Friday, March 14, 2008

Carta de alforria

Nesta hora escura,
- pungente, crua -
destemida me torno
e me desnudo
e me defronto
e me reconheço.

Nesta hora escura,
- serena, doce -
apaziguada me encontro
e me basto,
e me alegro
e me revejo.

Nesta hora escura,
- cristalina, autêntica -
sem pejos, declaro que
"aprendi a dizer não
naqueles instantes que
me negaram a mão."


- Maggs -

Sunday, March 09, 2008

Tempo para o amor - primeiro tempo

"Três tempos", Hsiao-hsien Hou (2005) - música "Rain & tears", Aphrodite's Child

- De mãos dadas -

Recriei-te noutros corpos,
nada mais que repositórios
das minhas visões sobre ti.

Percorri outras terras,
crente que saía ao meu encontro
sem saber que buscava por ti.

Agora que estamos juntos,
- de mãos dadas -
- os dedos entrelaçados -
deixa-me confessar-te
que encontrei em ti
fragmentos de mim
porque em mim estão
fragmentos de ti.

fragmentos
perdidos num dia igual a este
feito de chuva e de lágrimas


- Maggs -

Wednesday, January 09, 2008

Hábitos

Por hábito,
chamo por ti.
Às vezes, com urgência
outras, por hábito mesmo.

Por hábito,
espero por ti.
Nesta espera,
feita de hábitos,
até me esqueço
que por ti espero.

Por hábito,
chamo por ti.
Às vezes, com saudades
outras, por hábito mesmo.

Quiçá, já não sinta a tua ausência
neste hábito de sussurar o teu nome,
numa prece,
numa carícia,
numa alegria.



Acaso, por hábito,
não chamarás tu por mim?


- Maggs -

Ousadia

Compramos ilusões,
Vivemos frustrações,
Hesitamos opções.

Insistimos nas emoções
- que não são as nossas.
Permanecemos nos percursos
- que não são os nossos.

Nesta nudez crua,
mergulhados,
sufocados,
vazios.

Paremos aqui!
sejamos autênticos.
sejamos impetuosos.
sejamos honestos.


- Maggs -

Sunday, January 06, 2008

Tempos

Porque hesitas
Quando é o tempo da ousadia

Porque te ocultas
Quando é o tempo de te expores

Porque questionas
Quando é o tempo da acção

Porque te negas
Quando é o tempo de te assumires

Este instante é o teu tempo!


- Maggs -

Escavação

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E minh'alma perdida não repousa!

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
- Onde existo que não existo em mim?

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Um cemitério falso, sem ossadas,
Noites d'amor sem bocas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...


Mário de Sá Carneiro (1890-1916)

Saturday, January 05, 2008

"Pérolas de chuva" (II)



Gérard Depardieu, em Cyrano de Bergerac

Acto II, Cena VIII (uma parte)


CYRANO, LE BRET, LES CADETS, qui se sont attablés à droite et à gauche et auxquels on sert à boire et à manger


