Monday, October 08, 2007

Tranquilidade

Feitas as escolhas
encaixaram-se as peças.

Ligeiro
se tornou o caminho.
Infinito
se tornou o querer.
As incertezas, porque as há,
fortalecendo as outras certezas,
que são as convicções.

Feitas estas escolhas,
estas aqui, não outras;
hesitações não poderiam existir
ao entrar por este caminho
e não por outro.


- Maggs -

Deixar Omaha

Baixa de Omaha


No dia 13 de Janeiro de 2007, cheguei a Omaha com duas malas e uma mochila às costas. No aeroporto, o meu chefe à minha espera com um papel com o meu nome e aqui descrevi o meu deslumbramento com a neve que na altura caía... Na semana passada, entreguei a minha carta de demissão e deixarei Omaha em finais de Novembro. Estou de partida para um outro estado, uma outra cidade, seguindo o meu chefe, procurando novos desafios.
Confesso que me vou embora sem ter conhecido verdadeiramente a cidade. Não o fiz, por falta de entusiasmo, de curiosidade e de algum espírito de aventura. De Omaha, conheço três supermercados, dois centros comerciais, a baixa da cidade - o meu local preferido -, o hospital onde trabalho e o sítio onde vivo.... Também conheço o jardim botânico de Omaha, onde roubei a alma a um hibisco vermelho.
Tento fazer um balanço destes praticamente dez meses que vou passar aqui e sinto que ficará a lembrança de pessoas muito afáveis. Cruzo na rua com pessoas que me são estranhas e elas sorriem, muitas vezes dizem "olá", outras chegando até a desejar "um feliz dia". Nas lojas, posso suspeitar desta simpatia, até porque vi casos extremos de sorrisos largos que me levavam a imaginar que chegada a noite, a pessoa já deitada e antes de desligar a luz do candeeiro, tirava o sorriso congelado, revelando uma expressão sem vida, para retomar no outro dia bem cedo aquela expressão de alegria encomendada. Não vou sentir saudades do facto desta cidade ser pequena - para os padrões norte-americanos - que o sistema de transportes público resume-se a autocarros que eu nunca usei. Não é uma cidade pensada para os peões ou para pessoas que, como eu, preferem usar os transportes públicos em vez de terem a sua própria viatura.
Sim, na lembrança sorrisos de pessoas afáveis tal como é o sorriso da Lynne, a senhora que trabalha na cafeteria onde todos os dias vou tomar o meu chá. Ela tem uma presença muito suave, um sorriso simpático mas de olhar distante - o que sempre me intrigou. Há cerca de um mês disse-me que era de Ohio mas que vivia em Omaha há vinte anos e que na véspera tinha visto familiares que não via desde que tinha deixado o estado de origem. Foi aí que eu compreendi o seu sorriso, o seu olhar e pensei que eu também devo ter esse olhar - o olhar de uma saudade prolongada e da expectativa de um reencontro sempre iminente.
E o Jeffrey? Também preciso falar sobre o Jeffrey. Ele trabalha na cantina onde costumo ir almoçar, registando os pedidos para o almoço. Mesmo levando a minha comida, cruzamo-nos sempre e cumprimentamo-nos. Na semana passada, fui comprar o almoço e ele olha para mim, de modo firme, dizendo: hoje, sou eu que te ofereço o almoço. Não quis aceitar mas tive de me render quando ele me mostrou senhas que precisavam ser usadas. Costuma dizer-me: tens um sorriso bonito. Mas o meu sorriso nada mais é do que o reflexo do sorriso que ele tem ao atender as pessoas. Um dia, ele contou a mim e a outra colega que tinha dois trabalhos, que estava a tirar um mestrado em psicologia e que esta profissão era o melhor sítio para ele apreender o comportamento humano, observando como as pessoas entram na cantina, o que escolhem, como falam, etc.
Há também o Robert, do centro de cálculo. O computador que eu uso para "a minha caça ao 1%" é muito temperamental, obrigando-me a ir inúmeras vezes ao centro de cálculo. O Robert é com quem me dou melhor porque está sempre lá quando apareço. Sempre tranquilo e de sorriso aberto. A senhora da recepção, se demoro algum tempo sem aparecer, diz, mal abro a porta: "Já estava a estranhar a sua ausência. Seja bem-vinda!".
Sim, levo daqui muitos sorrisos atenciosos e tranquilos. E é isso que vou colocar na minha bagagem de memórias com a etiqueta "Omaha, Nebraska, USA".
- Maggs -

