Tuesday, April 08, 2008

Infância

O conto "A morte de Ivan Ilitch" foi publicado em 1886, contava Leão Tolstoy 58 anos. Ivan Ilitch, casado e com dois filhos, homem de Leis e com uma carreira irrepreensível na máquina do Estado, vê-se subitamente acometido de uma maleita que rapidamente toma conta do seu corpo, conduzindo-o à morte.

Ivan, no seu monólogo interior e quase sempre acompanhado pela dor física lancilante, chega à conclusão que a sua vida tinha sido levada "... como se regularmente tivesse vindo a descer precipitadamente a encosta que julgava trepar!".
"E Ivan Ilitch rememorou os minutos mais doces da sua existência. Porém, facto estranho, eles já não lhe pareciam tão felizes como dantes. Só a infância se salvava: só ela valeria a pena ser vivida se a vida regressasse. Ao mesmo tempo, Ivan Ilitch percebia que já não era o mesmo homem, que todas as suas recordações se referiam a outro, e não a ele".
"Mal abordava o período que desembocara no seu estado actual, todas as alegrias de outrora se fundiam como neve ao sol, pareciam mesquinhas, e até desonestas..."
"E quanto mais se afastava da infância para se aproximar do presente, mais as suas satisfações lhe pareciam duvidosas, insignificantes".

Nesta obra, Tolstoy aborda de forma intensa o tema da morte, descrevendo-a cruamente, porém, para mim, mais marcante é a chegada à conclusão por Ivan que os anos da sua infância tinham sido os mais genuínos...
"Bastava-lhe recordar-se do que era três meses antes para imediatamente verificar que tinha vindo regularmente a descer a encosta e a perder toda a esperança."
"Virado para a parede, só numa grande cidade, no meio de parentes e amigos, só como nem nas profundezas submarinas se pode estar, nem em qualquer ponto do globo, Ivan Ilitch transportava-se, em imaginação, para o seu passado. As visões surgiam uma após outra. Normalmente partia da actualidade, remontava à infância e aí se detinha".

Guardo na memória, a minha infância em Cabo Verde... quiçá os melhores anos da minha vida porque foi tudo vivido sob o olhar da inocência.



_________
retrato de Leão Tolstoy (1884) - óleo sobre tela por Nikolay Gay.
"A morte de Ivan Ilitch" (tradução de Pedro Tamen) - Edições João Sá da Costa

Uma tarde de chuva


Jardim Calouste Gulbenkian - 8 de Abril de 2008

Monday, April 07, 2008

Tempo para...

Debaixo do céu há momentos para tudo, e tempo certo para cada coisa:
Tempo para nascer e tempo para morrer.
Tempo para plantar e tempo para arrancar as plantas.
Tempo para matar e tempo para curar.
Tempo para destruir e tempo para construir.
Tempo para chorar e tempo para rir.
Tempo para gemer e tempo para bailar.
Tempo para atirar pedras e tempo para recolher pedras.
Tempo para abraçar e tempo para se separar.
Tempo para ganhar e tempo para perder.
Tempo para guardar e tempo para deitar fora.
Tempo para rasgar e tempo para coser.
Tempo para calar e tempo para falar.
Tempo para amar e tempo para odiar.
Tempo para a guerra e tempo para a paz.


Eclesiastes 3, 1-8

A minha história

Abdico de tudo

Das fantasias, em particular
A minha alma a apoquentar.

Das frases fáceis
Ditas, ouvidas e sempre fúteis.

Das opções ligeiras
As frustrações recalcadas.



Viro a página e não abdico
Daquela que serei
Do mundo onde viverei.


- Maggs -

Sunday, April 06, 2008

Cântico negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cântico nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!


José Régio (1899-1969)

Saturday, April 05, 2008

Exílio (II)

A mala está pronta...
Os discos, os livros...
A gana de ir além...

Na ida,
solta-se amarras
ganha-se asas.

Na volta,
O exílio que persevera
A estranheza que teima.

Idas e voltas...
Encontros, na falta
Desencontros, na presença.


- Maggs -

Mário de Sá Carneiro

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.


Mário de Sá Carneiro (1890-1916)

Friday, April 04, 2008

Uma tarde de sol

Jardim Calouste Gulbenkian - 4 de Abril de 2008

Sunday, March 30, 2008

Entardecer

Ericeira - 29 de Março de 2008

Friday, March 28, 2008

(Álvaro de Campos)

O que há em mim é sobretudo cansaço -
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, tudo...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...

Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Com tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

Não. Cansaço porquê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta -
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como...
Sim, ou por sofrer como...
Isso mesmo, como...

Como quê?...
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.

(Ai cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)

Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!...


Fernando Pessoa (1888-1935)

Wednesday, March 26, 2008

Absurdo...

Um raciocínio absurdo...

"Tal como há dias em que, sob o rosto familiar de uma mulher, encontramos como uma estranha aquela a que amamos há meses ou há anos, vamos talvez assim desejar mesmo aquilo que de repente nos torna tão sós. ... esta espessura e esta estranheza do mundo - é o absurdo."
"Os homens também segregam algo de inumano. Em certas horas de lucidez, o aspecto mecânico dos seus gestos, a sua pantomima privada de sentido torna estúpido tudo o que os rodeia. ... Esse mal-estar ante a inumanidade do próprio homem, essa queda incalculável ante a imagem daquilo que somos, essa "náusea", como lhe chama um autor [Jean-Paul Sartre] dos nossos dias, é também o absurdo. Também o estranho, que em certos segundos vem ao nosso encontro num espelho, o irmão familiar e apesar disso inquietante que encontramos nas nossas próprias fotografias, é ainda o absurdo."


O homem absurdo...

"Se amar fosse o bastante, as coisas seriam simples de mais. Quanto mais amamos mais o absurdo se consolida. ... Porque o amor de que aqui se fala é enfeitado com as ilusões do eterno. Todos os especialistas da paixão no-lo dizem, não há amor eterno, a não ser contrariado. Não existe paixão sem luta. Tal amor só encontra fim na derradeira contradição, que é a morte. É preciso ser Werther ou nada. Ainda aí, há várias maneiras de alguém se suicidar, uma das quais é o dom total e o esquecimento de si próprio."
"... Só chamamos amor àquilo que nos liga a certos seres, em referência a um modo de ver colectivo, de que são responsáveis os livros e as lendas. Mas do amor só conheço essa mistura de desejo, de ternura e de inteligência que me liga a determinado ser. ... Não há amor generoso a não ser aquele que ao mesmo tempo se sabe passageiro e singular."

in O míto de Sísifo: ensaio sobre o absurdo - Albert Camus (1942)

Tuesday, March 25, 2008

Sem palavras

Não quero falar-vos das minhas mágoas.
Tampouco das minhas expectativas.
Ou das minhas venturas.

Bem maiores, para vós, são as vossas.


Sempre, vossas palavras,
proferidas das vossas janelas!


Sem palavras, sem alardes
Aprendamos a escutar
O que não se consegue falar.


- Maggs -

Trocos...

Há dias, numa loja, a minha despesa era de €16.80 e entreguei uma nota de €20. A jovem, ao abrir a caixa registadora, começa a dizer "Não, não, não", meneando a cabeça continuamente. Acto contínuo, pensei "a nota é falsa!". Mas esse lamento era somente o prenúncio da cantiga habitual:
"Não tem mais pequeno?"
"Não tem o dinheiro certo?"
"Não tenho trocos!"...
Não há maneira de me habituar a esta "chantagem", levando-me muitas vezes a não dirigir-me a determinadas lojas somente para evitar esta lengalenga.
Nas minhas primeiras idas à cantina do hospital, em Omaha, fui sempre alerta para a possibilidade de ter de ouvir este carpir mas não me lembro de uma única vez, em qualquer estabelecimento onde tenha pago com dinheiro, ouvir uma queixa por falta de trocos. Se tanto, um olhar surpreso se levasse uma nota "grande" mas com moedas para "facilitar o troco".
Será que o cliente tem de estar sujeito a isto? Será somente uma "falta de gestão" do dinheiro do caixa? Ou não há trocos suficientes a circular?

Barcelona

Hospital de la Santa Creu i de Sant Pau (Barcelona, Dez.-07)

Este hospital, em Barcelona, exerce um enorme fascínio sobre mim. Poderemos dizer que não será um hospital funcional para os dias de hoje, contudo, a sua arquitectura, os seus tijolos vermelhos, as suas árvores espalhadas pelo enorme pátio interior, fazem-nos esquecer que estamos, efectivamente, em ambiente hospitalar - e foi esse o objectivo dos arquitectos do hospital de la Santa Creu i de Sant Pau. Os pavilhões estão organizados por especialidade médica e cada um tem o nome de um santo, estando ligados, igualmente, por túneis subterrâneos. Aqui, a sua história, arquitectura e esculturas.

Friday, March 21, 2008

Simplesmente... livre

Ainda há tantos lugares
murmurando o meu nome
Em Nada me transformando
não me embrenhando neles.

Porque insistem em prender-me?
invadindo o meu Eu
Em Nada me mantendo
não me libertando de vós.

Anseio partir para esses lugares
E, um dia, de livre vontade,
Nada serei...
Com uma vida simplesmente... livre.


- Maggs -

Monday, March 17, 2008

Viagens...

