Estávamos num passeio habitual pela Cidade Velha, na ilha de Santiago. Fiquei encantada com o colorido dos trajes, com a forma engenhosa como as bonecas tinham sido feitas. A minha tia Isabel, fluente em wolof, aproximou-se da venda dos Senegaleses e iniciou o regateio do preço.
Mera espectadora de um diálogo que não conseguia entender, pude contudo pressentir o crescer de um misto de alegria e de tristeza por parte da vendedora.
Escolhi a boneca e aí a tristeza da vendedora pareceu dominar a alegria por ter feito negócio. Afectuosamente, acariciou e beijou a boneca, dizendo algo em wolof. Fiquei ávida pela tradução e a minha tia disse-me que ela se tinha despedido da boneca e que lhe tinha desejado felicidades.
A senhora tinha deixado o seu país, vendendo artesanato do Senegal na Cidade Velha, uma cidade que vive essencialmente dos turistas. Tinha a sua banca de venda, fazia pela vida, quem sabe tivesse deixado família próxima na terra-mãe. A sua tristeza foi genuína por ter de deixar ir algo que tinha sido criado nas suas mãos.
A boneca tornou-se, naquele instante, um objecto de afecto e tem-me acompanhado por todas as cidades onde tenho vivido desde então. É um objecto de afecto por esta mulher, por África (meu continente de eleição), por mim que sou filha da diáspora e nela me encontro. Os objectos de afecto nada mais sendo do que uma concretização material de sentimentos que nos ligam a alguém, algo...
Maggs
Em Fevereiro deste ano, ouvi no programa de rádio