Wednesday, September 12, 2007

No campo de batalha...

"Que é isto? Vou cair? As pernas tremem-me?", disse de si para consigo, e caiu de costas. Reabriu os olhos na esperança de ver o resultado da luta dos franceses com o artilheiro e de saber se sim ou não este fora morto e se as peças tinham sido tomadas ou salvas. Mas nada mais viu. Por cima da sua cabeça nada mais havia além do céu, um céu muito alto, não claro, imensamente alto, onde erravam tranquilamente pequeninas nuvens cinzentas. "Que calma, que paz, que majestade!", pensava. "Não era assim aquando da nossa louca corrida, no meio dos gritos e da batalha; não era assim quando, o furor e o meto pintados no rosto, o francês e o nosso artilheiro disputavam entre si o taco da peça; então não havia, como agora, nuvens errantes neste céu profundo e infinito. Como é que eu nunca tinha visto isto, este céu sem limites? E que feliz me sinto de o ver finalmente. Sim, tudo é vaidade, tudo é mentira, à excepção deste céu sem fim. Não há nada, absolutamente nada, além dele. E até mesmo isto não existe, nada existe senão a calma e o repouso. E Deus seja louvado por isso mesmo!..."
in Guerra & Paz
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Leão Tolstoy na sua sala de trabalho - óleo sobre tela por Ilya Repin

Tuesday, September 11, 2007

Causas pessoais

Hoje, no programa Fresh Air, da National Public Radio, ouvi uma entrevista muito interessante. A apresentadora do programa, Terri Gross, entrevistou o médico psiquiatra Charles Reynolds, da Pittsburgh University Medical School, que é especialista em depressões em pessoas com mais de setenta anos.
Ele apresentou a viúvez, a reforma ou o abrandamento de uma vida activa, o aumento da dependência nos outros, entre outros motivos, como causas de depressão em idosos, tendo agora publicado um livro que pode servir de guia aos familiares no sentido de poderem reconhecer os sintomas. Segundo ele, estas pessoas não têm uma natureza depressiva, estando num processo de adaptação a uma nova realidade, por isso, se forem bem acompanhados poderão ultrapassar esta situação e conseguir uma vida com dignidade.
Ele estava a fazer o internato em psiquiatra quando o seu avô, na altura com oitenta e nove anos, suicidou-se com uma arma de fogo. Ele descreveu o avô como uma pessoa que foi sempre muito activa e que nesta fase da vida dele encontrava-se muito fragilizado fisicamente, por motivos de doença, e que entrou num quadro clínico de depressão que não foi detectado a tempo. Charles Reynolds dedica-se a esta área há vinte e cinco anos. Sim, esta é uma causa pessoal.

Ao ouvir isto, lembrei-me de outra história de causa pessoal, provavelmente já romanceada pelo tempo, mas que me fazia sentir especial sempre que entrava pela porta principal do Royal Marsden Hospital. Este hospital tem o nome de William Marsden, médico, cuja esposa faleceu com cancro. Em 1851, ele funda o Free Cancer Hospital, hoje Royal Marsden Hospital que em parceria com o Institute of Cancer Research são nomes de referência na área de Oncologia.
- Maggs -

A maioridade

Não me lembro se chovia nessa tarde, mas, em casa, sentíamo-nos como se estivessemos debaixo de uma chuva miudinha e persistente.
Cruzámo-nos no corredor, as tuas mãos procuraram as minhas mãos que, muito provavelmente, deveriam estar frias.
O meu olhar ficou preso no teu olhar e ficámos assim algum tempo, que pode ter sido um instante, que pode ter sido uma eternidade.
Disseste-me: "Ganha asas e voa! Há outras auroras para veres e viveres."
Assim fiz, voei.
- Maggs -
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Amanhecer no deserto da Namíbia

