Tuesday, April 08, 2008
Infância
Monday, April 07, 2008
Tempo para...
Tempo para nascer e tempo para morrer.
Tempo para plantar e tempo para arrancar as plantas.
Tempo para matar e tempo para curar.
Tempo para destruir e tempo para construir.
Tempo para chorar e tempo para rir.
Tempo para gemer e tempo para bailar.
Tempo para atirar pedras e tempo para recolher pedras.
Tempo para abraçar e tempo para se separar.
Tempo para ganhar e tempo para perder.
Tempo para guardar e tempo para deitar fora.
Tempo para rasgar e tempo para coser.
Tempo para calar e tempo para falar.
Tempo para amar e tempo para odiar.
Tempo para a guerra e tempo para a paz.
Eclesiastes 3, 1-8
A minha história
Das fantasias, em particular
A minha alma a apoquentar.
Das frases fáceis
Ditas, ouvidas e sempre fúteis.
Das opções ligeiras
As frustrações recalcadas.
Viro a página e não abdico
Daquela que serei
Do mundo onde viverei.
- Maggs -
Sunday, April 06, 2008
Cântico negro
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!
José Régio (1899-1969)
Saturday, April 05, 2008
Exílio (II)
Na ida,
solta-se amarras
ganha-se asas.
Na volta,
O exílio que persevera
A estranheza que teima.
Idas e voltas...
Encontros, na falta
Desencontros, na presença.
- Maggs -
Mário de Sá Carneiro
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.
Mário de Sá Carneiro (1890-1916)
Friday, April 04, 2008
Sunday, March 30, 2008
Friday, March 28, 2008
(Álvaro de Campos)
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, tudo...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...
Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...
Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...
Fernando Pessoa (1888-1935)
Wednesday, March 26, 2008
Absurdo...
Um raciocínio absurdo...
Tuesday, March 25, 2008
Sem palavras
Tampouco das minhas expectativas.
Ou das minhas venturas.
Bem maiores, para vós, são as vossas.
Sempre, vossas palavras,
proferidas das vossas janelas!
Sem palavras, sem alardes
Aprendamos a escutar
O que não se consegue falar.
- Maggs -
Trocos...
Há dias, numa loja, a minha despesa era de €16.80 e entreguei uma nota de €20. A jovem, ao abrir a caixa registadora, começa a dizer "Não, não, não", meneando a cabeça continuamente. Acto contínuo, pensei "a nota é falsa!". Mas esse lamento era somente o prenúncio da cantiga habitual:Barcelona
Friday, March 21, 2008
Simplesmente... livre
murmurando o meu nome
Em Nada me transformando
não me embrenhando neles.
Porque insistem em prender-me?
invadindo o meu Eu
Em Nada me mantendo
não me libertando de vós.
Anseio partir para esses lugares
E, um dia, de livre vontade,
Nada serei...
Com uma vida simplesmente... livre.
- Maggs -
Monday, March 17, 2008
Viagens...
"Uma folha impressa na nossa língua, um lugar onde à noite tentamos tomar contacto com os homens, permitem-nos imitar, num gesto familiar, o homem que éramos na nossa terra e que, à distância, nos parece tão estranho. Porque o que dá valor à viagem é o medo. Ele destrói em nós uma espécie de cenário interior. ... Viajar tira-nos esse refúgio. Longe dos nossos, da nossa língua, desligados de todos os nossos apoios, privados das nossas máscaras (não se conhecem as tarifas dos eléctricos e é tudo assim), ficamos inteiramente com a nossa aparência. Mas também por sentirmos a alma doente, damos a cada ser, a cada objecto, um valor de milagre. Uma mulher que dança sem pensar, uma garrafa em cima de uma mesa, avistada através de uma cortina: cada imagem se torna um símbolo. A vida parece-nos reflectir-se completamente neles, na medida em que a nossa vida, naquele momento, neles se resume.Sunday, March 16, 2008
Dilema
desfaço,
e refaço
...
os nós de um sentir
que me tem cativa.
invento emoções
recrio sensações
...
desejando não sentir
o que me tem cativa.