Sunday, October 07, 2007

Amanhecer em NY

vista do 31º andar do Millennium UN Hotel
Oiço, frequentemente, dizer que "Deus escreve direito por linhas tortas". Também já ouvi a expressão "Quem desdenha quer comprar". Depois de um fim de semana em NY, começo a acreditar que o meu "exílio" em Omaha deve-se ao facto de um dia ter desdenhado a cidade que nunca dorme.
Passei cerca de cinco horas de uma noite do mês de Abril de 2003 na Little Italy, com um grupo de colegas. Estávamos num workshop em Filadélfia e decidimos ir jantar a NY. Provavelmente, por estar saturada de metrópoles, onde muitas vezes se torna impossível ouvirmo-nos a pensar, odiei a experiência. Odiei aquele alcatrão, o cimento, as ruas sujas, a multidão.
O que dizer deste fim de semana em NY? Qual pessoa que esteve desterrada num lugar inóspito, senti uma alegria imensa com aquele rebuliço e nem a agressidade da condução automóvel me irritou. Que prazer caminhar por ruas cheias de pessoas - cheias de histórias pessoais -. Ouvir excelente música numa estação de metro ou no Central Park - simplesmente, parando, saboreando a música e depois continuar a explorar a cidade. Ir ouvir jazz no Blue Note e simplesmente sentir-me sedenta de novos sons. A artista dessa noite, Rachelle Ferrell, foi estrondosa e a sua risada contagiante - desculpando-se com o jetlag porque a banda tinha chegado de Tóquio - foi inesquecível.
Mas, para mim, o amanhecer em NY é que vai perdurar por muito, muito tempo na minha memória. Tive a sorte e o privilégio de ficar num 31º andar do Millennium UN Hotel, defronte ao edifício das Nações Unidas, permitindo uma vista fantástica da cidade. Quando cheguei ao quarto, na primeira noite, já estava escuro. Ao abrir a porta do quarto, fui por um longo corredor até chegar ao quarto propriamente dito e que visão... janelas enormes, mostravam-me as luzes da cidade. Não tive a coragem de baixar as persianas. O meu quarto estava virado para leste, por isso, era sempre acordada pelos primeiros raios de sol. Ainda sonolenta, levantava-me e ficava à janela um bocado e depois voltava à cama e dormia por mais um bocado, apesar do sol me bater de frente no rosto - mas era isso mesmo que eu queria. Não é o girassol a minha flor favorita?

Há ainda uma outra expressão "Nunca digas desta água não beberei". Desta vez, fui beber à fonte certa e conto ir lá mais vezes saciar a sede.

Friday, October 05, 2007

A dança da vida

Peguei naquele vestido.
Naquele especial.
Único.

Rindo e brincando
com as ondas,
descalça, na areia molhada.

Rodopiando, sem fim
Flutuando, com alegria
chegando ao meu âmago
transportada por brancas nuvens.

Onde
não há hesitações,
não há contradições,
somente
um longo maravilhamento
por sentir a vida a irromper em mim.


