e vi... Meu Deus! O que os meus olhos vêm! Mulheres e crianças a gritar desesperadas. Casas a arder. Animais fugindo, cujos ganidos pareciam dizer: "Vocês não têm consciência do mal que estão a provocar."
Gritei alto e chorei. Sim, chorei como não chorava desde criança. De raiva. Sem dúvida nenhuma, eu era uma criança. Talvez, por isso, não atingia o motivo pelo qual os homens lutam, matam-se e só para poderem, quiçá, no fundo dizer "Tenho poder".
Vesti-me e saí a correr como um louco. Tinha uma máquina fotográfica. Tirei fotografias das crianças abandonadas a chorar, de animais mortos com os olhos voltados para o céu, parecendo implorar a Deus como último recurso.
Hoje 25 de Dezembro de 1941, nasce Jesus e morrem crianças e animais...
Para quê? Porquê? Simplesmente não sei...
O ataque terminara. A minha vida terminara, neste instante. Prometi a mim mesmo que ao voltar para a América, escreveria o artigo da maneira como vi o ataque, sem subtilezas. Fotos mostrando o sofrimento e desespero dos que não tinham nada com a Guerra, ilustrariam a reportagem. E abandonaria a minha carreira. Podia trabalhar na loja do meu pai.
Não voltei ao hotel, não suportaria mais. Fui ao cais e comprei o bilhete para Xangai. De lá voltaria de avião, via Paris, para a América.
Senti e ouvi os japoneses a entrarem em Hong-Kong enquanto entrava no barco que me levaria a Xangai.
Sentia-me só e melancólico. Não queria acreditar que no dia de Natal os japoneses tivessem combatido. Não souberam respeitar o nascimento de Jesus. E ele viera espalhar pelo mundo a fraternidade e solidariedade humana.
São cristãos os japoneses? - perguntei-me.
Não soube responder. A minha mente estava bloqueada e eu só queria chegar ao aconchego da casa dos meus pais o mais rapidamente possível, antes do fim de ano.
Talvez conseguisse afastar do meu espírito esse insólito pesadelo e readquirir a confiança na vida. E quem sabe nos próprios homens apesar do que assisti, infelizmente...
- Margarida Fragoso, 9.º ano, Externato Júlio César, 1986 -
_______________
Quando o professor Manso Gigante pediu aos alunos do 9.º ano que escrevessem um conto de Natal para um concurso, decidi que iria escrever algo sobre a guerra e que procuraria um local que tivesse sido invadido no dia 25 de Dezembro. Porquê o jornalista americano? Bem, achei que seria pouco provável um jornalista português em Hong-Kong nessa altura.

Sunday, November 18, 2007

Choro silencioso

- Porque choras?
As lágrimas deslizavam suavemente pela face. Não era um choro convulsivo. Na verdade, nem sentia que estivesse a chorar. As lágrimas caíam, discretamente, desaguando nos lábios, deixando-lhe com um sabor a mar na boca.
- Porque me afastas de ti?
Recostou-se no sofá, abraçando-se. Como explicar-lhe que a vida tinha-lhe ensinado a apoiar-se em si própria? Como dizer-lhe que sabia que cada pessoa era um mundo e que, provavelmente, quando verdadeiramente precisasse ouvir uma voz amiga, essa voz não surgiria. Abriu os olhos, sorriu e disse:
- Estou bem. Não estou a chorar. São lágrimas de apaziguamento.
O encanto acabou. Estava sozinha na sala. Limpou as lágrimas com as mãos e levantou-se decidida. Caminhou até à janela e ficou a observar as árvores. "O Inverno está a chegar." pensou. "Vou sentir saudades de ver estas árvores com flores, cheias de vida. Agora é o tempo do recolhimento".
O telefone tocou. Era uma voz amiga.
- Maggs -