"Uma folha impressa na nossa língua, um lugar onde à noite tentamos tomar contacto com os homens, permitem-nos imitar, num gesto familiar, o homem que éramos na nossa terra e que, à distância, nos parece tão estranho. Porque o que dá valor à viagem é o medo. Ele destrói em nós uma espécie de cenário interior. ... Viajar tira-nos esse refúgio. Longe dos nossos, da nossa língua, desligados de todos os nossos apoios, privados das nossas máscaras (não se conhecem as tarifas dos eléctricos e é tudo assim), ficamos inteiramente com a nossa aparência. Mas também por sentirmos a alma doente, damos a cada ser, a cada objecto, um valor de milagre. Uma mulher que dança sem pensar, uma garrafa em cima de uma mesa, avistada através de uma cortina: cada imagem se torna um símbolo. A vida parece-nos reflectir-se completamente neles, na medida em que a nossa vida, naquele momento, neles se resume.
... Se a linguagem daquelas terras se harmonizava com o que ressoava profundamente em mim, não era porque respondia às minhas perguntas mas porque as tornava inúteis. Não eram acções de graça que podiam subir-me aos lábios mas aquele Nada que não pôde nascer senão diante de paisagens esmagadas pelo sol. Não há amor à vida sem desespero de viver."

Amor à vida, in "O avesso e o direito" - Albert Camus (1913-1960)
ensaio escrito aquando de uma visita ao sul de Espanha, na altura com vinte e dois anos.

Sunday, March 16, 2008

Dilema

faço,
desfaço,
e refaço
...
os nós de um sentir
que me tem cativa.

invento emoções
recrio sensações
...
desejando não sentir
o que me tem cativa.


- Maggs -

"Pérolas de chuva" (IV)

Jacques Brel - Les bonbons (1967)

Je viens rechercher mes bonbons
Vois-tu Germaine j'ai eu trop mal
Quand tu m'as fait cette réflexion
Au sujet de mes cheveux longs
C'est la rupture bête et brutale
Je viens rechercher mes bonbons

Maintenant je suis un autre garçon
J'habite à l'hôtel George-V
J'ai perdu l'accent bruxellois
D'ailleurs plus personne n'a cet accent-là
Sauf Brel à la télévision
Je viens rechercher mes bonbons

Quand père m'agace moi
Je lui fais zop
Je traite ma mère de névropathe
Faut dire que père est vachement bath
Alors que mère est un peu snob
Mais enfin tout ça hein c'est le conflit des générations
Je viens rechercher mes bonbons

Et tous les samedis soir que je peux
Germaine j'écoute pousser mes cheveux
Je fais "glouglou" je fais "miam miam"
Je défile criant "Paix au Vietnam"
Parce qu'enfin enfin donc j'ai mes opinions
Je viens rechercher mes bonbons

Oh mais ça c'est votre jeune frère Mademoiselle Germaine
C'est celui qu'est flamingant
Je vous ai apporté des bonbons
Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables
Surtout quand elles sont en boutons
Je vous ai apporté des bonbons.

Saturday, March 15, 2008

Renúncia

Trouxe-te um livro
sobre grandes amores.

Trouxe-te um quadro
com amantes enlaçados.

Trouxe-te uma carta
escrita por outrém.


Despojei-me dos receios.
Desta vez, tão só,
trouxe-te a minha pessoa.



- Maggs -

"Pérolas de chuva" (III)



Jacques Brel - Les bonbons (1964)


Je vous ai apporté des bonbons
Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables
Surtout quand elles sont en boutons
Mais je vous ai apporté des bonbons

J'espère qu'on pourra se promener
Que Madame votre mère ne dira rien
On ira voir passer les trains
A huit heures moi je vous ramènerai
Quel beau dimanche allez pour la saison
Je vous ai apporté des bonbons

Si vous saviez ce que je suis fier
De vous voir pendue à mon bras
Les gens me regardent de travers
Y en a même qui rient derrière moi
Le monde est plein de polissons
Je vous ai apporté des bonbons

Oh! oui! Germaine est moins bien que vous
Oh oui! Germaine elle est moins belle
C'est vrai que Germaine a des cheveux roux
C'est vrai que Germaine elle est cruelle
Ça vous avez mille fois raison
Je vous ai apporté des bonbons

Et nous voilà sur la grande place
Sur le kiosque on joue Mozart
Mais dites-moi que c'est par hasard
Qu'il y a là votre ami Léon
Si vous voulez que je cède la place
J'avais apporté des bonbons...

Mais bonjour Mademoiselle Germain

Je vous ai apporté des bonbons
Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables
Surtout quand elles sont en boutons
Allez je vous ai apporté des bonbons

Friday, March 14, 2008

Carta de alforria

Nesta hora escura,
- pungente, crua -
destemida me torno
e me desnudo
e me defronto
e me reconheço.

Nesta hora escura,
- serena, doce -
apaziguada me encontro
e me basto,
e me alegro
e me revejo.

Nesta hora escura,
- cristalina, autêntica -
sem pejos, declaro que
"aprendi a dizer não
naqueles instantes que
me negaram a mão."


- Maggs -

Sunday, March 09, 2008

Tempo para o amor - primeiro tempo

"Três tempos", Hsiao-hsien Hou (2005) - música "Rain & tears", Aphrodite's Child

- De mãos dadas -

Recriei-te noutros corpos,
nada mais que repositórios
das minhas visões sobre ti.

Percorri outras terras,
crente que saía ao meu encontro
sem saber que buscava por ti.

Agora que estamos juntos,
- de mãos dadas -
- os dedos entrelaçados -
deixa-me confessar-te
que encontrei em ti
fragmentos de mim
porque em mim estão
fragmentos de ti.

fragmentos
perdidos num dia igual a este
feito de chuva e de lágrimas


- Maggs -

Wednesday, January 09, 2008

Hábitos

Por hábito,
chamo por ti.
Às vezes, com urgência
outras, por hábito mesmo.

Por hábito,
espero por ti.
Nesta espera,
feita de hábitos,
até me esqueço
que por ti espero.

Por hábito,
chamo por ti.
Às vezes, com saudades
outras, por hábito mesmo.

Quiçá, já não sinta a tua ausência
neste hábito de sussurar o teu nome,
numa prece,
numa carícia,
numa alegria.



Acaso, por hábito,
não chamarás tu por mim?


- Maggs -

Ousadia

Compramos ilusões,
Vivemos frustrações,
Hesitamos opções.

Insistimos nas emoções
- que não são as nossas.
Permanecemos nos percursos
- que não são os nossos.

Nesta nudez crua,
mergulhados,
sufocados,
vazios.

Paremos aqui!
sejamos autênticos.
sejamos impetuosos.
sejamos honestos.


- Maggs -

Sunday, January 06, 2008

Tempos

Porque hesitas
Quando é o tempo da ousadia

Porque te ocultas
Quando é o tempo de te expores

Porque questionas
Quando é o tempo da acção

Porque te negas
Quando é o tempo de te assumires

Este instante é o teu tempo!


- Maggs -

Escavação

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E minh'alma perdida não repousa!

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
- Onde existo que não existo em mim?

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Um cemitério falso, sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...


Mário de Sá Carneiro (1890-1916)

Saturday, January 05, 2008

"Pérolas de chuva" (II)



Gérard Depardieu, em Cyrano de Bergerac

Acto II, Cena VIII (uma parte)


CYRANO, LE BRET, LES CADETS, qui se sont attablés à droite et à gauche et auxquels on sert à boire et à manger


CYRANO, saluant d'un air goguenard ceux qui sortent sans oser le saluer
Messieurs... Messieurs... Messieurs...
LE BRET,
désolé, redescendant, les bras au ciel
Ah ! dans quels jolis draps...
CYRANO
Oh ! toi ! tu vas grogner !
LE BRET
Enfin, tu conviendras
Qu'assassiner toujours la chance passagère,
Devient exagéré.
CYRANO
Eh bien oui, j'exagère !
LE BRET, triomphant
Ah !
CYRANO
Mais pour le principe, et pour l'exemple aussi,
Je trouve qu'il est bon d'exagérer ainsi.
LE BRET
Si tu laissais un peu ton âme mousquetaire,
La fortune et la gloire...
CYRANO
Et que faudrait-il faire ?
Chercher un protecteur puissant, prendre un patron,
Et comme un lierre obscur qui circonvient un tronc
Et s'en fait un tuteur en lui léchant l'écorce,
Grimper par ruse au lieu de s'élever par force ?
Non, merci ! Dédier, comme tous ils le font,
Des vers aux financiers ? se changer en bouffon
Dans l'espoir vil de voir, aux lèvres d'un ministre,
Naître un sourire, enfin, qui ne soit pas sinistre ?
Non, merci ! Déjeuner, chaque jour, d'un crapaud ?
Avoir un ventre usé par la marche ? une peau
Qui plus vite, à l'endroit des genoux, devient sale ?
Exécuter des tours de souplesse dorsale ?...
Non, merci ! D'une main flatter la chèvre au cou
Cependant que, de l'autre, on arrose le chou,
Et donneur de séné par désir de rhubarbe,
Avoir son encensoir, toujours, dans quelque barbe ?
Non, merci ! Se pousser de giron en giron,
Devenir un petit grand homme dans un rond,
Et naviguer, avec des madrigaux pour rames,
Et dans ses voiles des soupirs de vieilles dames ?
Non, merci ! Chez le bon éditeur de Sercy
Faire éditer ses vers en payant ? Non, merci !
S'aller faire nommer pape par les conciles
Que dans des cabarets tiennent des imbéciles ?
Non, merci ! Travailler à se construire un nom
Sur un sonnet, au lieu d'en faire d'autres ?
Non, Merci ! Ne découvrir du talent qu'aux mazettes ?
Être terrorisé par de vagues gazettes,
Et se dire sans cesse : "Oh ! pourvu que je sois
Dans les petits papiers du Mercure François" ?...
Non, merci ! Calculer, avoir peur, être blême,
Préférer faire une visite qu'un poème,
Rédiger des placets, se faire présenter ?
Non, merci ! non, merci ! non, merci ! Mais... chanter,
Rêver, rire, passer, être seul, être libre,
Avoir l'œil qui regarde bien, la voix qui vibre,
Mettre, quand il vous plaît, son feutre de travers,
Pour un oui, pour un non, se battre, - ou faire un vers !
Travailler sans souci de gloire ou de fortune,
À tel voyage, auquel on pense, dans la lune !
N'écrire jamais rien qui de soi ne sortît,
Et modeste d'ailleurs, se dire : mon petit,
Sois satisfait des fleurs, des fruits, même des feuilles,
Si c'est dans ton jardin à toi que tu les cueilles !
Puis, s'il advient d'un peu triompher, par hasard,
Ne pas être obligé d'en rien rendre à César,
Vis-à-vis de soi-même en garder le mérite,
Bref, dédaignant d'être le lierre parasite,
Lors même qu'on n'est pas le chêne ou le tilleul,
Ne pas monter bien haut, peut-être, mais tout seul !