- Maggs -
"Pérolas de chuva" (IV)
Jacques Brel - Les bonbons (1967)
Je viens rechercher mes bonbons
Vois-tu Germaine j'ai eu trop mal
Quand tu m'as fait cette réflexion
Au sujet de mes cheveux longs
C'est la rupture bête et brutale
Je viens rechercher mes bonbons
Maintenant je suis un autre garçon
J'habite à l'hôtel George-V
J'ai perdu l'accent bruxellois
D'ailleurs plus personne n'a cet accent-là
Sauf Brel à la télévision
Je viens rechercher mes bonbons
Quand père m'agace moi
Je lui fais zop
Je traite ma mère de névropathe
Faut dire que père est vachement bath
Alors que mère est un peu snob
Mais enfin tout ça hein c'est le conflit des générations
Je viens rechercher mes bonbons
Et tous les samedis soir que je peux
Germaine j'écoute pousser mes cheveux
Je fais "glouglou" je fais "miam miam"
Je défile criant "Paix au Vietnam"
Parce qu'enfin enfin donc j'ai mes opinions
Je viens rechercher mes bonbons
Oh mais ça c'est votre jeune frère Mademoiselle Germaine
C'est celui qu'est flamingant
Je vous ai apporté des bonbons
Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables
Surtout quand elles sont en boutons
Je vous ai apporté des bonbons.
Saturday, March 15, 2008
Renúncia
sobre grandes amores.
Trouxe-te um quadro
com amantes enlaçados.
Trouxe-te uma carta
escrita por outrém.
Despojei-me dos receios.
Desta vez, tão só,
trouxe-te a minha pessoa.
- Maggs -
"Pérolas de chuva" (III)
Jacques Brel - Les bonbons (1964)
Je vous ai apporté des bonbons
Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables
Surtout quand elles sont en boutons
Mais je vous ai apporté des bonbons
J'espère qu'on pourra se promener
Que Madame votre mère ne dira rien
On ira voir passer les trains
A huit heures moi je vous ramènerai
Quel beau dimanche allez pour la saison
Je vous ai apporté des bonbons
Si vous saviez ce que je suis fier
De vous voir pendue à mon bras
Les gens me regardent de travers
Y en a même qui rient derrière moi
Le monde est plein de polissons
Je vous ai apporté des bonbons
Oh! oui! Germaine est moins bien que vous
Oh oui! Germaine elle est moins belle
C'est vrai que Germaine a des cheveux roux
C'est vrai que Germaine elle est cruelle
Ça vous avez mille fois raison
Je vous ai apporté des bonbons
Et nous voilà sur la grande place
Sur le kiosque on joue Mozart
Mais dites-moi que c'est par hasard
Qu'il y a là votre ami Léon
Si vous voulez que je cède la place
J'avais apporté des bonbons...
Mais bonjour Mademoiselle Germain
Je vous ai apporté des bonbons
Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables
Surtout quand elles sont en boutons
Allez je vous ai apporté des bonbons
Friday, March 14, 2008
Carta de alforria
- pungente, crua -
destemida me torno
e me desnudo
e me defronto
e me reconheço.
Nesta hora escura,
- serena, doce -
apaziguada me encontro
e me basto,
e me alegro
e me revejo.
Nesta hora escura,
- cristalina, autêntica -
sem pejos, declaro que
"aprendi a dizer não
naqueles instantes que
me negaram a mão."
- Maggs -
Sunday, March 09, 2008
Tempo para o amor - primeiro tempo
- De mãos dadas -
Recriei-te noutros corpos,
nada mais que repositórios
das minhas visões sobre ti.
Percorri outras terras,
crente que saía ao meu encontro
sem saber que buscava por ti.
Agora que estamos juntos,
- de mãos dadas -
- os dedos entrelaçados -
deixa-me confessar-te
que encontrei em ti
fragmentos de mim
porque em mim estão
fragmentos de ti.
fragmentos
perdidos num dia igual a este
feito de chuva e de lágrimas
- Maggs -
Wednesday, January 09, 2008
Hábitos
chamo por ti.