Monday, September 10, 2007

Paragem de autocarro

Olhou para o relógio. Começava a arrepender-se de ter decidido esperar pelo autocarro em vez de fazer o percurso de quinze minutos a pé até ao bloco de apartamentos onde estava a viver desde que chegara à cidade. Puxou novamente a gola do casaco de encontro ao pescoço, tentando afastar o vento frio que teimava em entrar pela abertura do casaco. "Devia ter trazido um cachecol", pensou. Ainda não se adaptara à cidade e ao local de trabalho, por isso, a expressão triste e ligeiramente perdida no seu olhar. Lembrou-se da troca acesa de palavras entre dois colegas, devendo-se tudo a um mal-entendido. Como palavras inofensivas, ditas com uma entoação dura, podem ferir uma pessoa. Na sua opinião, se os colegas tivessem procurado conversar calmamente teriam chegado à mesma conclusão que ela - que tudo não passara de um mal-entendido. "Mas porque é que as pessoas não procuram comunicar-se melhor?". Nisto, baixou o olhar, com as mãos ainda agarradas à gola do casaco bem perto do pescoço, e reparou no olhar atento de uma criança, dos seus quatro anos, que, provavelmente, tentava perceber o porquê de tantas rugas de preocupação na sua testa. Forçou um sorriso mas desistiu logo. "Não tenho jeito com crianças mesmo. Ficam sempre sérias a olhar para mim. ... Ah, finalmente o autocarro!" Ela entrou e sentou-se defronte à criança e à mãe, na esperança que agora fosse diferente, que agora esta criança lhe desse, pelo menos, o vislumbre de um sorriso. A criança continuava a olhar para ela de forma insistente e, hesitante, ela tentou sorrir novamente. Um sorriso começa a bailar nos lábios da criança, aumentando para um gargalhar contagiante que a mãe lhe disse, admirada: "qual é a graça? bem que a tua mãe gostaria de dar uma gargalhada dessas!". E as rugas de preocupação desapareceram e ela sorriu descontraidamente; não chegou a gargalhar também por pura inibição. Ao ouvir essa risada tão saudável, ela interrogou-se "Até que ponto ao deixarmos de ser crianças, perdemos a confiança nos outros e os mal-entendidos começam? O olhar desta criança é tão límpido e a sua gargalhada tão cristalina... Não há lugar para mal-entendidos!". Saiu na paragem seguinte, sentindo-se bem consigo própria e o seu andar tornou-se leve, quase nem sentindo o chão sob os seus pés. Entrou na rua onde morava e à porta do prédio vê a sua vizinha. Pensou logo: "Ai se ela me vem chatear novamente..." mas o riso contagiante da criança ecoava ainda nos seus ouvidos, por isso, sem pensar, sem reflectir, disse: "Boa tarde, D. Amélia. Como tem passado? Hoje, já fez mais frio, não é?"
- Maggs -

Aprendizagem em Londres

Aprendi a amar Londres, durante as minhas ausências da cidade. Por isso, em cada regresso agora - sim, porque são regressos - há uma forte sensação que nunca cheguei a deixar a cidade. Procuro mergulhar na cidade o mais rapidamente possível para deixar de ser mais uma turista e passar a ser mais uma anónima que vive na greater London. Tenho os meus lugares preferidos, que se situam na área de South Kensington, onde estudei durante três anos e vivi um ano e tal. Quantos percursos foram feitos a pé! O objectivo era 'perder-me' naquelas ruas antigas com casas ora em tijolo vermelho ora pintadas de branco com portas negras; entrar por ruas estreitas e ver pequenas lojas, restaurantes; ouvir pessoas a falarem em diversas línguas; ir aos restaurantes italianos da minha predilecção; experimentar comida tailandesa, indiana e os famosos crepes franceses. Mas, o que mais me atrai nessa cidade que é grande e que é suja, principalmente, nos locais de maior fluxo turístico (e.g. zona de Picadilly Circus) e nas estações de metro, são as lojas de flores. Essas lojas são facilmente identificadas porque ou estão na rua mesmo, por exemplo, numa esquina, ou então as flores da loja vêm até à rua, não ficando inibidas. Aprendi a andar mais devagar ao passar por essas lojas, não só pela profusão de cores mas pelos arranjos florais únicos. Em sítio algum, eu já vi arranjos tão lindos que até parece que as flores, isoladas, não teriam brilho nenhum. Foi namorando estas lojas que aprendi a gostar tanto dos girassóis, aprendi a reconhecer o amarelo vivo no meio das outras flores. Sim, Londres é uma cidade grande e suja mas tem flores lindas como eu nunca vi. E, se o hibisco é a flor da minha infância, pelas doces lembranças que me traz à memória, o girassol é a flor da minha idade adulta.
- Maggs -
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fotografia de Lyn Millett

Sunday, September 09, 2007

Chamamento

Fala comigo, mesmo que eu não responda.
Olha para mim, mesmo que eu feche os meus olhos.
Toca-me, mesmo que eu não esteja ao alcance das tuas mãos.