Edmond Rostand

"Pérolas de chuva" (I)



Jacques Brel - Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas

Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas

On a vu souvent
Rejaillir le feu
D’un ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas

Monday, December 31, 2007

Ano Novo

Brancas margaridas
hoje, outra cor não podia ser.

Brancas margaridas
hoje, trouxe-as na mão direita.

Brancas margaridas
hoje, especialmente hoje
tinham de ser estas e não outras.

Brancas margaridas
para receber o Ano Novo.


- Maggs -

"It's all about connections..."

O meu Honda Civic - ano de colheita: 1998

No dia 20 de Novembro de 2007, tornei-me proprietária de um Honda Civic. Nos quatro dias que andámos juntos, provavelmente, ele viveu mais emoções do que nos nove anos de convivência com o dono anterior. E algo me diz que ele se sente bem confortável e seguro na garagem, não ansiando pela minha chegada.
No dia 1 de Dezembro, logo cedo fomos ao stand de automóveis colocar a matrícula definitiva. Saímos de lá, orgulhosos, no mínimo. Após um pequeno-almoço no café Caribou (com internet grátis, visto ainda não ter internet em casa), fomos ao supermercado e regressámos a casa. Depois do almoço, fomos ao centro comercial porque precisava de chaves de fenda para montar uma mesa. Quando saí do centro comercial e aproximei-me dele, notei que o pneu dianteiro do lado direito estava nitidamente em baixo. Bem devagarinho, regressámos a casa e telefonei ao meu amigo Said - o Said é um taxista que me "adoptou" porque ele sabe o que é "estar em terra estranha sozinho".
O Said, muito prestável, disse-me para não me preocupar que em meia-hora estaria em minha casa e que me arranjaria "pneus baratos e bons". Quando apareceu, olhou para o pneu e disse que ele estava em bom estado, apesar de estar em baixo, e que iríamos até à garagem de um amigo dele. Decidimos que iríamos no meu carro, com ele conduzindo. Só sei que enquanto eu procuro cumprir os limites de velocidade... com ele, foi coisa que não se viu. Pneu em baixo? Não foi limitação para a sua condução até à garagem.
Após inspeccionarem os pneus todos, tiraram o pneu com problemas e descobriram um prego. Enquanto mudavam o pneu, Said decidiu investigar a qualidade do motor do meu carro em segunda mão e dar-me uma aula sobre como ver quando o óleo devia ser mudado, etc etc. Após a sessão de esclarecimento, Said ao fechar o capô do carro, esqueceu-se do gancho que o prendia e ... partiu o gancho como também o capô do carro ficou com uma grande amolgadela, não se conseguindo fechar.
Nervoso e muito chateado consigo próprio, Said, de origem árabe, falou-me de um ditado da sua cultura que diz que ao nos empenharmos muito a delinear o contorno dos olhos com o lápis (khôl), corremos o risco de borrarmos a pintura. Era como ele se sentia. Tanto esforço em ajudar-me que já me estava a dar prejuízo. Mas disse-me logo: "não te preocupes que tenho outro amigo que tem uma oficina que faz arranjos aos carros!" Telefonou ao amigo mas já eram quase 16h de um Sábado e a oficina já estava fechada. Mas para não me preocupar que ele tinha outro amigo e que iríamos a casa dele. Disse-me que eram pessoas que ele também já tinha ajudado e que era muito importante ter esta rede de contactos. Lá fomos nós no meu Honda Civic até à casa do amigo. Consertaram-me o capô e ele, descontraído novamente, insistiu que deveríamos ir a um café árabe para compensar pela tarde "azarada". Lá fomos ao café Sindbad - bebi um chá de menta e Said fumou o seu narguilé.
Conheci o Said quando, no dia 21 de Outubro, pedi na recepção do hotel onde estava alojada um táxi para me levar ao aeroporto internacional de Detroit, de regresso a Omaha. Em Novembro e Dezembro, no espaço de uma semana, Said levou-me ao aeroporto três vezes e foi buscar-me uma vez. Num total de cinco viagens, para além de termos estado sempre à conversa, assisti a episódios de vida singulares que me fizeram sentir que para além de ele ser "a good connection", é um amigo neste processo de adaptação ao american way of living.
Em Outubro, ao entrar no carro, vi uma menina de cinco anos, sentada no lugar da frente. Said explicou-me que a filha estava de castigo, i.e. se ela tivesse ficado em casa, estaria a ver televisão e o castigo era não ver televisão. O Said é um conversador nato, por isso, falou-me das suas origens, que praticou futebol profissional na Europa e que vivia nos Estados Unidos há quinze anos. Ao chegarmos ao aeroporto, deu-me o seu cartão e que não hesitasse em entrar em contacto com ele, quando regressasse a Dearborn/Detroit.
No dia 21 de Novembro, telefonei-lhe para me levar ao aeroporto. Nesse dia, chovia torrencialmente em Dearborn e quando o Said chegou, notei uma jovem sentada no lugar da frente. Pensei logo: "deve ser a filha mais velha. Estará de castigo?" Mas não. Ao chegar ao complexo residencial onde aluguei a casa, ele viu a jovem, de nome Djamila, a caminhar à chuva e com um garrafão na mão. O carro da Djamila tinha ficado sem gasolina e Said tinha-se disponibilizado para levá-la a um posto de gasolina que ficasse perto. A jovem agradecia-nos a amabilidade porque actualmente é cada vez mais difícil prestarmos ajuda a estranhos - sim, de facto, éramos três estranhos num Lincoln, com a chuva torrencial a separar-nos do resto do mundo.
No dia 26, o Said foi buscar-me ao aeroporto. Disse-me baixinho, mal me viu: "Tenho aqui outra cliente que pode ser um excelente contacto para ti. Fala com ela durante a viagem até Dearborn." Nesse fim de tarde, o Said tinha três clientes: um engenheiro turco a viver na Alemanha e que iria trabalhar uma semana na Ford; a Nancy, uma cliente do Said desde há três anos e que trabalha em Detroit e eu. Enquanto o Said e o engenheiro falavam sobre Dearborn e Detroit, nos lugares dianteiros, a Nancy e eu iniciámos também uma interessante conversa. Por ser da costa leste americana, indicou-me os melhores locais para comprar peixe fresco em Dearborn - e isso não é um excelente contacto?

Saturday, December 29, 2007

Partilha

Cozinha do apartamento no Museu Casa Milà, projectado por Gaudí (Barcelona, Dez.-07)


Para a Miss Curls, pelo energy boost



À mesa, partilhámos
a vida, já vivida.
Os sonhos, ainda
por viver,
por partilhar.

À mesa, sonhámos
a vida, por viver,
os sorrisos, por partilhar.

À mesa, sorrimos
pela partilha sentida,
pela vida, já vivida.