Às vezes, com urgência
outras, por hábito mesmo.
Por hábito,
espero por ti.
Nesta espera,
feita de hábitos,
até me esqueço
que por ti espero.
Por hábito,
chamo por ti.
Às vezes, com saudades
outras, por hábito mesmo.
Quiçá, já não sinta a tua ausência
neste hábito de sussurar o teu nome,
numa prece,
numa carícia,
numa alegria.
Acaso, por hábito,
não chamarás tu por mim?
- Maggs -
Ousadia
Vivemos frustrações,
Hesitamos opções.
Insistimos nas emoções
- que não são as nossas.
Permanecemos nos percursos
- que não são os nossos.
Nesta nudez crua,
mergulhados,
sufocados,
vazios.
Paremos aqui!
sejamos autênticos.
sejamos impetuosos.
sejamos honestos.
- Maggs -
Sunday, January 06, 2008
Tempos
Quando é o tempo da ousadia
Porque te ocultas
Quando é o tempo de te expores
Porque questionas
Quando é o tempo da acção
Porque te negas
Quando é o tempo de te assumires
Este instante é o teu tempo!
- Maggs -
Escavação
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E minh'alma perdida não repousa!
Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...
Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
- Onde existo que não existo em mim?
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Um cemitério falso, sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...
Mário de Sá Carneiro (1890-1916)
Saturday, January 05, 2008
"Pérolas de chuva" (II)
Gérard Depardieu, em Cyrano de Bergerac
Acto II, Cena VIII (uma parte)
CYRANO, LE BRET, LES CADETS, qui se sont attablés à droite et à gauche et auxquels on sert à boire et à manger
CYRANO, saluant d'un air goguenard ceux qui sortent sans oser le saluer
Messieurs... Messieurs... Messieurs...
LE BRET, désolé, redescendant, les bras au ciel
Ah ! dans quels jolis draps...
CYRANO
Oh ! toi ! tu vas grogner !
LE BRET
Enfin, tu conviendras
Qu'assassiner toujours la chance passagère,
Devient exagéré.
CYRANO
Eh bien oui, j'exagère !
LE BRET, triomphant
Ah !
CYRANO
Mais pour le principe, et pour l'exemple aussi,
Je trouve qu'il est bon d'exagérer ainsi.
LE BRET
Si tu laissais un peu ton âme mousquetaire,
La fortune et la gloire...
CYRANO
Et que faudrait-il faire ?
Chercher un protecteur puissant, prendre un patron,
Et comme un lierre obscur qui circonvient un tronc
Et s'en fait un tuteur en lui léchant l'écorce,
Grimper par ruse au lieu de s'élever par force ?
Non, merci ! Dédier, comme tous ils le font,
Des vers aux financiers ? se changer en bouffon
Dans l'espoir vil de voir, aux lèvres d'un ministre,
Naître un sourire, enfin, qui ne soit pas sinistre ?
Non, merci ! Déjeuner, chaque jour, d'un crapaud ?
Avoir un ventre usé par la marche ? une peau
Qui plus vite, à l'endroit des genoux, devient sale ?
Exécuter des tours de souplesse dorsale ?...
Non, merci ! D'une main flatter la chèvre au cou
Cependant que, de l'autre, on arrose le chou,
Et donneur de séné par désir de rhubarbe,
Avoir son encensoir, toujours, dans quelque barbe ?
Non, merci ! Se pousser de giron en giron,
Devenir un petit grand homme dans un rond,
Et naviguer, avec des madrigaux pour rames,
Et dans ses voiles des soupirs de vieilles dames ?
Non, merci ! Chez le bon éditeur de Sercy
Faire éditer ses vers en payant ? Non, merci !
S'aller faire nommer pape par les conciles
Que dans des cabarets tiennent des imbéciles ?
Non, merci ! Travailler à se construire un nom
Sur un sonnet, au lieu d'en faire d'autres ?
Non, Merci ! Ne découvrir du talent qu'aux mazettes ?