Wednesday, October 10, 2007

A caminhada

Para os meus pais
Para a Arega & Cª
Inspirou vagarosamente. Não havia pressa. Não agora que tinha chegado aonde queria. Expirou, no mesmo ritmo, enquanto o olhar, na mesma cadência respiratória, percorria a paisagem que se desnudava perante ela. Era a natureza que se despia ou era ela que entrava na sua intimidade?
Devagarinho, baixou-se e sentou-se no chão, sentindo-se inebriada com o cheiro da terra-mãe, prenhe de vida. Sorriu, ao notar o estado das solas das suas botas. Estavam gastas! Que longa caminhada tinha sido essa!
Olhou para as suas mãos, tentando apreender a sua vida, o seu percurso até esse momento. Por força da imaginação, essas mãos transformaram-se nas mãos de uma menina:
"Em criança, o que é que eu queria ser quando fosse grande?"
"Sou o que sonhei para mim? Sei que pedi a mim própria estar sempre em transformação - nem que fosse na minha imaginação ou através dela. Não posso parar porque há ainda tanto para ver, para experimentar, para sentir..."
As mãos tornaram-se transparentes e desapareceram porque ela agora estava no útero materno. O seu olhar permaneceu firme e inquisitivo no lugar onde as mãos de criança tinham estado momentos antes.
"E os meus pais? Porque eu iniciei a minha existência ainda antes de nascer, na imaginação deles. Sou o que eles sonharam para mim?"
"Eles ensinaram-me a voar, a continuar a caminhada quando a vontade é parar. Mostraram-me como aquietar esta sede de viver, que é eterna e intensa."
Esta caminhada ainda não tinha acabado. Na verdade, mal tinha começado.
Deitou-se de costas, as mãos - adultas e seguras - servindo de travesseiro e olhou para o céu azul e infinito. Cada olhar, um mundo diferente, uma interpretação própria.
"Será que um dia conseguirei ver a natureza tal qual ela é ou será sempre através do meu olhar, que é cheio de interpretações próprias? Enquanto sentir esta comunhão, a minha visão própria e particular da natureza não deverá estar longe da essência desta terra-mãe, tão prenhe de vida!"
Gargalhou e abriu os braços para o alto. Levantou-se decidida e disse em voz alta:
"Vamos embora! Há toda uma vida para explorar, tantas alegrias ainda para sentir e guardá-las preciosamente, dando o ânimo para ultrapassar as tristezas."
Acordou. Virou-se na cama, olhou para o relógio na mesinha de cabeceira e disse em voz alta:
"Vamos embora. Tenho esta vida para viver!"
- Maggs -

Tuesday, September 25, 2007

António Aurélio Gonçalves

Não o fiz de propósito mas parece que o fiz em boa hora.
António Aurélio Gonçalves, conhecido por Nhô Roque, nasceu no dia 25 de Setembro de 1901, na cidade do Mindelo, em S. Vicente, Cabo Verde. Faleceu a 30 de Setembro de 1984.
Os estudiosos poderão falar das suas obras (em Portugal, Noite de Vento e Terra de Promissão estão disponíveis através da editora Caminho), os ex-alunos como ele era como pedagogo.
A Maggyzinha fala da terna lembrança de um homem de presença suave e agradável e de um sorriso discreto nos lábios.
- Maggs -