- Maggs -

Curiosidades... (III)

Estou a pensar seriamente em montar uma empresa que faça cartões de visita.
Onde costumo ir almoçar, o espaço está dividido em duas partes: uma para os "pobres" que ou levam comida de casa ou vão ao bar e outra para os "ricos" que ficam à parte e que têm direito a empregado de mesa, toalha e guardanapo de pano. Mas, os "ricos" comem o mesmo que os "pobres" que frequentam o bar. A comida é a mesma, contudo em vez de serem servidos em pratos e talheres de plástico, eles podem degustar o almoço com pratos e talheres à séria.
Hoje, ao almoço, observei um grupo de seis homens à porta da secção dos "ricos", à espera de serem conduzidos a uma mesa. Eles abriram as suas caixas de cartões de visita e começaram a trocar entre eles os cartões, tal como as crianças fazem quando estão a trocar cromos. Ou seja, antes de "quebrarem o gelo" com aquela conversa de circunstância, começaram logo a trocar os cartões não fosse o negócio correr mal e depois não se proporcionar o ambiente para a tal troca de cromos.
Bem... confesso que na semana passada, encomendei os meus cartões de visita. Mas os meus têm conchas do mar e ... se quero ir adiante com a ideia da empresa, decididamente, necessitarei de cartões de visita. E os meus têm conchas do mar!
- Maggs -

Thursday, October 04, 2007

Ponte

Devagarinho,
de mansinho,
uma pedra
a seguir outra
e outra
outra...

Peço
a ti,
a mim,
a nós
não sejamos irreflectidos.

Há tempo para
admirar o que nos rodeia
amadurecer os sentimentos
apreciar a chegada do momento.

Porque vai valer a pena
quando nos encontrarmos
a meio da ponte.


- Maggs -

Curiosidades... (II)

O telemóvel é praticamente um bem de primeira necessidade aqui. E observo com espanto que o uso do telemóvel sem recurso ao modo altifalante ou algo parecido durante a condução é prática corrente. Não me parecem preocupados nem com a possibilidade de um acidente por distracção nem com a conta telefónica.
Estando "mal habituada" aos padrões europeus (e penso que não seja só na Europa) onde só pago pelas chamadas que efectuo e pelas mensagens escritas que envio, não considerando o roaming, ando "nervosa" com a utilização do meu telemóvel aqui. Aqui, paga-se pela chamada que se faz, pela chamada que se recebe, pela mensagem que se envia e pela mensagem que se recebe. Por isso, só atendo as chamadas das pessoas que consigo identificar mas fico frustrada por receber mensagens de pessoas que não conheço e pagar por uma informação que não me diz respeito, tal como uma que recebi de um homem a dizer à namorada/mulher que se tinha demitido mas que o seguro de saúde para a criança estava assegurado. Isto num país onde sem um seguro de saúde está-se em apuros, acredito que seja uma excelente notícia mas... dispensava pagar por esta informação.
- Maggs -

Curiosidades... (I)

Ao habitual aviso de "proibido fumar" à entrada dos edifícios, pelo menos aqui em Omaha junta-se um outro... o desenho de uma arma de fogo e o símbolo de proibido por cima...
Para mim, o mais caricato foi ver esse aviso de proibição de porte de arma de fogo à entrada do parque de estacionamento de uma grande empresa de produtos alimentares, na baixa da cidade. Lembrei-me logo dos filmes de cowboys onde eles eram obrigados a deixar as armas antes de entrarem no saloon. Consigo até imaginar uma pessoa a deixar a arma à porta do parque a um marshal imaginário...
- Maggs -

Monday, October 01, 2007

Fome de viver

"Anseio abarcar, incluir na minha vida curta, tudo o que é acessível ao homem. Anseio falar, ler, manejar um martelo numa grande fábrica, ser vigia no mar, arar. Quero andar pela avenida Nevsky [em S. Petersburgo], ou nos campos abertos, ou nos oceanos - onde quer que a minha imaginação se estenda."

Anton Tchekov
Anton Tchekov e Leão Tolstoy, em Ialta, Crimeia

Avidez

Há um pulsar
insistente
aflitivo, muitas vezes.

Há uma voz
várias vozes, na verdade
em uníssono
em desacordo, muitas vezes.

Há uma vontade,
permanente,
hesitante, poucas vezes.

Há tanta comoção.
Há tanta contradição.
Há tanta determinação.

É simples:
Há sofreguidão de viver!

- Maggs -

As cores

Sussuram por aí
que o céu é azul
que o mar também é azul.

Há vermelho no céu.
Há verde no mar.
Há uma infinidade de tons
nesta vida que se desenrola,
nada mais sendo do que cambiantes
do nosso estado de alma.