Être terrorisé par de vagues gazettes,
Et se dire sans cesse : "Oh ! pourvu que je sois
Dans les petits papiers du Mercure François" ?...
Non, merci ! Calculer, avoir peur, être blême,
Préférer faire une visite qu'un poème,
Rédiger des placets, se faire présenter ?
Non, merci ! non, merci ! non, merci ! Mais... chanter,
Rêver, rire, passer, être seul, être libre,
Avoir l'œil qui regarde bien, la voix qui vibre,
Mettre, quand il vous plaît, son feutre de travers,
Pour un oui, pour un non, se battre, - ou faire un vers !
Travailler sans souci de gloire ou de fortune,
À tel voyage, auquel on pense, dans la lune !
N'écrire jamais rien qui de soi ne sortît,
Et modeste d'ailleurs, se dire : mon petit,
Sois satisfait des fleurs, des fruits, même des feuilles,
Si c'est dans ton jardin à toi que tu les cueilles !
Puis, s'il advient d'un peu triompher, par hasard,
Ne pas être obligé d'en rien rendre à César,
Vis-à-vis de soi-même en garder le mérite,
Bref, dédaignant d'être le lierre parasite,
Lors même qu'on n'est pas le chêne ou le tilleul,
Ne pas monter bien haut, peut-être, mais tout seul !
Edmond Rostand
"Pérolas de chuva" (I)
Jacques Brel - Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
D’un ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Monday, December 31, 2007
Ano Novo
"It's all about connections..."
O meu Honda Civic - ano de colheita: 1998No dia 1 de Dezembro, logo cedo fomos ao stand de automóveis colocar a matrícula definitiva. Saímos de lá, orgulhosos, no mínimo. Após um pequeno-almoço no café Caribou (com internet grátis, visto ainda não ter internet em casa), fomos ao supermercado e regressámos a casa. Depois do almoço, fomos ao centro comercial porque precisava de chaves de fenda para montar uma mesa. Quando saí do centro comercial e aproximei-me dele, notei que o pneu dianteiro do lado direito estava nitidamente em baixo. Bem devagarinho, regressámos a casa e telefonei ao meu amigo Said - o Said é um taxista que me "adoptou" porque ele sabe o que é "estar em terra estranha sozinho".
O Said, muito prestável, disse-me para não me preocupar que em meia-hora estaria em minha casa e que me arranjaria "pneus baratos e bons". Quando apareceu, olhou para o pneu e disse que ele estava em bom estado, apesar de estar em baixo, e que iríamos até à garagem de um amigo dele. Decidimos que iríamos no meu carro, com ele conduzindo. Só sei que enquanto eu procuro cumprir os limites de velocidade... com ele, foi coisa que não se viu. Pneu em baixo? Não foi limitação para a sua condução até à garagem.
Após inspeccionarem os pneus todos, tiraram o pneu com problemas e descobriram um prego. Enquanto mudavam o pneu, Said decidiu investigar a qualidade do motor do meu carro em segunda mão e dar-me uma aula sobre como ver quando o óleo devia ser mudado, etc etc. Após a sessão de esclarecimento, Said ao fechar o capô do carro, esqueceu-se do gancho que o prendia e ... partiu o gancho como também o capô do carro ficou com uma grande amolgadela, não se conseguindo fechar.
Nervoso e muito chateado consigo próprio, Said, de origem árabe, falou-me de um ditado da sua cultura que diz que ao nos empenharmos muito a delinear o contorno dos olhos com o lápis (khôl), corremos o risco de borrarmos a pintura. Era como ele se sentia. Tanto esforço em ajudar-me que já me estava a dar prejuízo. Mas disse-me logo: "não te preocupes que tenho outro amigo que tem uma oficina que faz arranjos aos carros!" Telefonou ao amigo mas já eram quase 16h de um Sábado e a oficina já estava fechada. Mas para não me preocupar que ele tinha outro amigo e que iríamos a casa dele. Disse-me que eram pessoas que ele também já tinha ajudado e que era muito importante ter esta rede de contactos. Lá fomos nós no meu Honda Civic até à casa do amigo. Consertaram-me o capô e ele, descontraído novamente, insistiu que deveríamos ir a um café árabe para compensar pela tarde "azarada". Lá fomos ao café Sindbad - bebi um chá de menta e Said fumou o seu narguilé.