CYRANO, saluant d'un air goguenard ceux qui sortent sans oser le saluer
Messieurs... Messieurs... Messieurs...
LE BRET,
désolé, redescendant, les bras au ciel
Ah ! dans quels jolis draps...
CYRANO
Oh ! toi ! tu vas grogner !
LE BRET
Enfin, tu conviendras
Qu'assassiner toujours la chance passagère,
Devient exagéré.
CYRANO
Eh bien oui, j'exagère !
LE BRET, triomphant
Ah !
CYRANO
Mais pour le principe, et pour l'exemple aussi,
Je trouve qu'il est bon d'exagérer ainsi.
LE BRET
Si tu laissais un peu ton âme mousquetaire,
La fortune et la gloire...
CYRANO
Et que faudrait-il faire ?
Chercher un protecteur puissant, prendre un patron,
Et comme un lierre obscur qui circonvient un tronc
Et s'en fait un tuteur en lui léchant l'écorce,
Grimper par ruse au lieu de s'élever par force ?
Non, merci ! Dédier, comme tous ils le font,
Des vers aux financiers ? se changer en bouffon
Dans l'espoir vil de voir, aux lèvres d'un ministre,
Naître un sourire, enfin, qui ne soit pas sinistre ?
Non, merci ! Déjeuner, chaque jour, d'un crapaud ?
Avoir un ventre usé par la marche ? une peau
Qui plus vite, à l'endroit des genoux, devient sale ?
Exécuter des tours de souplesse dorsale ?...
Non, merci ! D'une main flatter la chèvre au cou
Cependant que, de l'autre, on arrose le chou,
Et donneur de séné par désir de rhubarbe,
Avoir son encensoir, toujours, dans quelque barbe ?
Non, merci ! Se pousser de giron en giron,
Devenir un petit grand homme dans un rond,
Et naviguer, avec des madrigaux pour rames,
Et dans ses voiles des soupirs de vieilles dames ?
Non, merci ! Chez le bon éditeur de Sercy
Faire éditer ses vers en payant ? Non, merci !
S'aller faire nommer pape par les conciles
Que dans des cabarets tiennent des imbéciles ?
Non, merci ! Travailler à se construire un nom
Sur un sonnet, au lieu d'en faire d'autres ?
Non, Merci ! Ne découvrir du talent qu'aux mazettes ?
Être terrorisé par de vagues gazettes,
Et se dire sans cesse : "Oh ! pourvu que je sois
Dans les petits papiers du Mercure François" ?...
Non, merci ! Calculer, avoir peur, être blême,
Préférer faire une visite qu'un poème,
Rédiger des placets, se faire présenter ?
Non, merci ! non, merci ! non, merci ! Mais... chanter,
Rêver, rire, passer, être seul, être libre,
Avoir l'œil qui regarde bien, la voix qui vibre,
Mettre, quand il vous plaît, son feutre de travers,
Pour un oui, pour un non, se battre, - ou faire un vers !
Travailler sans souci de gloire ou de fortune,
À tel voyage, auquel on pense, dans la lune !
N'écrire jamais rien qui de soi ne sortît,
Et modeste d'ailleurs, se dire : mon petit,
Sois satisfait des fleurs, des fruits, même des feuilles,
Si c'est dans ton jardin à toi que tu les cueilles !
Puis, s'il advient d'un peu triompher, par hasard,
Ne pas être obligé d'en rien rendre à César,
Vis-à-vis de soi-même en garder le mérite,
Bref, dédaignant d'être le lierre parasite,
Lors même qu'on n'est pas le chêne ou le tilleul,
Ne pas monter bien haut, peut-être, mais tout seul !

Edmond Rostand

"Pérolas de chuva" (I)



Jacques Brel - Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur
Ne me quitte pas

Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embraser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas

On a vu souvent
Rejaillir le feu
D’un ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas

Monday, December 31, 2007

Ano Novo

Brancas margaridas
hoje, outra cor não podia ser.

Brancas margaridas
hoje, trouxe-as na mão direita.

Brancas margaridas
hoje, especialmente hoje
tinham de ser estas e não outras.

Brancas margaridas
para receber o Ano Novo.


- Maggs -

"It's all about connections..."

