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Monday, May 26, 2008

Objectos de afecto

Esta boneca vestida com um traje típico das mulheres africanas, feita em pano, meia collant e arame, faz parte do meu mundo desde Agosto de 2003.
Estávamos num passeio habitual pela Cidade Velha, na ilha de Santiago. Fiquei encantada com o colorido dos trajes, com a forma engenhosa como as bonecas tinham sido feitas. A minha tia Isabel, fluente em wolof, aproximou-se da venda dos Senegaleses e iniciou o regateio do preço.
Mera espectadora de um diálogo que não conseguia entender, pude contudo pressentir o crescer de um misto de alegria e de tristeza por parte da vendedora.
Escolhi a boneca e aí a tristeza da vendedora pareceu dominar a alegria por ter feito negócio. Afectuosamente, acariciou e beijou a boneca, dizendo algo em wolof. Fiquei ávida pela tradução e a minha tia disse-me que ela se tinha despedido da boneca e que lhe tinha desejado felicidades.
A senhora tinha deixado o seu país, vendendo artesanato do Senegal na Cidade Velha, uma cidade que vive essencialmente dos turistas. Tinha a sua banca de venda, fazia pela vida, quem sabe tivesse deixado família próxima na terra-mãe. A sua tristeza foi genuína por ter de deixar ir algo que tinha sido criado nas suas mãos.
A boneca tornou-se, naquele instante, um objecto de afecto e tem-me acompanhado por todas as cidades onde tenho vivido desde então. É um objecto de afecto por esta mulher, por África (meu continente de eleição), por mim que sou filha da diáspora e nela me encontro. Os objectos de afecto nada mais sendo do que uma concretização material de sentimentos que nos ligam a alguém, algo...
Maggs

Wednesday, August 22, 2007

Memórias de uma criança-soldado

Em Fevereiro deste ano, ouvi no programa de rádio Fresh Air da National Public Radio, uma entrevista com o Ishmael Beah sobre a sua luta pela sobrevivência durante a guerra civil na Serra Leoa na década de noventa. Lembro-me que ao ouvir a entrevista fiquei impressionada com a sua postura perante a vida, tendo em conta tudo o que ele viveu com apenas doze anos de idade. Ele perdeu os pais e os irmãos nessa guerra para além de ter sido recrutado pelo exército da Serra Leoa para combater a Frente Unida Revolucionária. Nessa entrevista, ele fala sobre a sua vida como soldado-rapaz, do seu processo de 'recuperação' após ter sido tirado do exército pela UNICEF e do doloroso processo de desintoxicação de todas as drogas que eles tomavam para, evidentemente, conseguirem praticar as atrocidades que cometiam.
Recentemente, li a autobiografia que Ishmael publicou e que deu origem à tal entrevista no Fresh Air. Obviamente, é um livro que descreve os actos violentos que ele testemunhou e que cometeu enquanto soldado. Essa violência é descrita de forma nua e crua mas sem ser sensacionalista porque ela é apresentada sob o olhar de uma criança que tenta tudo para chegar ao fim de cada dia vivo. E nessa luta pela sobrevivência, é necessário abafar todos os sentimentos de boa fé ou de respeito pelo próximo. Ao mesmo tempo, como que para prender o leitor até ao fim não o fazendo desistir perante tamanho desrespeito pela vida humana, ele vai descrevendo as tradições e os valores do seu povo, nomeadamente as suas memórias vivas da infância: o respeito pelos mais velhos - que são os sábios -, o ouvir histórias ao redor da fogueira, os vários momentos que ele passou com a avó que lhe contava como tinha sido a sua cerimónia de nome.
Ishmael Beah fugiu da Serra Leoa, através da Guiné Conacri em 1998, vivendo actualmente na cidade de Nova Iorque.
- Maggs -