- Maggs -

Thursday, September 27, 2007

Sonhando...

Com uma casa à beira-mar,
de janelas abertas de par em par.

Com o cheio a maresia,
de presença constante.

Com longas caminhadas,
de pés molhados.

Com as ondas brincando com as crianças
de gargalhadas encantadoras.

- Maggs -

Tuesday, September 25, 2007

Exílio

Estranho-me
nesta cidade
que me é estranha.

O andar, desajeitado
se encontra.
As mãos, vazias
se quedam.
O olhar, ausente
se fica.

O chão, estéril
se tornando
à minha passagem.

Harmonia,
no recolhimento,
aprendendo a viver
na multitude dos eus
igualmente
na expectativa do reencontro.

O chão, fértil
se tornando
à minha passagem.

Esta cidade
tornando-se suportável,
mesmo aprazível.

- Maggs -

Amizade

Tantos amigos!

Tantos sorrisos
em espontâneas
gargalhadas
se soltando.

Tantos olhares
que são ternos,
que são firmes,
também circunspectos,
se revelando.

Tantos abraços
que ainda
os sinto à minha volta,
se quedando.

Tantas saudades
e tantos amigos!

- Maggs -

António Aurélio Gonçalves

Não o fiz de propósito mas parece que o fiz em boa hora.
António Aurélio Gonçalves, conhecido por Nhô Roque, nasceu no dia 25 de Setembro de 1901, na cidade do Mindelo, em S. Vicente, Cabo Verde. Faleceu a 30 de Setembro de 1984.
Os estudiosos poderão falar das suas obras (em Portugal, Noite de Vento e Terra de Promissão estão disponíveis através da editora Caminho), os ex-alunos como ele era como pedagogo.
A Maggyzinha fala da terna lembrança de um homem de presença suave e agradável e de um sorriso discreto nos lábios.
- Maggs -

Monday, September 24, 2007

Rua do Nhô Roque

D. Bia era uma "senhora honrada", tal como ela fazia questão de frisar, empertigando o corpo pequeno, delgado e levantando ligeiramente o queixo. "Senhora honrada", dizíamos, porque "honradamente criei os meus seis filhos, ensinando-lhes a serem homens e mulheres honrados!" Costureira de profissão, "desde que me entendo por gente.", repetia às clientes enquanto lhes fazia a prova da roupa. Ainda criança, mostrara aptidão para a costura e a mãe, aliviada, encaminhara-a para aprendiz de costureira. Era menos uma preocupação saber que uma das filhas estava orientada com uma profissão. E D. Bia, de forma determinada e persistente, criou a sua reputação. Trabalhava em casa e quando lhe pediam a direcção, dizia "Conhece a rua do Nhô Roque? Ao chegar lá, pergunte pela casa da D. Bia que toda a gente me conhece nessa rua."
O quarto de costura da D. Bia dava para a rua do Nhô Roque e quando estava a trabalhar, as persianas de madeira da janela ficavam completamente abertas, de forma a aproveitar ao máximo a luz natural. Uma batida suave na persiana de madeira, fê-la parar a máquina de costura, baixar os óculos e sorrir ao reconhecer a pessoa que lhe batia à janela. Levantou-se com ligeireza, repousou os braços no peitoril da janela e iniciou uma alegre conversa com a amiga. A amiga tinha parado somente para dar um olá rápido porque ainda tinha de ir à praça comprar peixe para fazer no forno mas que logo mais, pela tardinha, passaria por ali novamente para a prova do vestido. "Não é que o baptizado do meu neto é já no Sábado? E daqui a uns dias, já o estou a ver a ir cursar." D. Bia riu com gosto, dizendo-lhe que não era bem 'uns dias', que a amiga não tinha necessidade de se preocupar porque o vestido estaria pronto para o baptizado e que "ainda bem que hoje eles conseguem ir cursar!"
D. Bia ficou ainda um pouco mais à janela, observando a amiga a afastar-se em direcção ao mercado. Quando se afastou da janela, fazendo tenção de regressar ao trabalho, o seu olhar caiu sobre a porta da casa do Nhô Roque. Sorriu ternamente, lembrando-se da sua figura erecta, elegante e de sorriso discreto nos lábios a caminhar em direcção à marginal para o seu passeio. Desde criança aprendera a admirá-lo, a respeitá-lo, observando-o à distância porque nunca se atrevera a conversar com ele. D. Bia não tinha tido a oportunidade de estudar, por isso, só o facto de saber que vivia perto de alguém que lia e que escrevia muito, dava-lhe uma grande alegria. Admitia que na sua luta honrada para dar a melhor educação aos filhos, tinha na sua mente a figura do Nhô Roque. Queria que os seus filhos estudassem e que se tornassem pessoas com cultura, para além de serem honrados. E se ele hoje estivesse vivo, ganharia toda a coragem do mundo e dir-lhe-ía que ela que nunca tinha estudado, tinha, honradamente, criado os seus seis filhos e que hoje, apesar da saudade por estarem todos emigrados, tinha a alegria de saber que os netos estavam a cursar, que falavam várias línguas e que até um estava a cursar para médico. Sabia que ele ficaria orgulhoso também, como se fosse da família.
O Nhô Roque de mãos nos bolsos das calças, postura erecta e de sorriso discreto nos lábios. Ainda de sorriso nos lábios, D. Bia recolheu à sua máquina de costura porque o vestido precisava ficar pronto para o baptizado do neto da amiga.