Ausentes um do outro, mas sempre no pensamento.
- Maggs -

Golpe de estado

Este golpe de estado foi diferente. Não houve derramamento de sangue e quem foi deposto, assim que percebeu que estava perante um facto consumado, recompôs-se e entregou, de forma respeitosa e abnegada, todo o seu saber, experiência e sentimentos ao novo líder.



A ideia deste blog surgiu quando estava nos preparativos da minha viagem para os Estados Unidos. Pensei que seria uma maneira interessante de descrever os 'choques culturais' que iria vivendo. Além disso, sentia que não teria a oportunidade de escrever de forma exaustiva a todos os meus amigos sobre o que iria observando aqui. E um blog presta-se a isso, principalmente porque podemos adicionar uma imagem, etc...
No entanto, parece que a ideia inicial de posts descritivos sobre o american way of living passou para segundo plano porque, inadvertidamente, abri uma porta que estava encerrada há muitos anos. Neste momento, já não mando aqui, limitando-me a ser o veículo de transmissão do que todas essas vozes têm para dizer ao fim de tantos anos de clausura.
Terei o direito de vos pedir que sejam pacientes e que dêem a este novo líder uma oportunidade?
- Maggs -

Saturday, September 08, 2007

Logo mais, temos cuscuz com mel

Estava na sala de aula há menos de dez minutos e a impaciência já o dominava por completo. Afasta ligeiramente a cadeira, os braços cruzados sobre a mesa e apoia o queixo nas mãos que repousam uma sobre a outra. Tenta prestar atenção ao que a professora diz mas o seu pensamento está electrizado e ele não consegue compreender o que ela está a falar, no seu característico tom sério e compenetrado. Volta a sentar-se direito e o olhar foge para o que se passa lá fora. As janelas grandes da sala de aula permitem-lhe ter uma panorâmica geral do jardim defronte da escola primária. A sua impaciência nada tem a ver com a possibilidade de poder estar lá fora a brincar. Receando que a professora o chamasse à atenção, prende novamente o olhar nela e percebe vagamente que ela está a falar de multiplicação e divisão. Olha para o tecto, pensando "isso já eu sei! que bem que a minha mãe me explicou isso". Estavam os dois sentados na mesa da cozinha e a mãe tinha ido buscar a lata onde coloca os vários tipo de feijão, cada tipo no seu saco individual. Tinham passado a tarde de Domingo a multiplicar os feijões e depois a dividi-los. Claro que depois ela lhe tinha explicado a maneira "certa" de fazer as contas no papel. "Não posso falar em feijões, não é?" Ela tinha-lhe dito que era para ele visualizar melhor os números, isso ele sabia. O olhar prende-se agora no relógio de parede, todo ele branco com ponteiros e números negros, por cima do enorme quadro de ardósia que ocupava praticamente toda a parede. "Ainda faltam 20 minutos! Saio da escola, passo pela casa do Zé e toca de correr até à praia Negra. O Manel anda a gabar uma bola de futebol que o pai lhe trouxe da América, que é leve e que tem umas estrelas douradas! Queria tanto poder dar uns toques nessa bola e ver se consigo fazer aqueles dribles todos..." E ele sonhava. "O pessoal depois costuma ir tomar banho de mar mas eu não vou fazer isso. Eles que me chamem de menino da mamãe. Não me chateio. Eu sei que a minha mãe não gosta. Ela fica muito preocupada, por sermos só crianças, sem nenhum adulto por perto. A minha mãe..." Ele tinha noção do enorme sacrifício que ela fazia desde que estavam só os dois, mais a avó. Tinha ouvido uma conversa entre a mãe e a avó e ela dizia "pelo menos é só um filho." Sorriu, pensando nela. "Ela nem é de brigar. Só me pede que seja sempre dedicado em tudo o que faça e que seja responsável." Dá o toque de saída e ele sai disparado da escola mas em vez de fazer o caminho que o levaria até à casa do Zé, vai directamente para a sua casa. Ao entrar pela porta da cozinha, encontra a mãe sentada à mesa, a conversar com a avó. A mãe olha para ele incrédula, dizendo: "em casa? então não te percebi aos cochichos com o Zé sobre o vosso grande jogo de futebol hoje?" Ele tira a mochila das costas, coloca-a na cadeira que está perto da porta, dá um beijo à avó e chega-se para perto da mãe. Abraça-a fortemente pelo pescoço e diz-lhe: "decidi que era melhor ficar aqui." Ainda abraçado a ela e com o rosto escondido nos cabelos dela, diz baixinho "como gosto de ti, minha mãe". A mãe, emocionada, dá-lhe uma palmada firme e carinhosa nas nádegas, afasta os seus braços, ainda pequenos e frágeis, e com um largo sorriso diz-lhe "eu sei que gostas de mim e nós - a tua avó e eu - também gostamos muito de ti. Mas tens de aproveitar a tua infância! Vai já a correr ter com o Zé! Mas, para além de teres cuidado, sabes que tens de estar de volta a tempo de tomares um bom banho e fazeres os trabalhos de casa. Para lanche, vou fazer cuscuz para comermos com o mel de cana-de-açúcar que a tua avó trouxe."
A porta da cozinha fecha-se alegremente e lá vai ele a correr ter com o Zé.
Ai os toques que ele iria dar na bola nova que o pai do Manel tinha trazido da América!
- Maggs -
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O cuscuz, em Cabo Verde, é tradicionalmente confeccionado com farinha de milho e cozido a vapor num binde. O binde é feito de barro e tem a forma de um vaso com buracos na base, que é arredondada e por onde passa o vapor de água.