O meu Honda Civic - ano de colheita: 1998

No dia 20 de Novembro de 2007, tornei-me proprietária de um Honda Civic. Nos quatro dias que andámos juntos, provavelmente, ele viveu mais emoções do que nos nove anos de convivência com o dono anterior. E algo me diz que ele se sente bem confortável e seguro na garagem, não ansiando pela minha chegada.
No dia 1 de Dezembro, logo cedo fomos ao stand de automóveis colocar a matrícula definitiva. Saímos de lá, orgulhosos, no mínimo. Após um pequeno-almoço no café Caribou (com internet grátis, visto ainda não ter internet em casa), fomos ao supermercado e regressámos a casa. Depois do almoço, fomos ao centro comercial porque precisava de chaves de fenda para montar uma mesa. Quando saí do centro comercial e aproximei-me dele, notei que o pneu dianteiro do lado direito estava nitidamente em baixo. Bem devagarinho, regressámos a casa e telefonei ao meu amigo Said - o Said é um taxista que me "adoptou" porque ele sabe o que é "estar em terra estranha sozinho".
O Said, muito prestável, disse-me para não me preocupar que em meia-hora estaria em minha casa e que me arranjaria "pneus baratos e bons". Quando apareceu, olhou para o pneu e disse que ele estava em bom estado, apesar de estar em baixo, e que iríamos até à garagem de um amigo dele. Decidimos que iríamos no meu carro, com ele conduzindo. Só sei que enquanto eu procuro cumprir os limites de velocidade... com ele, foi coisa que não se viu. Pneu em baixo? Não foi limitação para a sua condução até à garagem.
Após inspeccionarem os pneus todos, tiraram o pneu com problemas e descobriram um prego. Enquanto mudavam o pneu, Said decidiu investigar a qualidade do motor do meu carro em segunda mão e dar-me uma aula sobre como ver quando o óleo devia ser mudado, etc etc. Após a sessão de esclarecimento, Said ao fechar o capô do carro, esqueceu-se do gancho que o prendia e ... partiu o gancho como também o capô do carro ficou com uma grande amolgadela, não se conseguindo fechar.
Nervoso e muito chateado consigo próprio, Said, de origem árabe, falou-me de um ditado da sua cultura que diz que ao nos empenharmos muito a delinear o contorno dos olhos com o lápis (khôl), corremos o risco de borrarmos a pintura. Era como ele se sentia. Tanto esforço em ajudar-me que já me estava a dar prejuízo. Mas disse-me logo: "não te preocupes que tenho outro amigo que tem uma oficina que faz arranjos aos carros!" Telefonou ao amigo mas já eram quase 16h de um Sábado e a oficina já estava fechada. Mas para não me preocupar que ele tinha outro amigo e que iríamos a casa dele. Disse-me que eram pessoas que ele também já tinha ajudado e que era muito importante ter esta rede de contactos. Lá fomos nós no meu Honda Civic até à casa do amigo. Consertaram-me o capô e ele, descontraído novamente, insistiu que deveríamos ir a um café árabe para compensar pela tarde "azarada". Lá fomos ao café Sindbad - bebi um chá de menta e Said fumou o seu narguilé.
Conheci o Said quando, no dia 21 de Outubro, pedi na recepção do hotel onde estava alojada um táxi para me levar ao aeroporto internacional de Detroit, de regresso a Omaha. Em Novembro e Dezembro, no espaço de uma semana, Said levou-me ao aeroporto três vezes e foi buscar-me uma vez. Num total de cinco viagens, para além de termos estado sempre à conversa, assisti a episódios de vida singulares que me fizeram sentir que para além de ele ser "a good connection", é um amigo neste processo de adaptação ao american way of living.
Em Outubro, ao entrar no carro, vi uma menina de cinco anos, sentada no lugar da frente. Said explicou-me que a filha estava de castigo, i.e. se ela tivesse ficado em casa, estaria a ver televisão e o castigo era não ver televisão. O Said é um conversador nato, por isso, falou-me das suas origens, que praticou futebol profissional na Europa e que vivia nos Estados Unidos há quinze anos. Ao chegarmos ao aeroporto, deu-me o seu cartão e que não hesitasse em entrar em contacto com ele, quando regressasse a Dearborn/Detroit.
No dia 21 de Novembro, telefonei-lhe para me levar ao aeroporto. Nesse dia, chovia torrencialmente em Dearborn e quando o Said chegou, notei uma jovem sentada no lugar da frente. Pensei logo: "deve ser a filha mais velha. Estará de castigo?" Mas não. Ao chegar ao complexo residencial onde aluguei a casa, ele viu a jovem, de nome Djamila, a caminhar à chuva e com um garrafão na mão. O carro da Djamila tinha ficado sem gasolina e Said tinha-se disponibilizado para levá-la a um posto de gasolina que ficasse perto. A jovem agradecia-nos a amabilidade porque actualmente é cada vez mais difícil prestarmos ajuda a estranhos - sim, de facto, éramos três estranhos num Lincoln, com a chuva torrencial a separar-nos do resto do mundo.
No dia 26, o Said foi buscar-me ao aeroporto. Disse-me baixinho, mal me viu: "Tenho aqui outra cliente que pode ser um excelente contacto para ti. Fala com ela durante a viagem até Dearborn." Nesse fim de tarde, o Said tinha três clientes: um engenheiro turco a viver na Alemanha e que iria trabalhar uma semana na Ford; a Nancy, uma cliente do Said desde há três anos e que trabalha em Detroit e eu. Enquanto o Said e o engenheiro falavam sobre Dearborn e Detroit, nos lugares dianteiros, a Nancy e eu iniciámos também uma interessante conversa. Por ser da costa leste americana, indicou-me os melhores locais para comprar peixe fresco em Dearborn - e isso não é um excelente contacto?

