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Thursday, March 12, 2009

Os amantes

Para os amantes, o sol sumia vagarosamente no horizonte e o mar inflamava-se e fundia-se nos tons de vermelho e laranja do céu. A brisa trazia consigo o cheiro forte a maresia e Lígia, fechando os olhos, inspirava sofregamente e apertava com firmeza a mão de César. O rosto, luminoso, deixava transparecer a sua alegria interior por sentir novamente o cheiro característico do mar, transportando-a para a sua infância passada à beira-mar. Sem querer quebrar a ligação com o seu passado, Lígia, ainda de olhos fechados, aproximou a mão de César dos seus lábios e beijou-a ternamente. Com o pensamento perdido nas tonalidades do céu e do mar, César sorriu ao sentir a suavidade do toque dos lábios de Lígia.
Pausaram a caminhada pela Marginal e César repousou o olhar em Lígia, que permanecia mergulhada nos cheiros da sua meninice. Maravilhado, César continuou a olhar para ela, tentando absorver a energia que irradiava dela. Queria entranhar-se nela e conseguir encontrar essa sua avidez inesgotável pela vida. Sim, era por isso que estava tão preso a ela. A fome de viver de Lígia ia despertando aos poucos a sua alma adormecida pela sucessão dos dias sempre iguais. Sim, queria poder fundir-se nela e assim sentir-se vivo novamente!
Lígia abriu os olhos e repousou o olhar no de César que a fitava tão intensamente. Ela deixou que ele invadisse a sua intimidade com aquele olhar tão penetrante. Deu-lhe a liberdade para ele procurar o que tanto precisava e que depois se apoderasse disso sem pedir licença, pois ela era dele. Desde sempre. Esse olhar fazia com que ela se sentisse tão desprotegida, mas, igualmente, tão completa porque eram nesses momentos que os dois se fundiam, completando o outro, saciando a inquietude do outro. César sentia-se agora inclinado a concordar com Lígia quando ela lhe dizia que deixassem que os seus olhares dissessem aos seus corações o que eles nem mesmo sonhavam, o que eles nunca iriam conseguir dizer por palavras. Sim, ela tinha razão.
- Porque sinto que te vou perder, Lígia?
- Porque vais ter de me perder para me encontrares novamente. Mas estarei sempre perto de ti, mesmo quando estiveres longe de mim.
- Serei eu a deixar-te, é isso?
- Não, meu amor. Há-de chegar o dia que sentirei que terei de te deixar para poderes sentir a minha falta. Nesse dia, deixar-te-ei somente um bilhete.
- Mesmo quando estou perto de ti, sinto a tua falta. Sinto a falta daquilo que ainda me vais dar.
- Ainda não sentes a minha falta... Quando finalmente sentires isso, tudo fará sentido para ti.
- Porque falas sempre por enigmas, Lígia?
- Porque sinto que te vou perder, César?
- Porque vais ter de me perder para me encontrares novamente. Mas estarei sempre perto de ti, mesmo quando estiveres longe de mim.
Lígia sorriu e aninhou-se no peito de César. Anoiteceu.

Sunday, March 08, 2009

Como foi

No sussuro da tua voz
como uma carícia, explorando as linhas do meu corpo.
Nas palavras suspensas por silêncios densos
onde tudo é sentido e nada é falado.
Fizeste-me tua.


-

Sunday, February 08, 2009

Folhas

Defronte de seus olhos, o chão do parque assemelhava-se a um longo tapete feito em vários tons de amarelo pois encontrava-se coberto pelas folhas que tinham caído das árvores, tornando-as desnudas e desprotegidas para o Inverno que se aproximava inexoravelmente. Como lhe agradava o som provocado pelo pisar das botas sobre as folhas!
Ajeitou o gorro, aconchegou o cachecol ao pescoço, afundou as mãos nos bolsos do casaco e estugou o passo. Precisava atravessar o parque rapidamente para apanhar o comboio. Já estava atrasada e não havia tempo para namorar o parque e entrar num monólogo sobre o sentido da vida.
O comboio estava repleto. Desistiu de entrar nesse, como no seguinte e no seguinte também, apesar de já haver carruagens com lugares vagos. Desistiu simplesmente de apanhar o comboio até ao seu destino. Com a mesma intensidade que sentira a necessidade de estugar o passo para apanhar o comboio e não se atrasar para o seu compromisso, decidira que não valia mais a pena. "É tudo tão relativo. O que hoje é tão premente, amanhã é nada!"
Deu as costas à plataforma de embarque, saiu da estação de comboios e foi pisar as folhas caídas no parque.