Monday, September 24, 2007

Rua do Nhô Roque

D. Bia era uma "senhora honrada", tal como ela fazia questão de frisar, empertigando o corpo pequeno, delgado e levantando ligeiramente o queixo. "Senhora honrada", dizíamos, porque "honradamente criei os meus seis filhos, ensinando-lhes a serem homens e mulheres honrados!" Costureira de profissão, "desde que me entendo por gente.", repetia às clientes enquanto lhes fazia a prova da roupa. Ainda criança, mostrara aptidão para a costura e a mãe, aliviada, encaminhara-a para aprendiz de costureira. Era menos uma preocupação saber que uma das filhas estava orientada com uma profissão. E D. Bia, de forma determinada e persistente, criou a sua reputação. Trabalhava em casa e quando lhe pediam a direcção, dizia "Conhece a rua do Nhô Roque? Ao chegar lá, pergunte pela casa da D. Bia que toda a gente me conhece nessa rua."
O quarto de costura da D. Bia dava para a rua do Nhô Roque e quando estava a trabalhar, as persianas de madeira da janela ficavam completamente abertas, de forma a aproveitar ao máximo a luz natural. Uma batida suave na persiana de madeira, fê-la parar a máquina de costura, baixar os óculos e sorrir ao reconhecer a pessoa que lhe batia à janela. Levantou-se com ligeireza, repousou os braços no peitoril da janela e iniciou uma alegre conversa com a amiga. A amiga tinha parado somente para dar um olá rápido porque ainda tinha de ir à praça comprar peixe para fazer no forno mas que logo mais, pela tardinha, passaria por ali novamente para a prova do vestido. "Não é que o baptizado do meu neto é já no Sábado? E daqui a uns dias, já o estou a ver a ir cursar." D. Bia riu com gosto, dizendo-lhe que não era bem 'uns dias', que a amiga não tinha necessidade de se preocupar porque o vestido estaria pronto para o baptizado e que "ainda bem que hoje eles conseguem ir cursar!"
D. Bia ficou ainda um pouco mais à janela, observando a amiga a afastar-se em direcção ao mercado. Quando se afastou da janela, fazendo tenção de regressar ao trabalho, o seu olhar caiu sobre a porta da casa do Nhô Roque. Sorriu ternamente, lembrando-se da sua figura erecta, elegante e de sorriso discreto nos lábios a caminhar em direcção à marginal para o seu passeio. Desde criança aprendera a admirá-lo, a respeitá-lo, observando-o à distância porque nunca se atrevera a conversar com ele. D. Bia não tinha tido a oportunidade de estudar, por isso, só o facto de saber que vivia perto de alguém que lia e que escrevia muito, dava-lhe uma grande alegria. Admitia que na sua luta honrada para dar a melhor educação aos filhos, tinha na sua mente a figura do Nhô Roque. Queria que os seus filhos estudassem e que se tornassem pessoas com cultura, para além de serem honrados. E se ele hoje estivesse vivo, ganharia toda a coragem do mundo e dir-lhe-ía que ela que nunca tinha estudado, tinha, honradamente, criado os seus seis filhos e que hoje, apesar da saudade por estarem todos emigrados, tinha a alegria de saber que os netos estavam a cursar, que falavam várias línguas e que até um estava a cursar para médico. Sabia que ele ficaria orgulhoso também, como se fosse da família.
O Nhô Roque de mãos nos bolsos das calças, postura erecta e de sorriso discreto nos lábios. Ainda de sorriso nos lábios, D. Bia recolheu à sua máquina de costura porque o vestido precisava ficar pronto para o baptizado do neto da amiga.

- Maggs -
____________________
Vivendo na ilha do Santiago, passava as minhas férias escolares na ilha de S. Vicente. Na minha memória, tardes passadas no quintal da casa do Nhô Roque e da Djutinha a brincar. Ainda me lembro que havia um poço que eu estava proibida de me aproximar mas o resto do quintal era mais do que o suficiente para eu abrir asas e voar. A Djutinha de sorriso aberto e feliz por ter gente à volta, o Nhô Roque de sorriso discreto e postura erecta - um sorriso discreto e um olhar vivo! Nestes últimos dias, tenho pensado muito no Nhô Roque porque os meus pais dizem-me que quando for a Portugal em Dezembro, tenho de (re)ler as obras dele; porque todos nós temos excelentes recordações dele e que através da minha escrita posso prestar-lhe uma homenagem. Fiquei feliz por saber que na rua onde ele viveu, hoje é a Rua António Aurélio Gonçalves.