Conheci o Said quando, no dia 21 de Outubro, pedi na recepção do hotel onde estava alojada um táxi para me levar ao aeroporto internacional de Detroit, de regresso a Omaha. Em Novembro e Dezembro, no espaço de uma semana, Said levou-me ao aeroporto três vezes e foi buscar-me uma vez. Num total de cinco viagens, para além de termos estado sempre à conversa, assisti a episódios de vida singulares que me fizeram sentir que para além de ele ser "a good connection", é um amigo neste processo de adaptação ao american way of living.
Em Outubro, ao entrar no carro, vi uma menina de cinco anos, sentada no lugar da frente. Said explicou-me que a filha estava de castigo, i.e. se ela tivesse ficado em casa, estaria a ver televisão e o castigo era não ver televisão. O Said é um conversador nato, por isso, falou-me das suas origens, que praticou futebol profissional na Europa e que vivia nos Estados Unidos há quinze anos. Ao chegarmos ao aeroporto, deu-me o seu cartão e que não hesitasse em entrar em contacto com ele, quando regressasse a Dearborn/Detroit.
Saturday, December 29, 2007
Partilha
À mesa, partilhámos
a vida, já vivida.
Os sonhos, ainda
por viver,
por partilhar.
À mesa, sonhámos
a vida, por viver,
os sorrisos, por partilhar.
À mesa, sorrimos
pela partilha sentida,
pela vida, já vivida.
- Maggs -
Perguntar ao verbo
Pacífico, meu tormento...
Malditos! Tanta fome de vencer que nem esperam mais um dia para se saciarem!
Tuesday, December 25, 2007
Guardião
Na imponência do dragão,
o reflexo dos teus receios.
Algoz, guardião,
na medida dos teus arrojos.
Para lá do pórtico,
guardião da tua essência,
- acaso oprimam a tua alma.
guardião da tua liberdade,
- porventura te enclausurem.
Guardião, nunca carrasco!
- Maggs -
Festim
O fogão, cozinhando os sabores.
O cheiro, conquistando os espaços.
O calor, aquecendo os corações.
O festim, a alegria do reencontro.
- Maggs -
Monday, December 24, 2007
Regaço
O meu peito, o teu castelo.
O meu regaço, o teu refúgio.
- confessou-me o teu olhar.
Os nossos desencontros, a nossa reunião.
Os nossos receios, a nossa audácia.
Os nossos adiamentos, a nossa ocasião.
- revelou-me o teu sorriso.
"Meu amor, estou aqui.
Há refúgio no meu regaço".
- a tua voz, no meu sonho de ontem.
- Maggs -
Tempos difíceis
Descaracterizando a natureza.
Desacreditando os ideais.
Lágrimas, deslizando,
morrendo nos lábios hirtos,
deixando um sabor amargo na boca.
Olhar baço, mãos inertes, ombros recolhidos.
Foram tempos difíceis.
Perdi-me, mas encontrei-me,
na desarrumação das emoções.
Perdi-te, ainda não te encontrei.
- Maggs -
(Omaha, 10 de Novembro de 2007)
Entardecer
não quero falar de amor.
Ao longe, observo-me.
Sentada, abraçando-me,
não podendo falar de amor.
As minhas mãos, vazias.
Os meus olhos, secos.
Em mim, a incredulidade,
não conseguindo falar de amor.
No entardecer deste amor,
quero dizer-te que quero falar de amor novamente.
- Maggs -
(Omaha, 10 de Novembro de 2007)
Recanto
daquele recanto
onde tudo é possível?
Basta acreditares em ti.
- Maggs -
(Omaha, 10 de Novembro de 2007
publicado no Jornal Artiletra, Nov.-Dez. 2007)
Monday, December 17, 2007
Vozes
vem para junto de mim.
Por este caminho,
tenta não causar distúrbios.