Friday, September 07, 2007

Para a Sãozinha Fonseca-Fragoso

Despedida.mp3

A minha cunhada que - para mim -
é minha e de mais ninguém;
que me apazigua a alma com a sua voz melodiosa e cheia de paz;
que me olha de modo firme e decidido;
que me faz rir com a sua maneira alegre de falar;
que canta maravilhosamente ...

E a nossa amizade que começou quando ela me foi buscar a casa dos meus tios e levou-me para um passeio até Cape Cod, onde fomos ver o mar e comer um genuíno clam chowder.

Esta morna, despedida, é da autoria de Eugénio Tavares.

E a voz... essa voz, é, obviamente, da minha cunhada.

- Maggs -

A pétala

Abraçou o travesseiro e procurou uma posição mais confortável. Entreabriu os olhos, fechando-os novamente quase que de seguida. Um sorriso bailava nos seus lábios. Apertou ligeiramente o travesseiro como se fosse alguém que estivesse ali ao lado, como se ela quisesse ter a certeza que estava alguém aí ao lado. Claramente, ela conseguia sentir a sua presença, ele tinha de estar ali! Voltou a adormecer.
Ele olhava para ela com ternura e zelava para que ela dormisse serenamente. Era isso que ela sonhava, imaginava e sentia que estava mesmo a acontecer. Porém, ele começa a ficar irrequieto, evidenciando uma das características que a seduzia nele; ela que mantinha sempre uma postura rígida, principalmente quando estava com outras pessoas por puro medo de se expôr. Não fugindo à sua natureza, ele não consegue ficar deitado tranquilamente ao lado dela. Cruza as pernas, descruza-as, volta a cruzá-las. Depois, decide-se a cruzar os braços mas mesmo assim, não consegue ficar quieto por muito tempo. Apesar da sua desinquietude, há muita ternura e carinho no seu olhar. Ele deseja que ela adormeça tranquilamente. Na sua mão esquerda, uma rosa, plena no seu esplendor e ciente da sua beleza, exala um odor que só é perceptível aos apaixonados. Afaga com suavidade a face dela, percorrendo-a com as pétalas da rosa, inebriando-a e mergulhando-a mais no seu sono. As suas mãos esquerdas encontram-se e os dedos se entrelaçam e a rosa fica entre eles, orgulhosa por finalmente unir os amantes. Finalmente, ele consegue apaziguar a sua irrequietude. Ficam de mãos entrelaçadas e adormecidos.
Tudo não passou de um sonho.
Ela levanta-se e nem nota que no meio dos lençóis está uma pétala de rosa.
- Maggs -