Saturday, September 22, 2007

Nha fidjo matcho

Lá vai ele. Tão novo e com tantas responsabilidades. Os calções vão escorregando à medida que ele caminha e ele, de modo automático, puxa-os para cima com a mão esquerda porque com a mão direita vai conduzindo o seu carro de lata. Deixai-o viver a sua infância. Não haverá tempo para uma criança se tornar adulta? Mas, basta estarmos vivos para estarmos sujeitos à adversidade...
Santiago regressava a casa depois de uma tarde com os amigos a jogar à bola. Também tinham feito um concurso de melhor carro de lata do mundo e o seu tinha ficado em segundo lugar. Ele sabia que para a próxima conseguiria o primeiro lugar porque ía pedir à mãe para comprar latas de azeite da marca X. É que essas latas tinham maior maleabilidade. Os planos já estavam todos feitos... E lá puxava ele os calções com a mão esquerda, enquanto a mão direita puxava o seu carro de lata, com uma carica como medalha de um honroso segundo lugar.
Ao entrar em casa pela porta da cozinha, pronto para gritar a plenos pulmões que a lata de azeite da marca X era a ideal para o seu próximo carro de lata, sentiu-se imediatamente acabrunhado com o ambiente pesado instalado em casa. Pessoas estranhas, sentadas à mesa. Silenciosas. Ele inquiriu: "A mãe?". Uma senhora, amiga da avó paterna, levantou-se e aproximou-se de Santiago, tentando agarrá-lo pelas mãos, fazendo com que ele largasse o carro. Mas ele recusou o gesto e apertando mais a mão direita no cabo de metal do carro, repetiu: "A mãe?". Nha Maria apareceu à porta que dava acesso ao resto da casa e fez um gesto para o neto se aproximar. O menino, obediente, seguiu a avó até ao quarto dela, deixando o carro perto da porta por onde tinha entrado. Ela fechou a porta do quarto, suavemente, sentou-se na berma da cama e chamou o neto para se sentar ao lado dela.
"É o pai, não é? Ele já devia ter regressado, não é? Ele costuma estar sempre de volta quando estou nas férias grandes... É o pai, não é?", Santiago falou de um trago só, após sentar-se no lugar indicado pela avó. Nha Maria, tentando manter uma postura tranquila, disse "Sim, é o teu pai. Ele já devia ter regressado. Mas o teu pai nunca foi de dar muitas notícias...". A avó ficou um largo tempo em silêncio. Os olhos do Santiago estavam dilatados e perscrutavam os olhos da avó que os baixava. "Um senhor da empresa esteve aqui há bocado e disse que perderam o contacto com o grupo onde o teu pai estava." Outra pausa. "Mas não está nada confirmado que tenha acontecido alguma coisa de mal ao teu pai. Ele está desaparecido... Entendes, meu neto?". Santiago não entendia. Ele só sabia que o pai se ausentava de casa por muito tempo. Ele sabia que o pai viajava para lugares distantes com outros homens e que trabalhavam para uma empresa e que o pai voltava sempre pelas férias grandes. Ele também sabia que nas férias grandes, os pais, a avó e ele exploravam a ilha de Santiago, vezes sem fim. Mas ele não entendia porque é que o pai estava 'desaparecido'.
"Avó, eu entendo." e coloca a sua mãozinha, pequenina, sobre as mãos da avó que repousavam no regaço. "O pai está fora e agora vai demorar mais algum tempo. Não é isso?". "É, meu neto. É isso mesmo." Nha Maria também queria acreditar que era mesmo só isso. Mas ela sabia que para onde o filho ía as coisas poderiam correr mal. E neste último sítio, uma guerra civil estava a eclodir. E o seu filho queria somente criar mais oportunidades para Santiago... Indo para longe, não vendo o filho a crescer... valeria a pena tamanho sacrifício? Era o que pensava Nha Maria. "Sim, meu neto. É isso mesmo.", repetiu. Santiago, tentando tranquilizar a avó, disse: "Avó, enquanto o pai não chegar, eu prometo que não vou dar tanto trabalho... assim, a avó e a mãe não se cansam tanto! Eu vou tentar ser menos traquinas... Também posso consertar as coisas... como o pai faz quando ele está aqui... Assim, nem vamos perceber que o pai ainda não chegou."
A mãe de Santiago, que tinha aberto a porta há já algum tempo, de olhos húmidos e transtornados pela angústia de uma incerteza mas sorrindo ternamente, disse baixinho: "Oh nha fidjo matcho..."* e fechou a porta novamente, dirigindo-se para as pessoas que estavam na cozinha.
- Maggs -
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* meu rapaz