Não vamos desassossegar
as outras vozes
- que te desassossegam -.
Acredita no que te digo
- não no que as outras vozes te dizem -.
Não tenhas receio de voar.
- Maggs -
Sunday, November 18, 2007
Choro silencioso
Friday, November 16, 2007
À procura
não um rosto conhecido
não um sorriso cúmplice
não um olhar compreensivo
mas vestígios da solidão que em mim vivem.
Talvez, assim...
não me sinta só, com a solidão por companhia.
- Maggs -
Opções
é onde quero permanecer.
A superfície, não me bastando.
Para além do que a vista alcança,
é onde quero perscrutar.
A proximidade, não me saciando.
Em transformação permanente,
é como quero viver.
- Maggs -
Saturday, November 10, 2007
Antecipação dos rituais de celebração
Saturday, November 03, 2007
Véu
me transformo
me transcendo
mas não me estranho.
O que resta agora?
As minhas dores
- que são as minhas.
As tuas dores
- que são as tuas.
Efectivamente
apartados
desconhecidos
mas não o estranho.
O que dizer?
as nossas fragilidades
expostas ao cair do véu
as nossas incompreensões
evidentes nesta nudez crua.
Claramente
me transformei
me transcendi
liberta me sentindo.
O que fazer?
Partir, sem hesitações.
Porque hesitante tens sido tu.
- Maggs -
(Des)arranjo musical
Friday, November 02, 2007
Guerra & Paz
Sergei Bondarchuk realizou a "versão russa" de Guerra & Paz, em 1968. Em 1956, a "versão americana" tinha aparecido, sob a direcção de King Vidor. A versão russa acompanha-me sempre, tendo escrito "Valsa" com as imagens do filme a povoarem a minha imaginação.Esta obra cinematográfica tem a capacidade de colocar em tela os pensamentos de personagens fulcrais da obra, nada mais sendo do que as inquietações do próprio Leão Tolstoy.
(Re)aprendizagem do amor
o vazio por companhia
na visita da solidão.
Chegará o tempo para
a (re)aprendizagem do amor
igualmente
a aprendizagem das suas nuances
claramente
a sua natureza se revelando -
nada mais do que uma necessidade egoísta.
- Maggs -
Monday, October 29, 2007
Valsa
o som dos violinos.
No salão, dançando
Andrei e Natacha.
Na varanda, sorrindo e sonhando
Pedro Bezukov.
No jardim, valsando e rindo
é onde me encontrarão.
- Maggs -
Sunday, October 28, 2007
Dualidade
terno se tornando,
ao me veres acabrunhada.
Estendes a tua mão,
o meu queixo levantando,
os nossos olhares se encontrando.
Sorris.
Sorrio.
O espelho mostrando
alguém que (re)conheço
mas que se esconde em mim
... teimosamente.
- Maggs -
Saturday, October 27, 2007
Renascer
a água fria jorrando,
a face refrescada,
a sede saciada.
Meu amor, não sentes
que já não há amarras?
que navego por outros mares?
Meu amor, não notas
que já não estou mais por perto?
que ganhei asas e sobrevôo outros céus?
A sede voltará, decerto.
Mas não de ti.
- Maggs -
Em mudança
Ainda em Omaha... mas com o pensamento em duas cidades que começam pela letra 'D': Detroit, onde irei trabalhar e Dearborn, onde irei viver. As duas cidades, vizinhas uma da outra, estão no estado do Michigan.No meu futuro local de trabalho, há árabes (libaneses, egípcio), um judeu. Também há um russo, chineses, indiano... claro... americanos.
Welcome to Detroit
Escândalo na cantina
Sunday, October 14, 2007
Concha
Ainda a noite reinava,
e a lua brilhava,
quando bati à tua porta.
Vim para te dizer que parti.
Parti, não me quedando mais aqui.
Aqui, onde julgas que és e nada és.
Nada és, na concha perseverando.
Ora o dia surge
e o sol brilha,
e o mundo é mais que esta concha.
- Maggs -
Miragens
ecoando neste vazio.
Estas mãos, desnorteadas
tacteando um sentido para este vazio.