Thursday, September 06, 2007

A separação

Tive medo...
mas não era legítimo este sentimento?
Perante mim, abria-se a imensidão do desconhecido.
Preferi ficar no cais e nossas mãos, inicialmente unidas, foram-se apartando e eu não consegui dar o salto e acompanhar-te.
Perdoa-me a falta de ousadia.
Mas eu sei que me compreendes.

Provavelmente, outros caminhos estão trilhados para mim, porém acompanhar-me-ás sempre.
- Maggs -

Monte Cara ao longe, S. Vicente, Cabo Verde
(fotografia de Maguy-Mãe)

Podemos conversar?

Se eu ficar aqui, nesta esquina, ele não há-de escapar. Tem de passar por aqui a caminho de casa. E quando ele estiver a aproximar-se, vou para o meio do passeio, assim ele não terá hipóteses de pretender que não me viu. E farei isso com tamanha arte que não lhe darei tempo para mudar de passeio. Sim, esta esquina é o melhor sítio para apanhá-lo e ... e conversarmos. Não consigo continuar assim. E o melhor é falar claramente, pedir-lhe com consideração mas sem me humilhar. Também tenho a minha dignidade! Bem, então deixa-me pensar melhor como é que vou iniciar a conversa. Digo, 'olá. tudo bem?' ou 'há quanto tempo! o que tens feito?' mas assim já estou a querer saber muito. Vou ficar pelo 'olá. tudo bem?', dito de forma descontraída. Aí vem ele! O que faço agora? Se calhar é melhor eu tentar isto noutro dia. Sim, é melhor. Não, ele já me viu. Bem, então deixa-me aproximar-me e tentar parecer que estou aqui de forma casual. Sorrio, sei que foi de forma suplicante, e pergunto-lhe de chofre: 'deixas-me ir brincar com o teu carro de lata?'.
- Maggs -


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Estes carros de lata fazem parte da minha infância em Cabo Verde. Eles são feitos a partir das latas de azeite, manteiga, etc. e os seus criadores fazem autênticas obras de arte a partir do 'nada'. Não sei se as crianças de hoje acham interessante puxar, por um cabo de metal, estes carros mas eu ainda continuo encantada com eles. Na minha próxima viagem a Cabo Verde tenho de arranjar um, trazendo um pouco da minha infância aos dias de hoje.

Wednesday, September 05, 2007

A prenda

O laço, em vermelho garrido, contrastava alegremente com o papel de embrulho em branco-alvo. A espera tinha sido longa e agora lhe parecia que lhe dava um prazer particular em contemplar um pouco mais o embrulho, em vez de o abrir rapidamente. Provavelmente, iria guardar o laço tentando não o estragar ao desembrulhar a prenda. Mas este laço não iria para a caixa dos laços e papéis de embrulho que são depois re-utilizados para outras prendas. Teria de o colocar num lugar especial, onde pudesse simplesmente deitar-lhe o olhar quando passasse por perto. De olhos bem abertos, continuava a admirar o embrulho, mantendo uma certa distância e assim poder contemplar melhor o arranjo. E como aquele tom de vermelho lhe encantava. A pessoa que estava ao lado diz-lhe "Então? Esperaste tanto tempo e agora não abres a prenda?". Esta voz quebrou o encanto mas rapidamente ele foi recuperado porque não há deleite maior que a antecipação de algo bom nas nossas vidas? ... Ainda mais que o evento em si. Tinha esperado tanto tempo por esta prenda. Esta em particular. Esta que lhe possibilitaria intentar novos vôos, novos conhecimentos, novas experiências... Olhou para o seu interlocutor e os seus olhos brilhavam, todo o corpo vibrava de alegria. Tocou suavemente nas suas mãos, apertando-as ligeiramente, beijou-lhe carinhosamente na face e disse-lhe, sorrindo:
"Abro a prenda mais tarde. Vamos até lá fora. Está um dia lindo e ainda vamos a tempo de ver o pôr-do-sol."
- Maggs -