Sunday, September 16, 2007

Uma ida ao cinema



Saíamos de casa, descíamos a rua do Hospital, virávamos na primeira rua à direita, depois na primeira à esquerda, continuávamos a descer por essa rua e virávamos na primeira à direita, atravessávamos o jardim da Escola Grande e chegávamos ao cinema. Outras vezes, continuávamos o passeio até à praça Afonso Albuquerque e os meus pais compravam mancarra às vendedeiras que estavam no jardim da Escola Grande.
Há um filme que vimos no cinema da Praia que me marcou de tal forma que ainda gravo na memória algumas imagens, como se tivessem ficado congeladas para sempre. Do que me consigo recordar, a história passa-se num bairro de operários e há um avô que ganha a vida a comprar e a vender bens usados, usando uma carroça puxada por um cavalo. O neto costuma acompanhá-lo e juntos apregoam os serviços do avô através de uma canção. O avô morre e a imagem que tenho bem vincada na minha memória é a de um grande plano da cara do menino e ele a lembrar-se (agora sei que era uma recordação!) dos percursos que faziam pela cidade na carroça do avô, cantando com ele.
Saímos do cinema e, no regresso a casa, estávamos todos a comentar o filme e eu, num misto de interrogação e de afirmação porque, acima de tudo, queria tranquilizar-me, disse algo do género: "Deus ficou triste por saber que o neto tinha ficado desconsolado, por isso, trouxe o avô ao mundo novamente, não é?" Na altura, com menos de dez anos, foi a minha forma de resolver a minha angústia por ver o menino triste. Hoje, sei que a realidade é outra mas em relação a este filme, a criança e o avô continuam a percorrer as ruas da minha imaginação apregoando que compram e vendem toda a espécie de bugigangas.
- Maggs -

Saturday, September 15, 2007

Conversa à porta de casa

"Foi num dia igualzinho a este que nasceste. Estava este calor seco e não corria uma única brisa.", ía dizendo a avó enquanto Santiago se sentava perto dela, no mocho que tinha trazido da cozinha. O cão Pulgas, percebendo que o dono não estava para aventuras, deitou-se prazenteiramente aos pés de Santiago que lhe ía acariciando as longas orelhas castanhas. Era uma tarde de Domingo e Nha Maria e o neto estavam sentados à porta de casa, aproveitando a sombra que batia ali sempre por essa altura do dia. As pessoas que íam passando, paravam e cumprimentavam Nha Maria, perguntando-lhe pela saúde e família, acabando, invarialmente, a conversa dizendo: "Mas este é o seu neto? Cada vez mais parecido com o pai!".
Nha Maria adorava contar estórias e Santiago era um excelente ouvinte, sempre de olhos arregalados, narinas dilatadas e de lábios entreabertos como se assim conseguisse absorver melhor todos os detalhes do que ela estava a contar. Mas ele não era o único ouvinte atento porque as crianças da redondeza sentavam-se à volta para ouvi-la contar as estórias que já tinham sido repetidas vezes sem conta mas que pareciam sempre novas porque ela mudava sempre um pormenor, omitia outro e realçava ainda um outro diferente. Mas assim que Santiago chamava a avó a atenção para o facto de estar a haver uma alteração, ela, com uma expressão séria mas de olhar brilhante e risonho, dizia: "Afinal? Quem é que está a contar a estória aqui?".
"Estás muito quieto, Santiago. Na volta, estás doente.", disse a avó, tentando espicaçar o neto, percebendo que a estória do nascimento dele e do porquê de se chamar Santiago não ía pegar. Santiago andava taciturno nos últimos dias e a avó tentava que ele se abrisse. Como o menino continuava calado, ela fez um compasso de espera e falou novamente como se estivesse a pensar em voz alta: "Se calhar, vou fazer doce de mancarra logo mais. Só que preciso de um ajudante... Mas se estás a sentir-te doente... fica para a próxima, não é, meu neto?" Santiago sorriu, contudo os olhos ainda de expressão melancólica, dizendo: "Não estou nada doente, avó!" "Então porque andas assim muito caladinho?", questionou Nha Maria. Santiago hesitou, suspirou e disse "Mas a avó não vai dizer a ninguém?" "Claro que não! Ninguém sabe das minhas conversas com o meu neto. Só se o Pulgas aqui falar." Santiago riu, dizendo: "Mas os cães não falam, avó!" Nha Maria, mulher vivida e conhecedora do comportamento humano, compreendeu que o neto iria finalmente partilhar com ela o que tanto o preocupava. "Avó, a mãe vai fazer anos e ... é assim ... eu quero muito oferecer-lhe algo bonito, grande e que ela nunca tenha tido... mas só tenho 200 escudos comigo. Tenho andado a juntar o meu dinheiro mas não vou conseguir nunca o que preciso para poder oferecer-lhe uma prenda linda!" E os olhos do menino brilhavam, as lágrimas contidas, os lábios tremendo.
Nha Maria não disse nada. Levantou-se, pegou na mão do neto e entraram em casa. Pulgas levantou a cabeça mas sentindo-se indolente voltou a baixá-la e a adormecer. Foram até ao quarto de Nha Maria que tirou do guarda-fato uma lata. Os olhos de Santiago sorriram e ele sussurou como se estivesse perante um grande tesouro: "Tantas cores diferentes...", quando a avó despejou o conteúdo da lata em cima da cama. Papéis coloridos e de várias qualidades, bocados de vários tipos de tecido, cordas em tons de dourado e prateado faziam um alegre contraste sobre a colcha em crochet de branco imaculado. "E que tal escolhermos as cores que mais gostares e fazermos um belo quadro à tua mãe? Será o nosso segredo. O que dizes?". "Um quadro, avó? ... Sim! E ela pode pôr na sala! Ela não tem dito que a parede por cima do sofá está muito vazia?", disse o menino, dando ares de pessoa entendida em quadros e paredes de sala, porém com o olhar de uma criança de sete anos que já sabia que iria oferecer à sua mãe "algo bonito, grande e que ela nunca tinha tido"!
- Maggs -