Saturday, December 29, 2007

Partilha

Cozinha do apartamento no Museu Casa Milà, projectado por Gaudí (Barcelona, Dez.-07)


Para a Miss Curls, pelo energy boost



À mesa, partilhámos
a vida, já vivida.
Os sonhos, ainda
por viver,
por partilhar.

À mesa, sonhámos
a vida, por viver,
os sorrisos, por partilhar.

À mesa, sorrimos
pela partilha sentida,
pela vida, já vivida.


- Maggs -

Perguntar ao verbo

O professor Manso Gigante foi o meu professor de Português no 8.º e 9.º anos, no Externato Júlio César, na Pontinha. Na minha memória, a sua postura distinta e um sorriso sarcástico nos lábios. Quando ele foi meu professor, já tinha atingido uma idade que justificava o sorriso zombeteiro, quase constante, nos lábios.
No Externato, os alunos esperavam pelo professor na sala, de pé, e só se sentavam depois da indicação do professor. Por isso, lembro-me do professor Manso Gigante a entrar na sala de aulas, de fato, com um exemplar da obra em análise, o livro dos sumários e um caderno pessoal. Ficava sentado a aula inteira, com os dedos entrelaçados sobre a mesa, olhar penetrante.
Nesses dois anos, a língua portuguesa deve ter sido a disciplina mais estudada por mim porque cada aula era um autêntico exame - era exposta à turma, praticamente em todas as aulas. Aprendi a desnudar as frases, perguntando ao verbo: "o quê? a quem?" para saber os complementos directo e indirecto. Aprendi a dialogar com a gramática, a descobrir os sentidos escondidos em paragráfos, inicialmente, herméticos para mim. Igualmente, aprendi que as minhas fronteiras pessoais podiam ser renovadas todos os dias, podiam ser redesenhadas e aumentadas todos os dias - um exemplo do que deve ser um excelente pedagogo.
A expressão "desaguar à Fragoso" era proferida por ele sempre que chegava a minha vez de responder a uma pergunta que alguns alunos não tinham conseguido responder. A procura da resposta correcta era feita chamando os alunos por ordem alfabética, por isso, quando se aproximava da letra 'M', eu sentia que o meu nível de adrenalina aumentava. Por vezes, não soube a resposta e ele com um sorriso irónico tentava espicaçar-me fazendo-me sentir mal por não saber a resposta. O seu objectivo nunca foi o de humilhar-me mas sim fazer-me ultrapassar os meus próprios limites e por mim mesma.
Penso amiúde no professor Manso Gigante. O seu olhar acutilante, o seu sorriso e a sua forma de falar acompanham-me ainda hoje porque nunca duvidei que ele me estivesse a ajudar a ultrapassar os meus próprios limites. Os professores marcam-nos para a vida. Guardo excelentes recordações de muitos professores mas muito especialmente do professor Manso Gigante.

Pacífico, meu tormento...