Tuesday, September 04, 2007

Korda Kauberdi

Grupo Korda Kauberdi, à porta do cinema Éden Park, Mindelo, S. Vicente, Cabo Verde


Os mais velhos do que eu terão mais recordações do tempo do grupo de teatro Korda Kauberdi, sob a direcção do meu pai Francisco Fragoso. Melhor, terão outras recordações.
Eu tenho as minhas, bem marcadas, apesar de na altura estar na minha infância. Por terem sido vividas através do olhar de uma criança, elas tornam-se especiais porque a criança dá sempre o seu colorido, a sua interpretação muito própria e de acordo com a "experiência de vida" de uma pessoa com menos de dez anos. A mais doce e agradável é a seguinte:
Eu fazia os possíveis por adormecer, na parte de trás do nosso volkswagen carocha amarelo, durante o percurso entre o jardim-escola da Gulbenkian, na Achada de St.º António - local dos ensaios - até à nossa casa na rua do Hospital, no Plateau. Hoje, podemos apanhar trânsito (dentro da realidade de Cabo Verde) mas naqueles tempos o percurso fazia-se rapidamente. Claro que não conseguia adormecer mas o meu pai não dizia nada (ou se pensava, não o exteriorizava) e levava-me ao colo até me deitar na cama. Lembro-me de estar com a cabeça recostada no ombro dele e sorrir. Todos nós sabíamos que a Maggyzinha estava bem acordada mas todos éramos cúmplices nesta minha pequena 'partida'. Mas não é disto que a vida é feita? Destes momentos que depois duram para toda a vida. Esta recordação apareceu-me do nada e decidi perpétua-la neste post.
De certa maneira, esta é a minha homenagem ao Korda Kauberdi, no olhar de uma criança com menos de dez anos.
- Maggs -

Sunday, September 02, 2007

Rituais de celebração

Desde que aqui estou, nesta América profunda, tento observar as diferenças no quotidiano das pessoas daqui em relação ao que estou habituada. A possibilidade de observar estas diferenças in loco é que fazem valer a pena estar tão longe daquilo que estou habituada; a oportunidade de compreender, absorver e respeitar a diversidade. O que me surpreende mais são os 'rituais de celebração' dos eventos ao longo do ano. Ainda não chegámos ao grande momento do ano - o Natal - mas já consigo perceber que estes rituais tornam-se também uma forma de interacção no local de trabalho.
Na passada 6ª feira, logo pela manhã, ao entrar num dos corredores de acesso do departamento, o meu olfacto não me enganou: cheirava a pipocas! Viro à esquerda e entro no corredor principal do departamento, onde estão três dos quatro aceleradores lineares do departamento de radioterapia e vejo pequenos sacos transparentes de plástico com pipocas e no meio do branco amarelado das pipocas - na certa, eram pipocas com açúcar - cores vivas sobressaíam. Depois, consegui perceber que essas cores vivas correspondiam aos pequenos chocolates m&m's. Que estes pequenos sacos seriam depois oferecidos pelos técnicos de radioterapia aos doentes, após o tratamento, já eu sabia. Nos outros rituais de celebração que já presenciei, havia sempre algo doce para se oferecer aos doentes. Agora, a minha dúvida era: que celebração seria esta que me estava a escapar? Mas, sem ter a necessidade de perguntar, consegui deslindar o caso. Estes rituais de celebração são levados a preceito pelas pessoas, i.e. como as enfermeiras e os técnicos de radioterapia têm como fardas conjuntos de calças e camisas que podem ser de qualquer cor, motivo e feitio, nestas ocasiões, eles aparecem trajados 'a rigor'. E o evento a celebrar é o início da época do futebol americano e eles usavam camisas vermelhas e brancas com o nome 'Nebraska' ou da equipa que apoiam. Pelo S. Valentim, as técnicas de radioterapia usaram camisas cheias de corações, pela Páscoa, vi camisas com coelhos, etc etc. Mas é um facto que estas roupas são muito mais agradáveis ao olhar que o tradicional branco.
Obviamente, estes rituais de celebração são sempre acompanhados por comida e bebida "típicas" americanas. Por isso, hoje trouxe do supermercado milho e óleo vegetal e deliciei-me com as minhas pipocas salgadas, que é como eu gosto delas.
- Maggs -