A composição

Naquele dia, a professora sentia-se particularmente cansada e a turma estava irrequieta. Por isso, ela mandou que os alunos fizessem uma composição onde falassem sobre eles. Eis uma delas:
"O meu nome é Santiago A.. Tenho 7 anos. Moro numa casa de cor verde com os meus pais mais a minha avó. A minha avó é a mãe do meu pai. Tenho um cão que se chama pulgas. Gosto muito do pulgas. O pulgas é pequeno, castanho e tem orelhas grandes. O pulgas gosta muito de brincar e eu gosto de brincar com ele. Mas, como diz a minha mãe, tenho de lavar sempre bem as mãos depois de brincar com o pulgas, principalmente se for comer. A minha avó faz doce de mancarra. Eu gosto muito de comer o doce de mancarra que a minha avó faz. E quando eu for grande, quero ser piloto-aviador porque quero conhecer o mundo inteiro. E é isto que eu quero dizer sobre mim."
- Maggs -
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Em Cabo Verde chamamos mancarra ao amendoim.

Tuesday, September 11, 2007

A maioridade

Não me lembro se chovia nessa tarde, mas, em casa, sentíamo-nos como se estivessemos debaixo de uma chuva miudinha e persistente.
Cruzámo-nos no corredor, as tuas mãos procuraram as minhas mãos que, muito provavelmente, deveriam estar frias.
O meu olhar ficou preso no teu olhar e ficámos assim algum tempo, que pode ter sido um instante, que pode ter sido uma eternidade.
Disseste-me: "Ganha asas e voa! Há outras auroras para veres e viveres."
Assim fiz, voei.
- Maggs -
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Amanhecer no deserto da Namíbia