História de amor

- Estou atrasado, não é verdade? Perdoa-me! Não tenho desculpas para este atraso! Na verdade, sinto-me um pouco perdido, sabes? Ando sempre a correr de um lado para o outro e a tomar decisões sobre o acontecimento que sinto que a minha vida está a acontecer a cada momento sem que eu consiga ter uma voz activa. Ando frustrado e sinto-me perdido... Por falar em perdido, ouviste hoje a história daquele homem que esteve perdido na floresta durante imensos anos? Mas isso não é relevante agora. Sim, sei que estou muito atrasado! ... Penso se o homem não esteve escondido este tempo todo na floresta. Provavelmente, teve anos de vida muito tranquilos. Tinha tempo para pensar no que iria fazer durante o dia. E eu que me sinto perdido porque não consigo parar para reflectir... Como estás? Eu sei que não estás zangada comigo... Mas sei que estou tão atrasado que nem sei mais o que dizer...
- Sim, eu aceito ser tua mulher.
- É por isso que te amo! Porque consegues ouvir aquilo que eu não consigo dizer.

Thursday, February 05, 2009

Pertença

Era tua, somente tua
sem o saber.

Chamava por ti, só por ti
sem o saber.

Esperava por ti, só por ti
sem o saber.

Oh solidão!
Por não ser tua,
Por não ter resposta
A esta espera.

Os meus chamamentos
que se perdiam
mas que encontraram os teus
E agora tudo faz sentido.

A ponte

Nunca mais visitei a ponte.


Eu falava sobre o nosso amor,
- as emoções à solta -
Tu escutavas,
- rendido, seduzido -

Agora, inibida me encontro.
As palavras envergonhadas.
As emoções recatadas.

O amor órfão se encontra.
O silêncio domina.
O vazio por companhia.


Nunca mais vieste à ponte...

A ponte que me ligava a ti.

Friday, January 02, 2009

Um bilhete

Por fim, as palavras irromperam e uma história foi revelada.


Já te amava ainda antes de te conhecer.
Todas as noites, os meus últimos pensamentos eram para ti.
Chamava por ti, incessantemente, numa prece silenciosa.

Tu...
que eras um desconhecido somente porque os meus olhos ainda nao tinham repousado sobre os teus.
(as minhas mãos ainda nao tinham percorrido as linhas do teu rosto)

Sim...
tu que andavas perdido de mim.
(e eu de ti)

Sentia-te cada vez mais perto.

Quando, finalmente, os nossos olhares se encontraram,
soubemos que não estávamos mais perdidos,
soubemos que começávamos a continuação de uma história.

As mãos dadas, os dedos entrelaçados...


Maggs


ps. resolução de ano novo: juntar "um bilhete" e "de mãos dadas". Sabemos que há uma história que precisa ser contada...

Sunday, March 09, 2008

Tempo para o amor - primeiro tempo

"Três tempos", Hsiao-hsien Hou (2005) - música "Rain & tears", Aphrodite's Child

- De mãos dadas -

Recriei-te noutros corpos,
nada mais que repositórios
das minhas visões sobre ti.

Percorri outras terras,
crente que saía ao meu encontro
sem saber que buscava por ti.

Agora que estamos juntos,
- de mãos dadas -
- os dedos entrelaçados -
deixa-me confessar-te
que encontrei em ti
fragmentos de mim
porque em mim estão
fragmentos de ti.

fragmentos
perdidos num dia igual a este
feito de chuva e de lágrimas


- Maggs -