- Maggs -

Perguntar ao verbo

O professor Manso Gigante foi o meu professor de Português no 8.º e 9.º anos, no Externato Júlio César, na Pontinha. Na minha memória, a sua postura distinta e um sorriso sarcástico nos lábios. Quando ele foi meu professor, já tinha atingido uma idade que justificava o sorriso zombeteiro, quase constante, nos lábios.
No Externato, os alunos esperavam pelo professor na sala, de pé, e só se sentavam depois da indicação do professor. Por isso, lembro-me do professor Manso Gigante a entrar na sala de aulas, de fato, com um exemplar da obra em análise, o livro dos sumários e um caderno pessoal. Ficava sentado a aula inteira, com os dedos entrelaçados sobre a mesa, olhar penetrante.
Nesses dois anos, a língua portuguesa deve ter sido a disciplina mais estudada por mim porque cada aula era um autêntico exame - era exposta à turma, praticamente em todas as aulas. Aprendi a desnudar as frases, perguntando ao verbo: "o quê? a quem?" para saber os complementos directo e indirecto. Aprendi a dialogar com a gramática, a descobrir os sentidos escondidos em paragráfos, inicialmente, herméticos para mim. Igualmente, aprendi que as minhas fronteiras pessoais podiam ser renovadas todos os dias, podiam ser redesenhadas e aumentadas todos os dias - um exemplo do que deve ser um excelente pedagogo.
A expressão "desaguar à Fragoso" era proferida por ele sempre que chegava a minha vez de responder a uma pergunta que alguns alunos não tinham conseguido responder. A procura da resposta correcta era feita chamando os alunos por ordem alfabética, por isso, quando se aproximava da letra 'M', eu sentia que o meu nível de adrenalina aumentava. Por vezes, não soube a resposta e ele com um sorriso irónico tentava espicaçar-me fazendo-me sentir mal por não saber a resposta. O seu objectivo nunca foi o de humilhar-me mas sim fazer-me ultrapassar os meus próprios limites e por mim mesma.
Penso amiúde no professor Manso Gigante. O seu olhar acutilante, o seu sorriso e a sua forma de falar acompanham-me ainda hoje porque nunca duvidei que ele me estivesse a ajudar a ultrapassar os meus próprios limites. Os professores marcam-nos para a vida. Guardo excelentes recordações de muitos professores mas muito especialmente do professor Manso Gigante.

Pacífico, meu tormento...

Ao desembarcar no cais, não podia, não queria acreditar no que estava vendo.
Homens armados, com o olhar de quem sabe o que está a fazer, sem, na verdade, o saber. Mal recebem uma notificação, dizendo que precisavam defender a pátria, lá se iam orgulhosos...
Chamo-me John. Sou jornalista do jornal americano Sun e, neste momento, sou correspondente de guerra no Pacífico. Meu Deus, se os trouxesse aqui para verem no que se transformou Hong-Kong... Talvez não acreditassem!
Numa cidade sinistra, onde as barricadas impõem a sua trágica presença! Onde estão os gritos, a algazarra feliz das crianças?!
Numa palavra ou expressão, onde está a beleza que tanto apreciei há 5 anos quando vim fazer a minha primeira reportagem no Oriente?...
Hong-Kong, colónia britânica, no seio da 2ª Guerra Mundial, servindo de joguete entre potências que, por um lado querem subjugá-la e anexá-la a um grande império, o Japão, e, por outro lado, pretendem mantê-la como uma colónia importante no comércio e tráfico de especiarias do Oriente, a Inglaterra.
Aproximo-me dos correios. Talvez haja algum telegrama para mim.
Quando abro a porta e penetro no edifício, depara-se-me o encarregado dos correios, falando da Guerra que assolava o seu querido Oriente a um senhor de idade que talvez tivesse aparecido lá em busca dum abrigo para a noite que, lúgubre, se aproximava.
O relógio marca 7 horas. Mais um dia se passou. E falando num chinês fluente, inquiri:
- Há algum telegrama para mim? O meu nome é John Madigan.
- Há sim. Agora com a guerra só recebemos telegramas para os oficiais. Acaso é o senhor algum oficial disfarçado?
- Não, não sou. - Porém, como me queria livrar o mais depressa desse homem, num ápice, tirei-lhe o telegrama das mãos e fui-me embora, saindo a correr.
A rua estava quase deserta.
Daqui a pouco começaria a ronda e, por isso, precisava encontrar sem tardar, um alojamento.
Foi fácil. Hong-Kong deixou de ser visitado por turistas, mas sim por mercenários e assassinos que preferem o anonimato, dormindo em cabarés ou outro tipo de esconderijo.
O quarto era do mais miserável. Uma cama velha, uma bacia e uma ventoínha avariada, constituiam o seu recheio e mobiliário.
Sem pressa, abri o telegrama:
"Japoneses aproximam-se
Atacam 25/12/41
Boa sorte"
Amanhã é 25 de Dezembro!
Malditos! Tanta fome de vencer que nem esperam mais um dia para se saciarem!
Tive um pesadelo. Sonhei com o meu Natal do ano passado. Passei-o com os meus pais e irmãos. Brinquei muito com o meu sobrinho John. Tem 4 anos. Muito inteligente. Ele estava num deserto, sozinho, sem ninguém, mas estava a brincar com o carrinho que lhe dei, feliz. Sim, brincava com uma felicidade enorme! Mas eu intimamente queria que ele saísse dali, pois os japoneses se aproximavam. Gritei. Nenhum som saíu. Estava sufocado. Não conseguia fazer ecoar o meu gritar! E ele, indiferente, continuava entretido e entregue na sua brincadeira. Cada vez mais aumentava a minha aflição, pois os japoneses aproximavam-se assustadoramente.
De repente, o barulho das bombas a cair, a explosão.
- John, John. Por favor, responde-me. Acordei molhado de suor. E sem haver tréguas outra e outra explosão. Levantei-me, aproximei-me da janela e vi... Meu Deus! O que os meus olhos vêm! Mulheres e crianças a gritar desesperadas. Casas a arder. Animais fugindo, cujos ganidos pareciam dizer: "Vocês não têm consciência do mal que estão a provocar."
Gritei alto e chorei. Sim, chorei como não chorava desde criança. De raiva. Sem dúvida nenhuma, eu era uma criança. Talvez, por isso, não atingia o motivo pelo qual os homens lutam, matam-se e só para poderem, quiçá, no fundo dizer "Tenho poder".
Vesti-me e saí a correr como um louco. Tinha uma máquina fotográfica. Tirei fotografias das crianças abandonadas a chorar, de animais mortos com os olhos voltados para o céu, parecendo implorar a Deus como último recurso.
Hoje 25 de Dezembro de 1941, nasce Jesus e morrem crianças e animais...
Para quê? Porquê? Simplesmente não sei...
O ataque terminara. A minha vida terminara, neste instante. Prometi a mim mesmo que ao voltar para a América, escreveria o artigo da maneira como vi o ataque, sem subtilezas. Fotos mostrando o sofrimento e desespero dos que não tinham nada com a Guerra, ilustrariam a reportagem. E abandonaria a minha carreira. Podia trabalhar na loja do meu pai.
Não voltei ao hotel, não suportaria mais. Fui ao cais e comprei o bilhete para Xangai. De lá voltaria de avião, via Paris, para a América.
Senti e ouvi os japoneses a entrarem em Hong-Kong enquanto entrava no barco que me levaria a Xangai.
Sentia-me só e melancólico. Não queria acreditar que no dia de Natal os japoneses tivessem combatido. Não souberam respeitar o nascimento de Jesus. E ele viera espalhar pelo mundo a fraternidade e solidariedade humana.
São cristãos os japoneses? - perguntei-me.
Não soube responder. A minha mente estava bloqueada e eu só queria chegar ao aconchego da casa dos meus pais o mais rapidamente possível, antes do fim de ano.
Talvez conseguisse afastar do meu espírito esse insólito pesadelo e readquirir a confiança na vida. E quem sabe nos próprios homens apesar do que assisti, infelizmente...
- Margarida Fragoso, 9.º ano, Externato Júlio César, 1986 -
_______________
Quando o professor Manso Gigante pediu aos alunos do 9.º ano que escrevessem um conto de Natal para um concurso, decidi que iria escrever algo sobre a guerra e que procuraria um local que tivesse sido invadido no dia 25 de Dezembro. Porquê o jornalista americano? Bem, achei que seria pouco provável um jornalista português em Hong-Kong nessa altura.

Tuesday, December 25, 2007

Guardião

Pórtico da propriedade Guell, projectada por Gaudí (Barcelona, Dez.-07)


Na imponência do dragão,
o reflexo dos teus receios.
Algoz, guardião,
na medida dos teus arrojos.

Para lá do pórtico,
guardião da tua essência,
- acaso oprimam a tua alma.
guardião da tua liberdade,
- porventura te enclausurem.


Guardião, nunca carrasco!


- Maggs -

Festim

Cozinha do apartamento no Museu Casa Milà, projectado por Gaudí (Barcelona, Dez.-07)

O fogão, cozinhando os sabores.
O cheiro, conquistando os espaços.
O calor, aquecendo os corações.

O festim, a alegria do reencontro.


- Maggs -

Monday, December 24, 2007

Regaço

Os meus braços, as tuas muralhas.
O meu peito, o teu castelo.
O meu regaço, o teu refúgio.
- confessou-me o teu olhar.

Os nossos desencontros, a nossa reunião.
Os nossos receios, a nossa audácia.
Os nossos adiamentos, a nossa ocasião.
- revelou-me o teu sorriso.

"Meu amor, estou aqui.
Há refúgio no meu regaço".
- a tua voz, no meu sonho de ontem.


- Maggs -

Tempos difíceis

Violentando o íntimo.
Descaracterizando a natureza.
Desacreditando os ideais.

Lágrimas, deslizando,
morrendo nos lábios hirtos,
deixando um sabor amargo na boca.
Olhar baço, mãos inertes, ombros recolhidos.

Foram tempos difíceis.
Perdi-me, mas encontrei-me,
na desarrumação das emoções.