Monday, September 10, 2007

Paragem de autocarro

Olhou para o relógio. Começava a arrepender-se de ter decidido esperar pelo autocarro em vez de fazer o percurso de quinze minutos a pé até ao bloco de apartamentos onde estava a viver desde que chegara à cidade. Puxou novamente a gola do casaco de encontro ao pescoço, tentando afastar o vento frio que teimava em entrar pela abertura do casaco. "Devia ter trazido um cachecol", pensou. Ainda não se adaptara à cidade e ao local de trabalho, por isso, a expressão triste e ligeiramente perdida no seu olhar. Lembrou-se da troca acesa de palavras entre dois colegas, devendo-se tudo a um mal-entendido. Como palavras inofensivas, ditas com uma entoação dura, podem ferir uma pessoa. Na sua opinião, se os colegas tivessem procurado conversar calmamente teriam chegado à mesma conclusão que ela - que tudo não passara de um mal-entendido. "Mas porque é que as pessoas não procuram comunicar-se melhor?". Nisto, baixou o olhar, com as mãos ainda agarradas à gola do casaco bem perto do pescoço, e reparou no olhar atento de uma criança, dos seus quatro anos, que, provavelmente, tentava perceber o porquê de tantas rugas de preocupação na sua testa. Forçou um sorriso mas desistiu logo. "Não tenho jeito com crianças mesmo. Ficam sempre sérias a olhar para mim. ... Ah, finalmente o autocarro!" Ela entrou e sentou-se defronte à criança e à mãe, na esperança que agora fosse diferente, que agora esta criança lhe desse, pelo menos, o vislumbre de um sorriso. A criança continuava a olhar para ela de forma insistente e, hesitante, ela tentou sorrir novamente. Um sorriso começa a bailar nos lábios da criança, aumentando para um gargalhar contagiante que a mãe lhe disse, admirada: "qual é a graça? bem que a tua mãe gostaria de dar uma gargalhada dessas!". E as rugas de preocupação desapareceram e ela sorriu descontraidamente; não chegou a gargalhar também por pura inibição. Ao ouvir essa risada tão saudável, ela interrogou-se "Até que ponto ao deixarmos de ser crianças, perdemos a confiança nos outros e os mal-entendidos começam? O olhar desta criança é tão límpido e a sua gargalhada tão cristalina... Não há lugar para mal-entendidos!". Saiu na paragem seguinte, sentindo-se bem consigo própria e o seu andar tornou-se leve, quase nem sentindo o chão sob os seus pés. Entrou na rua onde morava e à porta do prédio vê a sua vizinha. Pensou logo: "Ai se ela me vem chatear novamente..." mas o riso contagiante da criança ecoava ainda nos seus ouvidos, por isso, sem pensar, sem reflectir, disse: "Boa tarde, D. Amélia. Como tem passado? Hoje, já fez mais frio, não é?"
- Maggs -

Aprendizagem em Londres

Aprendi a amar Londres, durante as minhas ausências da cidade. Por isso, em cada regresso agora - sim, porque são regressos - há uma forte sensação que nunca cheguei a deixar a cidade. Procuro mergulhar na cidade o mais rapidamente possível para deixar de ser mais uma turista e passar a ser mais uma anónima que vive na greater London. Tenho os meus lugares preferidos, que se situam na área de South Kensington, onde estudei durante três anos e vivi um ano e tal. Quantos percursos foram feitos a pé! O objectivo era 'perder-me' naquelas ruas antigas com casas ora em tijolo vermelho ora pintadas de branco com portas negras; entrar por ruas estreitas e ver pequenas lojas, restaurantes; ouvir pessoas a falarem em diversas línguas; ir aos restaurantes italianos da minha predilecção; experimentar comida tailandesa, indiana e os famosos crepes franceses. Mas, o que mais me atrai nessa cidade que é grande e que é suja, principalmente, nos locais de maior fluxo turístico (e.g. zona de Picadilly Circus) e nas estações de metro, são as lojas de flores. Essas lojas são facilmente identificadas porque ou estão na rua mesmo, por exemplo, numa esquina, ou então as flores da loja vêm até à rua, não ficando inibidas. Aprendi a andar mais devagar ao passar por essas lojas, não só pela profusão de cores mas pelos arranjos florais únicos. Em sítio algum, eu já vi arranjos tão lindos que até parece que as flores, isoladas, não teriam brilho nenhum. Foi namorando estas lojas que aprendi a gostar tanto dos girassóis, aprendi a reconhecer o amarelo vivo no meio das outras flores. Sim, Londres é uma cidade grande e suja mas tem flores lindas como eu nunca vi. E, se o hibisco é a flor da minha infância, pelas doces lembranças que me traz à memória, o girassol é a flor da minha idade adulta.
- Maggs -
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fotografia de Lyn Millett