- Maggs -
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Vivendo na ilha do Santiago, passava as minhas férias escolares na ilha de S. Vicente. Na minha memória, tardes passadas no quintal da casa do Nhô Roque e da Djutinha a brincar. Ainda me lembro que havia um poço que eu estava proibida de me aproximar mas o resto do quintal era mais do que o suficiente para eu abrir asas e voar. A Djutinha de sorriso aberto e feliz por ter gente à volta, o Nhô Roque de sorriso discreto e postura erecta - um sorriso discreto e um olhar vivo! Nestes últimos dias, tenho pensado muito no Nhô Roque porque os meus pais dizem-me que quando for a Portugal em Dezembro, tenho de (re)ler as obras dele; porque todos nós temos excelentes recordações dele e que através da minha escrita posso prestar-lhe uma homenagem. Fiquei feliz por saber que na rua onde ele viveu, hoje é a Rua António Aurélio Gonçalves.

Presença

Ainda a noite
majestosa
igualmente
imperturbável
dava lugar ao dia
brilhante
igualmente
irrequieto
já eu estava pronta
para entrar pelo teu sono
sorrateira
igualmente
resoluta
e acompanhar-te pelo teu dia.

Não é isso que me tens feito desde que nos apartámos?


- Maggs -

Sunday, September 23, 2007

Quiçá (II)

Entreaberta
esta porta

quiçá, ainda
estranhos
um do outro,
hesitemos.

quiçá, ainda
sôfregos
um do outro,
ousemos.

Porque esta chave
foi encontrada
Porque esta porta
foi entreaberta

sejamos corajosos
e vivamos esta história.


- Maggs -

Como um rio...

Tantas saudades
nesta ausência
nesta distância

também
na tua presença.

Tantas saudades
no encontro
a separação
tornando-se iminente.

Tantas saudades
saciadas em tempo algum
quando o nosso tempo chegar.

Porque são estas saudades
que me fazem desaguar em ti,
nesta ausência
nesta distância

também
na tua presença.