Perdi-te, ainda não te encontrei.



- Maggs -

(Omaha, 10 de Novembro de 2007)

Entardecer

No entardecer deste amor,
não quero falar de amor.

Ao longe, observo-me.
Sentada, abraçando-me,
não podendo falar de amor.

As minhas mãos, vazias.
Os meus olhos, secos.
Em mim, a incredulidade,
não conseguindo falar de amor.

No entardecer deste amor,
quero dizer-te que quero falar de amor novamente.



- Maggs -

(Omaha, 10 de Novembro de 2007)

Recanto

Já te falei
daquele recanto
onde tudo é possível?

Basta acreditares em ti.



- Maggs -

(Omaha, 10 de Novembro de 2007
publicado no Jornal Artiletra, Nov.-Dez. 2007)

Monday, December 17, 2007

Vozes

De mansinho,
vem para junto de mim.
Por este caminho,
tenta não causar distúrbios.
Não vamos desassossegar
as outras vozes
- que te desassossegam -.


Acredita no que te digo
- não no que as outras vozes te dizem -.

Não tenhas receio de voar.


- Maggs -

Sunday, November 18, 2007

Choro silencioso

- Porque choras?
As lágrimas deslizavam suavemente pela face. Não era um choro convulsivo. Na verdade, nem sentia que estivesse a chorar. As lágrimas caíam, discretamente, desaguando nos lábios, deixando-lhe com um sabor a mar na boca.
- Porque me afastas de ti?
Recostou-se no sofá, abraçando-se. Como explicar-lhe que a vida tinha-lhe ensinado a apoiar-se em si própria? Como dizer-lhe que sabia que cada pessoa era um mundo e que, provavelmente, quando verdadeiramente precisasse ouvir uma voz amiga, essa voz não surgiria. Abriu os olhos, sorriu e disse:
- Estou bem. Não estou a chorar. São lágrimas de apaziguamento.
O encanto acabou. Estava sozinha na sala. Limpou as lágrimas com as mãos e levantou-se decidida. Caminhou até à janela e ficou a observar as árvores. "O Inverno está a chegar." pensou. "Vou sentir saudades de ver estas árvores com flores, cheias de vida. Agora é o tempo do recolhimento".
O telefone tocou. Era uma voz amiga.
- Maggs -

Friday, November 16, 2007

À procura

Sôfrega, procuro na multidão,
não um rosto conhecido
não um sorriso cúmplice
não um olhar compreensivo
mas vestígios da solidão que em mim vivem.

Talvez, assim...
não me sinta só, com a solidão por companhia.


- Maggs -

Opções

Mergulhada nas profundezas,
é onde quero permanecer.
A superfície, não me bastando.

Para além do que a vista alcança,
é onde quero perscrutar.
A proximidade, não me saciando.

Em transformação permanente,
é como quero viver.


- Maggs -

Saturday, November 10, 2007

Antecipação dos rituais de celebração

Desde que aqui cheguei tento manter-me a par dos "rituais de celebração" mas torna-se difícil acompanhar o ritmo americano. Consigo depreender a vinda de um ritual de celebração através dos objectos colocados na montra de uma das lojas dos amigos do hospital, que fica mesmo ao lado do elevador que me leva ao departamento de radioterapia.
Ainda o Inverno se encontrava bem instalado e sem vontade de ceder à Primavera, a montra mostrava-me objectos alusivos à chegada da estação das flores. Em particular, uma tabuleta de cores bonitas com a seguinte frase: "A Primavera chegou!" Sempre que lia essa frase, sentia uma grande angústia e um dia vi-me tentada a entrar na loja e perguntar à menina onde é que parava a Primavera porque eu continuava a ver neve por toda a parte!
Em pleno Agosto, o oposto acontece: a montra reveste-se em tons outonais e começam a celebrar o dia das Bruxas. Antes do dia 1 de Novembro, já tinha começado a antecipação do ritual "Acção de Graças" e esta semana, o Natal instalou-se por completo no hospital. Durante dois dias, um grande corredor foi invadido por vários tipos de prendas e de objectos alusivos ao Natal. E agora sinto que está tudo descontrolado, i.e. até ao fim de ano será a loucura total em termos financeiros e ... alimentares! Em Janeiro, voltará tudo ao estado que encontrei quando cheguei: as pessoas contidas e as rádios e televisões passando sistematicamente publicidade sobre dietas milagrosas.
Esta necessidade de antecipação dos rituais de celebração, faz-me sentir que estou a perder algo que ainda não sei bem o que é, para além da sensação que não há tempo para a apreciação com qualidade de um determinado ritual. Antes de o celebrar, já estou a pensar no próximo. Faz sentido isto?
Comprei este prato na loja dos amigos do hospital. Não consegui resistir aos girassóis e pensei que seria uma agradável recordação de Omaha e uma bela prenda para o meu novo poiso em Dearborn. Entrei decidida na loja, disse à menina que queria esse prato e cheia de brio mostrei-lhe o meu cartão do hospital para ter direito a 10% de desconto. Ela, denotando algum desprezo pela minha ignorância, disse-me que era uma peça "de Outono, por isso, tem 40% de desconto". As peças de Outono apareceram pela primeira vez em Agosto... Ainda bem que não vi o prato na altura, é o que posso dizer agora!
- Maggs -

Saturday, November 03, 2007

Véu

Estranhamente
me transformo
me transcendo
mas não me estranho.

O que resta agora?
As minhas dores
- que são as minhas.
As tuas dores
- que são as tuas.

Efectivamente
apartados
desconhecidos
mas não o estranho.

O que dizer?
as nossas fragilidades
expostas ao cair do véu
as nossas incompreensões
evidentes nesta nudez crua.

Claramente
me transformei
me transcendi
liberta me sentindo.

O que fazer?
Partir, sem hesitações.
Porque hesitante tens sido tu.


- Maggs -

(Des)arranjo musical

Orquestra Sinfónica do n.º 608 de uma rua de Omaha

As janelas do meu quarto e da minha sala estão mesmo defronte desta orquestra que me proporciona momentos musicais praticamente 24h/24h. Obviamente, dou por mim à espera dos momentos de pausa musical porque não faz o meu estilo este género musical. Talvez por não apreciar este género, o instrumentista mais afoito está posicionado mesmo ao lado da janela do meu quarto. Um dia, fui investigar o "dono" deste instrumentista e descobri que pertencia ao meu vizinho do lado. Se tivesse matutado um pouco mais, nem teria valido a pena invadir o espaço da orquestra porque o meu vizinho gosta de fazer coro e presentea-me com umas gargalhadas bem agudas, em sintonia perfeita com o som difundido pela orquestra. Há cerca de dois meses, houve uma nova aquisição - o meu vizinho de cima. Esse deve pensar que os instrumentistas pertencem a uma banda militar porque as suas passadas lembram-me a marcha dos militares para além de fazer com que todo o meu apartamento entre em vibração.
Curiosidade: Os nativos daqui querem convencer-me que eu estou a morar num primeiro andar quando eu ainda acredito que estou no piso "rente ao chão", i.e. rés-do-chão. Ainda tentam ir mais longe, mostrando-me nos botões do elevador que eu trabalho no rés-do-chão em vez de ser numa cave. Continuo irredutível: moro no rés-do-chão e trabalho numa cave!
- Maggs -

Friday, November 02, 2007

Guerra & Paz

Sergei Bondarchuk realizou a "versão russa" de Guerra & Paz, em 1968. Em 1956, a "versão americana" tinha aparecido, sob a direcção de King Vidor. A versão russa acompanha-me sempre, tendo escrito "Valsa" com as imagens do filme a povoarem a minha imaginação.
Esta obra cinematográfica tem a capacidade de colocar em tela os pensamentos de personagens fulcrais da obra, nada mais sendo do que as inquietações do próprio Leão Tolstoy.
Aos catorze anos, vi as versões russa e americana na televisão portuguesa. De seguida, li a obra. Desde essa altura, já perdi a conta do número de vezes que reli Guerra & Paz. Quando vivi em Inglaterra, tive a oportunidade de comprar em VHS a versão russa. Como estes personagens estão aqui comigo tão presentes, sinto que quando estiver em Lisboa, vou ter de rever esta versão russa.
Na versão americana, Peter Fonta faz de Pedro Bezukov. Mas, Pedro é um homem corpulento que não sabe o que há-de fazer com o seu corpo, criando-lhe embaraços na corte... Tem um olhar irrequieto, igualmente dócil, que se antevê por detrás das lunetas. O realizador Sergei Bondarchuk fez o papel de Pedro, assumindo na plenitude a alma deste homem puro e cheio de dúvidas sobre o sentido da vida.
A bela Natacha que na passagem para a idade adulta fica noiva do príncipe Andrei Bolkonsky. Contudo, o noivado é rompido e Pedro vai visitá-la. Ela está desesperada porque tem a noção da dor que provocou no príncipe Andrei, considerando-se indigna de tudo e de todos.
"Não me fale assim, eu não o mereço! - exclamou Natacha, fazendo menção de retirar-se. Pedro, contudo, reteve-a.
Sabia haver ainda qualquer coisa para lhe dizer. Pronunciadas que foram porém as suas palavras, ele próprio se surpreendeu.
- Não, não, não diga isso: tem a vida toda diante de si - murmurou ele.
- Eu? Não, para mim tudo acabou - replicou ela num sentimento em que havia vergonha e humildade.
- Tudo acabou! - repetiu ele. - Se eu não fosse quem sou, se fosse o mais belo e o mais inteligente dos homens sobre a Terra, e se fosse livre, pedir-lhe-ia, neste mesmo momento, de joelhos, a sua mão e o seu amor.
Natacha, pela primeira vez de há muito tempo para cá, foi acometida de um ataque de choro, choro de reconhecimento e de emoção, abandonando a sala com um olhar de agradecimento.
Pedro saiu logo atrás dela, refugiando-se, por assim dizer, no vestíbulo, enquanto sufocava as lágrimas de felicidade que lhe haviam subido aos olhos. E, enfiando a peliça ao acaso, subiu para o trenó que o aguardava.
- Aonde vamos agora? - perguntou o cocheiro.
"Aonde vamos?", repetiu Pedro de si para consigo. "Aonde poderemos ir agora? Ao clube ou fazer visitas?" Tudo se lhe afigurava tão miserável, tão pobre, em comparação com os sentimentos de amor e doçura que o tinham invadido com aquele olhar comovido e cheio de reconhecimento, velado de lágrimas, que Natacha pousara nele.
- Para casa - gritou Pedro, que, apesar de dez graus abaixo de zero, abrira a peliça de urso e deixava dilatar de felicidade o seu largo peito." in Guerra & Paz
E como este momento ficou magistralmente registado na versão russa!
- Maggs -