À caça do 1%

Tenho andado incansavelmente à caça do 1%.
Dei por mim tão embrenhada neste pequeno rectângulo de investigação que após longas horas de olhos fixos no monitor do computador, senti que houve um EU que se dissociou de mim. Este EU olhava para mim de forma persistente, impondo a sua presença de tal forma que eu não via mais o monitor mas somente estes (meus) olhos fixos em mim.
Este EU coloca-me sempre em apuros: chama-me insistentemente para irmos ver a vida lá fora; para não descurar a minha grande causa; para não mergulhar-me de tal forma no 1% que esqueça a minha ambição de poder contribuir que pessoas com cancro nos países em desenvolvimento consigam ser tratadas ao nível dos 5-10% - correcção, que sejam tratadas!
Mas consigo convencê-lo que iremos muito em breve estar à beira-mar e sentir o mundo a vibrar e que prometo, prometo, prometo empenhar-me mais no meu compromisso de contribuir com os meus conhecimentos para a luta contra o cancro nos países em desenvolvimento.

E como todos os meus EUS querem estar à beira-mar e sentir o mundo a vibrar...
- Maggs -

Deserto

Por onde andas?... eu não sei.
Mudas de forma, de cor, de tom.
Escapas-me por entre os dedos das mãos que nem a areia quente do deserto.
Viajantes imaginários que vou encontrando nesta minha demanda dizem-me que estás bem; que a última vez que souberam de ti estavas no deserto (da minha alma); que estás como queres e como gostas de estar.
Sei que estás bem longe - lá no deserto - mas quero continuar a pensar que estamos juntos, apesar de vivermos em mundos diferentes.
- Maggs -

Deserto do Sahara - foto de © Eugene Reshetov

Tuesday, August 28, 2007

Um hibisco vermelho

Há flores que instintivamente me fazem sorrir pelas doces lembranças que me trazem à memória. Esta flor faz parte da minha infância em Cabo Verde; lembro-me delas nos pequenos jardins em frente à Escola Grande, onde fiz a instrução primária. Tirei esta fotografia no jardim botânico de Omaha. Estava à espera de ver outras flores ... por isso, quando vi estes hibiscos vermelhos e viçosos não resisti em 'tirar-lhes a alma'.
- Maggs -

Hadji Murád

""Temos um provérbio," disse Hadji Murád ao intérprete, "o cão deu carne ao burro e o burro deu feno ao cão e os dois ficaram com fome," e sorriu. "Os seus próprios costumes parecem bons a cada nação.""
Resposta do Hadji Murád, guerreiro tchetcheno, ao lhe perguntarem o que é que ele tinha achado do "baile em casa do Comandante [russo]?"
Hadji Murád tinha desertado para o lado russo, em 1851, durante a guerra russo-caucasiana. Contudo, ao saber da ameaça de morte que paira sobre a sua família, ele pondera o regresso... mesmo sabendo que Shamil, líder religioso e político dos muçulmanos na Tchetchenia, o tentaria matar. Na sua luta interna, ele relembra a seguinte fábula:
"... um falcão foi capturado e viveu entre os homens, tendo depois regressado para os da sua espécie nos montes. Ele regressou, mas usava correias com sinos; e os falcões recusaram-se a recebê-lo. "Voa de volta para onde penduram esses sinos de prata!". Disseram eles. "Nós não temos nem sinos, nem correias." O falcão não quis deixar a sua casa e permaneceu; mas os outros falcões não desejavam que ele ficasse e bicaram-no até à morte."
Hadji Murád decide regressar e tentar resgatar a sua família. É encurralado e assassinado pelas tropas russas antes de conseguir passar para as montanhas.
- Maggs -

Monday, August 27, 2007

Guerra & Paz

Leão Tolstoy, por Ivan Kramskoy


"Nada foi inventado. Apenas podemos saber que não sabemos nada. E este é o mais alto grau da sabedoria humana."
in Guerra & Paz