Ao desembarcar no cais, não podia, não queria acreditar no que estava vendo.
Homens armados, com o olhar de quem sabe o que está a fazer, sem, na verdade, o saber. Mal recebem uma notificação, dizendo que precisavam defender a pátria, lá se iam orgulhosos...
Chamo-me John. Sou jornalista do jornal americano Sun e, neste momento, sou correspondente de guerra no Pacífico. Meu Deus, se os trouxesse aqui para verem no que se transformou Hong-Kong... Talvez não acreditassem!
Numa cidade sinistra, onde as barricadas impõem a sua trágica presença! Onde estão os gritos, a algazarra feliz das crianças?!
Numa palavra ou expressão, onde está a beleza que tanto apreciei há 5 anos quando vim fazer a minha primeira reportagem no Oriente?...
Hong-Kong, colónia britânica, no seio da 2ª Guerra Mundial, servindo de joguete entre potências que, por um lado querem subjugá-la e anexá-la a um grande império, o Japão, e, por outro lado, pretendem mantê-la como uma colónia importante no comércio e tráfico de especiarias do Oriente, a Inglaterra.
Aproximo-me dos correios. Talvez haja algum telegrama para mim.
Quando abro a porta e penetro no edifício, depara-se-me o encarregado dos correios, falando da Guerra que assolava o seu querido Oriente a um senhor de idade que talvez tivesse aparecido lá em busca dum abrigo para a noite que, lúgubre, se aproximava.
O relógio marca 7 horas. Mais um dia se passou. E falando num chinês fluente, inquiri:
- Há algum telegrama para mim? O meu nome é John Madigan.
- Há sim. Agora com a guerra só recebemos telegramas para os oficiais. Acaso é o senhor algum oficial disfarçado?
- Não, não sou. - Porém, como me queria livrar o mais depressa desse homem, num ápice, tirei-lhe o telegrama das mãos e fui-me embora, saindo a correr.
A rua estava quase deserta.
Daqui a pouco começaria a ronda e, por isso, precisava encontrar sem tardar, um alojamento.
Foi fácil. Hong-Kong deixou de ser visitado por turistas, mas sim por mercenários e assassinos que preferem o anonimato, dormindo em cabarés ou outro tipo de esconderijo.
O quarto era do mais miserável. Uma cama velha, uma bacia e uma ventoínha avariada, constituiam o seu recheio e mobiliário.
Sem pressa, abri o telegrama:
"Japoneses aproximam-se
Atacam 25/12/41
Boa sorte"
Amanhã é 25 de Dezembro!
Malditos! Tanta fome de vencer que nem esperam mais um dia para se saciarem!
Tive um pesadelo. Sonhei com o meu Natal do ano passado. Passei-o com os meus pais e irmãos. Brinquei muito com o meu sobrinho John. Tem 4 anos. Muito inteligente. Ele estava num deserto, sozinho, sem ninguém, mas estava a brincar com o carrinho que lhe dei, feliz. Sim, brincava com uma felicidade enorme! Mas eu intimamente queria que ele saísse dali, pois os japoneses se aproximavam. Gritei. Nenhum som saíu. Estava sufocado. Não conseguia fazer ecoar o meu gritar! E ele, indiferente, continuava entretido e entregue na sua brincadeira. Cada vez mais aumentava a minha aflição, pois os japoneses aproximavam-se assustadoramente.
De repente, o barulho das bombas a cair, a explosão.
- John, John. Por favor, responde-me. Acordei molhado de suor. E sem haver tréguas outra e outra explosão. Levantei-me, aproximei-me da janela e vi... Meu Deus! O que os meus olhos vêm! Mulheres e crianças a gritar desesperadas. Casas a arder. Animais fugindo, cujos ganidos pareciam dizer: "Vocês não têm consciência do mal que estão a provocar."
Gritei alto e chorei. Sim, chorei como não chorava desde criança. De raiva. Sem dúvida nenhuma, eu era uma criança. Talvez, por isso, não atingia o motivo pelo qual os homens lutam, matam-se e só para poderem, quiçá, no fundo dizer "Tenho poder".
Vesti-me e saí a correr como um louco. Tinha uma máquina fotográfica. Tirei fotografias das crianças abandonadas a chorar, de animais mortos com os olhos voltados para o céu, parecendo implorar a Deus como último recurso.
Hoje 25 de Dezembro de 1941, nasce Jesus e morrem crianças e animais...
Para quê? Porquê? Simplesmente não sei...
O ataque terminara. A minha vida terminara, neste instante. Prometi a mim mesmo que ao voltar para a América, escreveria o artigo da maneira como vi o ataque, sem subtilezas. Fotos mostrando o sofrimento e desespero dos que não tinham nada com a Guerra, ilustrariam a reportagem. E abandonaria a minha carreira. Podia trabalhar na loja do meu pai.
Não voltei ao hotel, não suportaria mais. Fui ao cais e comprei o bilhete para Xangai. De lá voltaria de avião, via Paris, para a América.
Senti e ouvi os japoneses a entrarem em Hong-Kong enquanto entrava no barco que me levaria a Xangai.
Sentia-me só e melancólico. Não queria acreditar que no dia de Natal os japoneses tivessem combatido. Não souberam respeitar o nascimento de Jesus. E ele viera espalhar pelo mundo a fraternidade e solidariedade humana.
São cristãos os japoneses? - perguntei-me.
Não soube responder. A minha mente estava bloqueada e eu só queria chegar ao aconchego da casa dos meus pais o mais rapidamente possível, antes do fim de ano.
Talvez conseguisse afastar do meu espírito esse insólito pesadelo e readquirir a confiança na vida. E quem sabe nos próprios homens apesar do que assisti, infelizmente...
- Margarida Fragoso, 9.º ano, Externato Júlio César, 1986 -
_______________
Quando o professor Manso Gigante pediu aos alunos do 9.º ano que escrevessem um conto de Natal para um concurso, decidi que iria escrever algo sobre a guerra e que procuraria um local que tivesse sido invadido no dia 25 de Dezembro. Porquê o jornalista americano? Bem, achei que seria pouco provável um jornalista português em Hong-Kong nessa altura.