(Re)aprendizagem do amor

Desaprendendo os afectos,
o vazio por companhia
na visita da solidão.

Chegará o tempo para
a (re)aprendizagem do amor
igualmente
a aprendizagem das suas nuances
claramente
a sua natureza se revelando -
nada mais do que uma necessidade egoísta.


- Maggs -

Monday, October 29, 2007

Valsa

Ao fundo,
o som dos violinos.

No salão, dançando
Andrei e Natacha.
Na varanda, sorrindo e sonhando
Pedro Bezukov.
No jardim, valsando e rindo
é onde me encontrarão.


- Maggs -

Sunday, October 28, 2007

Dualidade

Penetrante é o teu olhar,
terno se tornando,
ao me veres acabrunhada.

Estendes a tua mão,
o meu queixo levantando,
os nossos olhares se encontrando.

Sorris.
Sorrio.
O espelho mostrando
alguém que (re)conheço
mas que se esconde em mim

... teimosamente.


- Maggs -

Saturday, October 27, 2007

Renascer

As mãos, em concha,
a água fria jorrando,
a face refrescada,
a sede saciada.

Meu amor, não sentes
que já não há amarras?
que navego por outros mares?

Meu amor, não notas
que já não estou mais por perto?
que ganhei asas e sobrevôo outros céus?

A sede voltará, decerto.
Mas não de ti.


- Maggs -

Em mudança

Ainda em Omaha... mas com o pensamento em duas cidades que começam pela letra 'D': Detroit, onde irei trabalhar e Dearborn, onde irei viver. As duas cidades, vizinhas uma da outra, estão no estado do Michigan.
De Detroit, pode-se chegar ao Canadá, atravessando uma ponte e chegando à cidade de Windsor.
Em Dearborn, cidade onde está a sede mundial da empresa automóvel Ford, encontra-se uma grande comunidade de pessoas do Médio Oriente.
No meu futuro local de trabalho, há árabes (libaneses, egípcio), um judeu. Também há um russo, chineses, indiano... claro... americanos.
Vai ser muito enriquecedor viver e trabalhar num ambiente multi-cultural. Haverá tanto para aprender e apreender.

- Maggs -

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Até finais de Novembro, este blog estará em modo intermitente. A mudança é sempre um misto de descoberta e de ansiedade.

Welcome to Detroit

Deixámos Omaha numa tarde cinzenta mas o sol brilhava quando aterrámos no aeroporto internacional de Detroit. Apanhámos um pequeno autocarro para podermos ir buscar o carro alugado. O motorista, senhor dos seus sessenta anos, olhar vivo e curioso, ajudou-nos a colocar a bagagem no autocarro e partimos. Éramos só dois passageiros - o meu chefe e eu. O motorista iniciou a conversa com a pergunta que ele devia repetir vezes sem conta no dia: "De onde vêm?" A resposta do meu chefe levou a que eles falassem sobre o futebol americano e eu calada permaneci. A conversa ía animada entre os dois discutindo futebol, falando sobre as diferenças entre Omaha e Detroit quando o meu chefe esclareceu que nós não éramos de Nebraska e que eu até era de Portugal. O motorista diz em inglês: "A única frase que sei em português é" - e diz em português - "Não sei falar português." Eu fiquei surpreendida, gargalhei e dei-lhe os parabéns. O meu chefe ficou igualmente impressionado. Depois, a conversa generalizou-se pelos três e falámos sobre os descobrimentos e sobre Portugal e Espanha. Este senhor dominava a geografia e a história de uma maneira que me deixou sem palavras. Mas depois ele confessou-nos que era reformado da marinha americana. Então, não resisti e decidi fazer-lhe o teste final: "E já ouviu falar nas Ilhas de Cabo Verde?" Ficou ofendido e disse-me orgulhosamente: "Fica na costa oeste de África!", acrescentando: "E conheço um excelente músico de origem cabo-verdiana que toca jazz!" Dizemos os dois em uníssono: "Horace Silver!" Rimo-nos e o meu chefe só dizia "Extraordinário!" O motorista acrescenta: "Eu sei o nome completo dele. É Horace Ward Martin Tavares Silva." Aí eu disse-lhe que os meus conhecimentos não íam tão longe. Sempre risonho, disse: "Afinal sei duas frases em português!", dizendo em português: "Não sei falar português" e "A canção do meu pai", fazendo referência ao tema que Horace Silver compôs em homenagem ao seu pai, cabo-verdiano de origem. Expliquei-lhe que os meus pais era cabo-verdianos mas que eu tinha nascido em França. Aí ele diz alto e bom som: "Devia casar-me consigo! É muito viajada." Chegámos ao local onde o meu chefe iria buscar o carro. Ajudou-nos novamente com a bagagem. Perguntou-me o meu nome, deu-me um firme aperto de mão e disse: "Eu sou o Robert." Igualmente, cumprimentou o meu chefe e nós agradecemos-lhe o inesquecível diálogo. Ficámos tão bem dispostos, tendo em conta que deixámos uma Omaha cinzenta e de chuva miudinha.
- Maggs -
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Conhecidos meus ao saberem que iria começar a trabalhar em Detroit, descreveram-me uma imagem muito má e não recomendável da cidade, retratando-me zonas de violência provocadas por negros. Este simpático, atencioso e culto motorista é um senhor negro e como me senti feliz que a minha primeira interacção com um nativo da cidade tenha sido assim. Evidentemente, todas as cidades têm o seu lado menos bom e o seu lado encantador. O importante é evitar ideias pré-concebidas para se tirar o melhor partido do que a vida nos proporciona.

Escândalo na cantina

Pedi ao meu amigo Jeffrey uma salada do dia com camarões picantes. A perspectiva de comer camarões picantes aliciara-me. Com o papel do pedido, dirigi-me à menina da caixa, fiz o pagamento, aguardando depois que me chamassem. Algum tempo depois ouvi uma voz da cozinha dizendo: "qual é o molho?" A menina da caixa olhou para mim, sorrindo e perguntou-me: "qual é o molho?" Respondi: "Não quero molho." Ela abriu um pouco os olhos, não comentou e voltou-se para a cozinha: "Ela não quer molho." Da cozinha: "Ela não quer molho?!" A menina, sempre de sorriso nos lábios mas agora com um olhar interrogativo: "Tem a certeza?" E inumerou a lista dos molhos que eu nem me preocupei em compreender os nomes ou mesmo escolher. Sorri de volta, agradeci e disse-lhe que não queria molho. O senhor que costuma entregar as refeições, abanando sempre a cabeça, olhou para mim: "Não quer mesmo molho nenhum?" E depois disse como se tivesse tido uma ideia brilhante: "E não quer um molho sem gordura?". Aí, admito, apeteceu-me dizer-lhes: "O que eu queria mesmo era um bom azeite." Mas achei que correria o sério risco da minha salada ser confiscada e ser, delicadamente, conduzida à saída da cantina.
- Maggs -

Sunday, October 14, 2007

Concha

Ainda a noite reinava,
e a lua brilhava,
quando bati à tua porta.

Vim para te dizer que parti.
Parti, não me quedando mais aqui.
Aqui, onde julgas que és e nada és.
Nada és, na concha perseverando.

Ora o dia surge
e o sol brilha,
e o mundo é mais que esta concha.

- Maggs -

Miragens

Estas vozes, dissonantes
ecoando neste vazio.
Estas mãos, desnorteadas
tacteando um sentido para este vazio.


Estas miragens, incontáveis
apropriando-se de mim, criando este vazio.

Estas miragens, infindas
nada mais que sensações
não vividas de ilusões.