- Maggs -

Saturday, September 22, 2007

Nha fidjo matcho

Lá vai ele. Tão novo e com tantas responsabilidades. Os calções vão escorregando à medida que ele caminha e ele, de modo automático, puxa-os para cima com a mão esquerda porque com a mão direita vai conduzindo o seu carro de lata. Deixai-o viver a sua infância. Não haverá tempo para uma criança se tornar adulta? Mas, basta estarmos vivos para estarmos sujeitos à adversidade...
Santiago regressava a casa depois de uma tarde com os amigos a jogar à bola. Também tinham feito um concurso de melhor carro de lata do mundo e o seu tinha ficado em segundo lugar. Ele sabia que para a próxima conseguiria o primeiro lugar porque ía pedir à mãe para comprar latas de azeite da marca X. É que essas latas tinham maior maleabilidade. Os planos já estavam todos feitos... E lá puxava ele os calções com a mão esquerda, enquanto a mão direita puxava o seu carro de lata, com uma carica como medalha de um honroso segundo lugar.
Ao entrar em casa pela porta da cozinha, pronto para gritar a plenos pulmões que a lata de azeite da marca X era a ideal para o seu próximo carro de lata, sentiu-se imediatamente acabrunhado com o ambiente pesado instalado em casa. Pessoas estranhas, sentadas à mesa. Silenciosas. Ele inquiriu: "A mãe?". Uma senhora, amiga da avó paterna, levantou-se e aproximou-se de Santiago, tentando agarrá-lo pelas mãos, fazendo com que ele largasse o carro. Mas ele recusou o gesto e apertando mais a mão direita no cabo de metal do carro, repetiu: "A mãe?". Nha Maria apareceu à porta que dava acesso ao resto da casa e fez um gesto para o neto se aproximar. O menino, obediente, seguiu a avó até ao quarto dela, deixando o carro perto da porta por onde tinha entrado. Ela fechou a porta do quarto, suavemente, sentou-se na berma da cama e chamou o neto para se sentar ao lado dela.
"É o pai, não é? Ele já devia ter regressado, não é? Ele costuma estar sempre de volta quando estou nas férias grandes... É o pai, não é?", Santiago falou de um trago só, após sentar-se no lugar indicado pela avó. Nha Maria, tentando manter uma postura tranquila, disse "Sim, é o teu pai. Ele já devia ter regressado. Mas o teu pai nunca foi de dar muitas notícias...". A avó ficou um largo tempo em silêncio. Os olhos do Santiago estavam dilatados e perscrutavam os olhos da avó que os baixava. "Um senhor da empresa esteve aqui há bocado e disse que perderam o contacto com o grupo onde o teu pai estava." Outra pausa. "Mas não está nada confirmado que tenha acontecido alguma coisa de mal ao teu pai. Ele está desaparecido... Entendes, meu neto?". Santiago não entendia. Ele só sabia que o pai se ausentava de casa por muito tempo. Ele sabia que o pai viajava para lugares distantes com outros homens e que trabalhavam para uma empresa e que o pai voltava sempre pelas férias grandes. Ele também sabia que nas férias grandes, os pais, a avó e ele exploravam a ilha de Santiago, vezes sem fim. Mas ele não entendia porque é que o pai estava 'desaparecido'.
"Avó, eu entendo." e coloca a sua mãozinha, pequenina, sobre as mãos da avó que repousavam no regaço. "O pai está fora e agora vai demorar mais algum tempo. Não é isso?". "É, meu neto. É isso mesmo." Nha Maria também queria acreditar que era mesmo só isso. Mas ela sabia que para onde o filho ía as coisas poderiam correr mal. E neste último sítio, uma guerra civil estava a eclodir. E o seu filho queria somente criar mais oportunidades para Santiago... Indo para longe, não vendo o filho a crescer... valeria a pena tamanho sacrifício? Era o que pensava Nha Maria. "Sim, meu neto. É isso mesmo.", repetiu. Santiago, tentando tranquilizar a avó, disse: "Avó, enquanto o pai não chegar, eu prometo que não vou dar tanto trabalho... assim, a avó e a mãe não se cansam tanto! Eu vou tentar ser menos traquinas... Também posso consertar as coisas... como o pai faz quando ele está aqui... Assim, nem vamos perceber que o pai ainda não chegou."
A mãe de Santiago, que tinha aberto a porta há já algum tempo, de olhos húmidos e transtornados pela angústia de uma incerteza mas sorrindo ternamente, disse baixinho: "Oh nha fidjo matcho..."* e fechou a porta novamente, dirigindo-se para as pessoas que estavam na cozinha.
- Maggs -
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* meu rapaz