Tuesday, December 25, 2007

Guardião

Pórtico da propriedade Guell, projectada por Gaudí (Barcelona, Dez.-07)


Na imponência do dragão,
o reflexo dos teus receios.
Algoz, guardião,
na medida dos teus arrojos.

Para lá do pórtico,
guardião da tua essência,
- acaso oprimam a tua alma.
guardião da tua liberdade,
- porventura te enclausurem.


Guardião, nunca carrasco!


- Maggs -

Festim

Cozinha do apartamento no Museu Casa Milà, projectado por Gaudí (Barcelona, Dez.-07)

O fogão, cozinhando os sabores.
O cheiro, conquistando os espaços.
O calor, aquecendo os corações.

O festim, a alegria do reencontro.


- Maggs -

Monday, December 24, 2007

Regaço

Os meus braços, as tuas muralhas.
O meu peito, o teu castelo.
O meu regaço, o teu refúgio.
- confessou-me o teu olhar.

Os nossos desencontros, a nossa reunião.
Os nossos receios, a nossa audácia.
Os nossos adiamentos, a nossa ocasião.
- revelou-me o teu sorriso.

"Meu amor, estou aqui.
Há refúgio no meu regaço".
- a tua voz, no meu sonho de ontem.


- Maggs -

Tempos difíceis

Violentando o íntimo.
Descaracterizando a natureza.
Desacreditando os ideais.

Lágrimas, deslizando,
morrendo nos lábios hirtos,
deixando um sabor amargo na boca.
Olhar baço, mãos inertes, ombros recolhidos.

Foram tempos difíceis.
Perdi-me, mas encontrei-me,
na desarrumação das emoções.

Perdi-te, ainda não te encontrei.



- Maggs -

(Omaha, 10 de Novembro de 2007)

Entardecer

No entardecer deste amor,
não quero falar de amor.

Ao longe, observo-me.
Sentada, abraçando-me,
não podendo falar de amor.

As minhas mãos, vazias.
Os meus olhos, secos.
Em mim, a incredulidade,
não conseguindo falar de amor.

No entardecer deste amor,
quero dizer-te que quero falar de amor novamente.



- Maggs -

(Omaha, 10 de Novembro de 2007)

Recanto

Já te falei
daquele recanto
onde tudo é possível?

Basta acreditares em ti.



- Maggs -

(Omaha, 10 de Novembro de 2007
publicado no Jornal Artiletra, Nov.-Dez. 2007)

Monday, December 17, 2007

Vozes

De mansinho,
vem para junto de mim.
Por este caminho,
tenta não causar distúrbios.
Não vamos desassossegar
as outras vozes
- que te desassossegam -.


Acredita no que te digo
- não no que as outras vozes te dizem -.

Não tenhas receio de voar.


- Maggs -