- Maggs -

Friday, October 12, 2007

O Homem e a natureza

Leão Tolstoy, em Yasnaya Polyana

No dia em que o Nobel da Paz foi para as alterações climáticas


"Centenas de milhar de seres humanos tentavam por todos os meios ao seu alcance destruir a terra em que viviam amontoados. Contudo, a despeito de se encarniçarem contra o solo - quer cobrindo-o de pedras para que nada germinasse, quer arrancando as ervas e derrubando as árvores, na ânsia de apagarem o mais pequeno sinal de vegetação, quer ainda escorraçando as aves e os outros animais e saturando a atmosfera com o fumo do carvão e do petróleo -, a Primavera nem mesmo na cidade deixava de impor os seus direitos.
Com efeito, o Sol brilhava ardentemente, a erva voltava a crescer - tanto onde fora arrancada, como por entre as pedras das ruas -, os jardins cobriam-se de espessos tapetes de verdura, os vidoeiros, os álamos e as cerejeiras enchiam-se de folhas tenras e fragrantes, as tílias floresciam, as gralhas, os pardais e os pombos construíam alegremente os seus ninhos e as abelhas e as vespas zumbiam à roda dos muros...
Tudo respirava alegria: as plantas, as aves, os insectos e as crianças. Apenas os homens continuavam a enganar-se e a atormentar-se mutuamente, pois só eles consideravam a ambição e a crueldade mais importantes e sagradas do que a divina beleza do Universo, criada por Deus com o fim de proporcionar ventura a todos os seres e predispô-los para a paz, a bondade e a ternura."

in Ressureição

Thursday, October 11, 2007

Vacina contra a gripe

Ainda a decidir se o dia seria dedicado aos electrões ou aos fotões, oiço a voz de uma das auxiliares de acção médica a apregoar que hoje iria haver vacinação contra a gripe para as pessoas do departamento. Como a minha imaginação gosta de me pregar partidas, comecei a rir-me porque o tom da voz dela e a forma como ela ía passando pelas salas e corredores a repetir a mesma frase, lembrou-me a imagem dos meninos que vendem os jornais, gritando "EXTRA! EXTRA!"
Deixei a física de parte e lá fui tomar a vacina. O local da vacinação foi no próprio departamento, na sala de reuniões. Duas enfermeiras do nosso departamento encarregaram-se disso e cadeiras foram colocadas à porta da sala, para nosso conforto, à medida que preenchíamos um questionário. Também havia rebuçados...
O questionário lá me fazia a pergunta-tabu: qual era o meu número de segurança social! Recebi tantos avisos sobre a importância de eu proteger esse número de olhares alheios e de como a saúde das minhas finanças depende da forma como o guardo que nem o sei de cor, não vá alguém raptar-me e subjugar-me à tortura! Obviamente, deixei essa linha em branco.
Lá recebi a vacina e voltei à física. Devia atacar os electrões mas ando muito embalada com os fotões... Amanhã, é um novo dia e dedicar-me-ei aos electrões.
- Maggs -

Harmonia...

""A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro. O homem nada pode possuir enquanto temer a morte. Só quem não teme a morte é senhor de tudo. Se a dor não existisse, o homem não conheceria os seus limites, não se conheceria a si mesmo. Nada mais difícil", pensava ele, continuando a sonhar, "que cada um saber reunir na sua própria alma o significado de todas as coisas. Reunir tudo? Não, não é essa a palavra. Não é possível unir toda as ideias, mas, sim, pô-las de acordo!", repetia, com uma espécie de entusiasmo interior, como se sentisse que essas palavras, e só elas, exprimiam perfeitamente o que ele queria dizer, resolvendo a questão que o atormentava. "Sim, é preciso pô-las de acordo, é tempo de harmonizar as coisas."
in Guerra & Paz
____________
Retrato do conde Leão Tolstoy - óleo sobre tela por Mikhail Nesterov.

Wednesday, October 10, 2007

Partida

Não sei...

pressinto que já parti.

Porventura,
parti há muito tempo
mas não me dei conta.

Hoje, o espelho
mostrou-me outra pessoa.
Foi aí que me dei conta
que já tinha partido.

Decerto,
parti há muito tempo
mas não me dei conta.

Não posso continuar aonde não estou.
Principalmente, porque tu é que nunca estiveste aqui.


- Maggs -

A caminhada

Para os meus pais
Para a Arega & Cª
Inspirou vagarosamente. Não havia pressa. Não agora que tinha chegado aonde queria. Expirou, no mesmo ritmo, enquanto o olhar, na mesma cadência respiratória, percorria a paisagem que se desnudava perante ela. Era a natureza que se despia ou era ela que entrava na sua intimidade?
Devagarinho, baixou-se e sentou-se no chão, sentindo-se inebriada com o cheiro da terra-mãe, prenhe de vida. Sorriu, ao notar o estado das solas das suas botas. Estavam gastas! Que longa caminhada tinha sido essa!
Olhou para as suas mãos, tentando apreender a sua vida, o seu percurso até esse momento. Por força da imaginação, essas mãos transformaram-se nas mãos de uma menina:
"Em criança, o que é que eu queria ser quando fosse grande?"
"Sou o que sonhei para mim? Sei que pedi a mim própria estar sempre em transformação - nem que fosse na minha imaginação ou através dela. Não posso parar porque há ainda tanto para ver, para experimentar, para sentir..."
As mãos tornaram-se transparentes e desapareceram porque ela agora estava no útero materno. O seu olhar permaneceu firme e inquisitivo no lugar onde as mãos de criança tinham estado momentos antes.
"E os meus pais? Porque eu iniciei a minha existência ainda antes de nascer, na imaginação deles. Sou o que eles sonharam para mim?"
"Eles ensinaram-me a voar, a continuar a caminhada quando a vontade é parar. Mostraram-me como aquietar esta sede de viver, que é eterna e intensa."
Esta caminhada ainda não tinha acabado. Na verdade, mal tinha começado.
Deitou-se de costas, as mãos - adultas e seguras - servindo de travesseiro e olhou para o céu azul e infinito. Cada olhar, um mundo diferente, uma interpretação própria.
"Será que um dia conseguirei ver a natureza tal qual ela é ou será sempre através do meu olhar, que é cheio de interpretações próprias? Enquanto sentir esta comunhão, a minha visão própria e particular da natureza não deverá estar longe da essência desta terra-mãe, tão prenhe de vida!"
Gargalhou e abriu os braços para o alto. Levantou-se decidida e disse em voz alta:
"Vamos embora! Há toda uma vida para explorar, tantas alegrias ainda para sentir e guardá-las preciosamente, dando o ânimo para ultrapassar as tristezas."
Acordou. Virou-se na cama, olhou para o relógio na mesinha de cabeceira e disse em voz alta:
"Vamos embora. Tenho esta vida para viver!"
- Maggs -

Monday, October 08, 2007

Tranquilidade

Feitas as escolhas
encaixaram-se as peças.

Ligeiro
se tornou o caminho.
Infinito
se tornou o querer.
As incertezas, porque as há,
fortalecendo as outras certezas,
que são as convicções.

Feitas estas escolhas,
estas aqui, não outras;
hesitações não poderiam existir
ao entrar por este caminho
e não por outro.


- Maggs -

Deixar Omaha

Baixa de Omaha


No dia 13 de Janeiro de 2007, cheguei a Omaha com duas malas e uma mochila às costas. No aeroporto, o meu chefe à minha espera com um papel com o meu nome e aqui descrevi o meu deslumbramento com a neve que na altura caía... Na semana passada, entreguei a minha carta de demissão e deixarei Omaha em finais de Novembro. Estou de partida para um outro estado, uma outra cidade, seguindo o meu chefe, procurando novos desafios.
Confesso que me vou embora sem ter conhecido verdadeiramente a cidade. Não o fiz, por falta de entusiasmo, de curiosidade e de algum espírito de aventura. De Omaha, conheço três supermercados, dois centros comerciais, a baixa da cidade - o meu local preferido -, o hospital onde trabalho e o sítio onde vivo.... Também conheço o jardim botânico de Omaha, onde roubei a alma a um hibisco vermelho.
Tento fazer um balanço destes praticamente dez meses que vou passar aqui e sinto que ficará a lembrança de pessoas muito afáveis. Cruzo na rua com pessoas que me são estranhas e elas sorriem, muitas vezes dizem "olá", outras chegando até a desejar "um feliz dia". Nas lojas, posso suspeitar desta simpatia, até porque vi casos extremos de sorrisos largos que me levavam a imaginar que chegada a noite, a pessoa já deitada e antes de desligar a luz do candeeiro, tirava o sorriso congelado, revelando uma expressão sem vida, para retomar no outro dia bem cedo aquela expressão de alegria encomendada. Não vou sentir saudades do facto desta cidade ser pequena - para os padrões norte-americanos - que o sistema de transportes público resume-se a autocarros que eu nunca usei. Não é uma cidade pensada para os peões ou para pessoas que, como eu, preferem usar os transportes públicos em vez de terem a sua própria viatura.
Sim, na lembrança sorrisos de pessoas afáveis tal como é o sorriso da Lynne, a senhora que trabalha na cafeteria onde todos os dias vou tomar o meu chá. Ela tem uma presença muito suave, um sorriso simpático mas de olhar distante - o que sempre me intrigou. Há cerca de um mês disse-me que era de Ohio mas que vivia em Omaha há vinte anos e que na véspera tinha visto familiares que não via desde que tinha deixado o estado de origem. Foi aí que eu compreendi o seu sorriso, o seu olhar e pensei que eu também devo ter esse olhar - o olhar de uma saudade prolongada e da expectativa de um reencontro sempre iminente.
E o Jeffrey? Também preciso falar sobre o Jeffrey. Ele trabalha na cantina onde costumo ir almoçar, registando os pedidos para o almoço. Mesmo levando a minha comida, cruzamo-nos sempre e cumprimentamo-nos. Na semana passada, fui comprar o almoço e ele olha para mim, de modo firme, dizendo: hoje, sou eu que te ofereço o almoço. Não quis aceitar mas tive de me render quando ele me mostrou senhas que precisavam ser usadas. Costuma dizer-me: tens um sorriso bonito. Mas o meu sorriso nada mais é do que o reflexo do sorriso que ele tem ao atender as pessoas. Um dia, ele contou a mim e a outra colega que tinha dois trabalhos, que estava a tirar um mestrado em psicologia e que esta profissão era o melhor sítio para ele apreender o comportamento humano, observando como as pessoas entram na cantina, o que escolhem, como falam, etc.
Há também o Robert, do centro de cálculo. O computador que eu uso para "a minha caça ao 1%" é muito temperamental, obrigando-me a ir inúmeras vezes ao centro de cálculo. O Robert é com quem me dou melhor porque está sempre lá quando apareço. Sempre tranquilo e de sorriso aberto. A senhora da recepção, se demoro algum tempo sem aparecer, diz, mal abro a porta: "Já estava a estranhar a sua ausência. Seja bem-vinda!".
Sim, levo daqui muitos sorrisos atenciosos e tranquilos. E é isso que vou colocar na minha bagagem de memórias com a etiqueta "Omaha, Nebraska, USA".
- Maggs -