Estas miragens, incontáveis
apropriando-se de mim, criando este vazio.
Estas miragens, infindas
nada mais que sensações
não vividas de ilusões.
- Maggs -
Friday, October 12, 2007
O Homem e a natureza
Leão Tolstoy, em Yasnaya Polyana Thursday, October 11, 2007
Vacina contra a gripe
Ainda a decidir se o dia seria dedicado aos electrões ou aos fotões, oiço a voz de uma das auxiliares de acção médica a apregoar que hoje iria haver vacinação contra a gripe para as pessoas do departamento. Como a minha imaginação gosta de me pregar partidas, comecei a rir-me porque o tom da voz dela e a forma como ela ía passando pelas salas e corredores a repetir a mesma frase, lembrou-me a imagem dos meninos que vendem os jornais, gritando "EXTRA! EXTRA!"Harmonia...
Wednesday, October 10, 2007
Partida
pressinto que já parti.
Porventura,
parti há muito tempo
mas não me dei conta.
Hoje, o espelho
mostrou-me outra pessoa.
Foi aí que me dei conta
que já tinha partido.
Decerto,
parti há muito tempo
mas não me dei conta.
Não posso continuar aonde não estou.
Principalmente, porque tu é que nunca estiveste aqui.
- Maggs -
A caminhada
"Sou o que sonhei para mim? Sei que pedi a mim própria estar sempre em transformação - nem que fosse na minha imaginação ou através dela. Não posso parar porque há ainda tanto para ver, para experimentar, para sentir..."
Monday, October 08, 2007
Tranquilidade
encaixaram-se as peças.
Ligeiro
se tornou o caminho.
Infinito
se tornou o querer.
As incertezas, porque as há,
fortalecendo as outras certezas,
que são as convicções.
Feitas estas escolhas,
estas aqui, não outras;
hesitações não poderiam existir
ao entrar por este caminho
e não por outro.
- Maggs -
Deixar Omaha
Sunday, October 07, 2007
Amanhecer em NY
Há ainda uma outra expressão "Nunca digas desta água não beberei". Desta vez, fui beber à fonte certa e conto ir lá mais vezes saciar a sede.
Friday, October 05, 2007
A dança da vida
Naquele especial.
Único.
Rindo e brincando
com as ondas,
descalça, na areia molhada.
Rodopiando, sem fim
Flutuando, com alegria
chegando ao meu âmago
transportada por brancas nuvens.
Onde
não há hesitações,
não há contradições,
somente
um longo maravilhamento
por sentir a vida a irromper em mim.
- Maggs -
Curiosidades... (III)
Thursday, October 04, 2007
Ponte
de mansinho,
uma pedra
a seguir outra
e outra
outra...
Peço
a ti,
a mim,
a nós
não sejamos irreflectidos.
Há tempo para
admirar o que nos rodeia
amadurecer os sentimentos
apreciar a chegada do momento.
Porque vai valer a pena
quando nos encontrarmos
a meio da ponte.
- Maggs -
Curiosidades... (II)
Curiosidades... (I)
Monday, October 01, 2007
Fome de viver
"Anseio abarcar, incluir na minha vida curta, tudo o que é acessível ao homem. Anseio falar, ler, manejar um martelo numa grande fábrica, ser vigia no mar, arar. Quero andar pela avenida Nevsky [em S. Petersburgo], ou nos campos abertos, ou nos oceanos - onde quer que a minha imaginação se estenda."Avidez
insistente
aflitivo, muitas vezes.
Há uma voz
várias vozes, na verdade
em uníssono
em desacordo, muitas vezes.
Há uma vontade,
permanente,
hesitante, poucas vezes.
Há tanta comoção.
Há tanta contradição.
Há tanta determinação.
É simples:
Há sofreguidão de viver!
- Maggs -
As cores
que o céu é azul
que o mar também é azul.
Há vermelho no céu.
Há verde no mar.
Há uma infinidade de tons
nesta vida que se desenrola,
nada mais sendo do que cambiantes
do nosso estado de alma.
- Maggs -