Sunday, October 07, 2007

Amanhecer em NY

vista do 31º andar do Millennium UN Hotel
Oiço, frequentemente, dizer que "Deus escreve direito por linhas tortas". Também já ouvi a expressão "Quem desdenha quer comprar". Depois de um fim de semana em NY, começo a acreditar que o meu "exílio" em Omaha deve-se ao facto de um dia ter desdenhado a cidade que nunca dorme.
Passei cerca de cinco horas de uma noite do mês de Abril de 2003 na Little Italy, com um grupo de colegas. Estávamos num workshop em Filadélfia e decidimos ir jantar a NY. Provavelmente, por estar saturada de metrópoles, onde muitas vezes se torna impossível ouvirmo-nos a pensar, odiei a experiência. Odiei aquele alcatrão, o cimento, as ruas sujas, a multidão.
O que dizer deste fim de semana em NY? Qual pessoa que esteve desterrada num lugar inóspito, senti uma alegria imensa com aquele rebuliço e nem a agressidade da condução automóvel me irritou. Que prazer caminhar por ruas cheias de pessoas - cheias de histórias pessoais -. Ouvir excelente música numa estação de metro ou no Central Park - simplesmente, parando, saboreando a música e depois continuar a explorar a cidade. Ir ouvir jazz no Blue Note e simplesmente sentir-me sedenta de novos sons. A artista dessa noite, Rachelle Ferrell, foi estrondosa e a sua risada contagiante - desculpando-se com o jetlag porque a banda tinha chegado de Tóquio - foi inesquecível.
Mas, para mim, o amanhecer em NY é que vai perdurar por muito, muito tempo na minha memória. Tive a sorte e o privilégio de ficar num 31º andar do Millennium UN Hotel, defronte ao edifício das Nações Unidas, permitindo uma vista fantástica da cidade. Quando cheguei ao quarto, na primeira noite, já estava escuro. Ao abrir a porta do quarto, fui por um longo corredor até chegar ao quarto propriamente dito e que visão... janelas enormes, mostravam-me as luzes da cidade. Não tive a coragem de baixar as persianas. O meu quarto estava virado para leste, por isso, era sempre acordada pelos primeiros raios de sol. Ainda sonolenta, levantava-me e ficava à janela um bocado e depois voltava à cama e dormia por mais um bocado, apesar do sol me bater de frente no rosto - mas era isso mesmo que eu queria. Não é o girassol a minha flor favorita?

Há ainda uma outra expressão "Nunca digas desta água não beberei". Desta vez, fui beber à fonte certa e conto ir lá mais vezes saciar a sede.

Friday, October 05, 2007

A dança da vida

Peguei naquele vestido.
Naquele especial.
Único.

Rindo e brincando
com as ondas,
descalça, na areia molhada.

Rodopiando, sem fim
Flutuando, com alegria
chegando ao meu âmago
transportada por brancas nuvens.

Onde
não há hesitações,
não há contradições,
somente
um longo maravilhamento
por sentir a vida a irromper em mim.


- Maggs -

Curiosidades... (III)

Estou a pensar seriamente em montar uma empresa que faça cartões de visita.
Onde costumo ir almoçar, o espaço está dividido em duas partes: uma para os "pobres" que ou levam comida de casa ou vão ao bar e outra para os "ricos" que ficam à parte e que têm direito a empregado de mesa, toalha e guardanapo de pano. Mas, os "ricos" comem o mesmo que os "pobres" que frequentam o bar. A comida é a mesma, contudo em vez de serem servidos em pratos e talheres de plástico, eles podem degustar o almoço com pratos e talheres à séria.
Hoje, ao almoço, observei um grupo de seis homens à porta da secção dos "ricos", à espera de serem conduzidos a uma mesa. Eles abriram as suas caixas de cartões de visita e começaram a trocar entre eles os cartões, tal como as crianças fazem quando estão a trocar cromos. Ou seja, antes de "quebrarem o gelo" com aquela conversa de circunstância, começaram logo a trocar os cartões não fosse o negócio correr mal e depois não se proporcionar o ambiente para a tal troca de cromos.
Bem... confesso que na semana passada, encomendei os meus cartões de visita. Mas os meus têm conchas do mar e ... se quero ir adiante com a ideia da empresa, decididamente, necessitarei de cartões de visita. E os meus têm conchas do mar!
- Maggs -

Thursday, October 04, 2007

Ponte

Devagarinho,
de mansinho,
uma pedra
a seguir outra
e outra
outra...

Peço
a ti,
a mim,
a nós
não sejamos irreflectidos.

Há tempo para
admirar o que nos rodeia
amadurecer os sentimentos
apreciar a chegada do momento.

Porque vai valer a pena
quando nos encontrarmos
a meio da ponte.


- Maggs -

Curiosidades... (II)

O telemóvel é praticamente um bem de primeira necessidade aqui. E observo com espanto que o uso do telemóvel sem recurso ao modo altifalante ou algo parecido durante a condução é prática corrente. Não me parecem preocupados nem com a possibilidade de um acidente por distracção nem com a conta telefónica.
Estando "mal habituada" aos padrões europeus (e penso que não seja só na Europa) onde só pago pelas chamadas que efectuo e pelas mensagens escritas que envio, não considerando o roaming, ando "nervosa" com a utilização do meu telemóvel aqui. Aqui, paga-se pela chamada que se faz, pela chamada que se recebe, pela mensagem que se envia e pela mensagem que se recebe. Por isso, só atendo as chamadas das pessoas que consigo identificar mas fico frustrada por receber mensagens de pessoas que não conheço e pagar por uma informação que não me diz respeito, tal como uma que recebi de um homem a dizer à namorada/mulher que se tinha demitido mas que o seguro de saúde para a criança estava assegurado. Isto num país onde sem um seguro de saúde está-se em apuros, acredito que seja uma excelente notícia mas... dispensava pagar por esta informação.
- Maggs -

Curiosidades... (I)

Ao habitual aviso de "proibido fumar" à entrada dos edifícios, pelo menos aqui em Omaha junta-se um outro... o desenho de uma arma de fogo e o símbolo de proibido por cima...
Para mim, o mais caricato foi ver esse aviso de proibição de porte de arma de fogo à entrada do parque de estacionamento de uma grande empresa de produtos alimentares, na baixa da cidade. Lembrei-me logo dos filmes de cowboys onde eles eram obrigados a deixar as armas antes de entrarem no saloon. Consigo até imaginar uma pessoa a deixar a arma à porta do parque a um marshal imaginário...
- Maggs -

Monday, October 01, 2007

Fome de viver

"Anseio abarcar, incluir na minha vida curta, tudo o que é acessível ao homem. Anseio falar, ler, manejar um martelo numa grande fábrica, ser vigia no mar, arar. Quero andar pela avenida Nevsky [em S. Petersburgo], ou nos campos abertos, ou nos oceanos - onde quer que a minha imaginação se estenda."

Anton Tchekov
Anton Tchekov e Leão Tolstoy, em Ialta, Crimeia

Avidez

Há um pulsar
insistente
aflitivo, muitas vezes.

Há uma voz
várias vozes, na verdade
em uníssono
em desacordo, muitas vezes.

Há uma vontade,
permanente,
hesitante, poucas vezes.

Há tanta comoção.
Há tanta contradição.
Há tanta determinação.

É simples:
Há sofreguidão de viver!

- Maggs -

As cores

Sussuram por aí
que o céu é azul
que o mar também é azul.

Há vermelho no céu.
Há verde no mar.
Há uma infinidade de tons
nesta vida que se desenrola,
nada mais sendo do que cambiantes
do nosso estado de alma.

- Maggs -